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Arquivo de

Flipando

Car@s, nos 45 do segundo tempo resolvi ir à FLIP, parto amanhã. Não atualizarei o blogue por lá, na volta trago-lhes algo. Creio.

Durante o evento milhares de coberturas serão feitas, mas vale lembrar que as mesas poderão ser vistas via web, ao vivo, basta acessar e fuçar: http://www.flip.org.br/aovivo_2009.php

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Rock with you

MJ foi, de fato, um ídolo da minha geração, talento  solo que eclodiu lá pelos meus 12 anos, cuja trilha inelutável (que palavra justa!), me faz resgatar uma alegria de festas e acontecidos vários de que eu não me lembrava mais –  lá atrás eu acreditei numa progressão sempre ascendente e reta para alguns, para ele. Era preciso, talvez aos 12 fosse. Dedico este clip há uns  meninos queridos, como Che Leal, Bukassa, Eugênio Lima,  que no Equipe, escola em que estudei, me “levaram” mais para perto dos passos de MJ e para Black Nights, Sub Club, Unidade Móvel, entre outros.  Nessa toada, gostaria de indicar a leitura de um texto do Eugênio, bastante revelador do sentido desta perda.  Trata-se de uma espécie de carta endereçada a uma geração, reconheço-me como destinatária. Ela está no blog  do Jeferson De, para ler clique aqui.

Quem tem medo de Sophie Calle?

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Pig, from the series “Les Autobiographies”, 2001, photograph and text on aluminium, 170×100 cm and 50×50 cm – aqui

Ainda não sei o que pensar sobre Sophie Calle, digamos que tenho um pé atrás em relação a ela, a seu decantado exibicionismo, a  sua intimidade  pronta a nos atravessar e devassar, assim mesmo, num movimento pelo avesso: quanto mais ela se mostra, mas ela exige do outro que se exponha também, não só seus amantes, pais e outros objetos eleitos, mas nós também, a “audiência”, na medida, por exemplo, em que ela nos convoca a tomar um partido, pois é. Posição incômoda, como se ela nos pedisse um voto (de confiança?), nela, na sua personagem, na sua versão,  de bate-pronto, como num reality show , ainda que explicite que fale do lugar mais relativo e frágil possível. Calle parece estar onde a arte conceitual flerta com o mais banal, mas sem perder a pose (quase perdendo), daí a graça. Sinto como se ela testasse até onde vai nossa curiosidade e nosso gosto. Em boa medida eu acho de mau gosto o que ela faz, mas ao ler e ver: não, já que é tudo muito elegante. A mulher me pega na curva, ali onde eu não estou bem segura, naquele ponto maldito em que não sabemos bem discernir o que estamos vendo ou do não estamos. Será a obra de Sophie Calle isso mesmo, só isso, ou isso tudo?

Independente da dimensão e alcance de sua obra,  entretanto,  o  que não posso negar é que  de alguma forma comporto uma “Sophie Calle” (!), e sei que muitas outras mulheres também, para o bem e para o mal, um papel possível: o da vítima que se identifica com o agressor e torna-se pior do que ele… Parece que  Calle funciona sempre num movimento de revide, de vingança, não apenas na sua obra mais falada do momento – o tal email de término do namorado que ela expôs a 107 mulheres, que o responderam,  e depois  ao mundo como forma de purgá-lo -, mas em seus mais antigos e pequenos textos também.

Textos cuja necessidade da reparação não cala nunca, já que, óbvio, a resposta que ela deseja não se dá,  não há como remediar a dor que lhe causaram, só mediar, pela arte, num faz de conta que não dá conta – não estanca nunca. Seria Calle mais uma num exército (de ressentidas?) não fizesse de seus fantasmas a matéria prima de suas obras, despudoradamente – não jogasse no ventilador ela e o outro, bem no espírito de seu (nosso) tempo, num espelhamento sado-masô mesmo, sem escrúpulos seja com quem for, no limite. Que medo. Não sei se posso gostar disso, acho que não. Preciso de tempo para ver e  saber com mais justeza, sabe?

Ganhei do amigo E.M. o livro  Des histoires vraies, de 1994, cujos textos reverberam (e mesmo se repetem) em todas as suas exposições, performances, livros, na sua produção, enfim: quem “ressente” sabe fazer a receita do bolo render.  Elegi um textinho para vocês (a tradução é de E.M.), exemplar do que intuo/ procuro apontar em seu trabalho (ela escreve muito bem, diga-se):

La dispute

Le Mardi 10 mars 1992, à onze heures cinquante, il m’ a jeté à la figure les objets suivants: une boiulloire vide, une planche à pain, un sofa jaune à deux places, quatre coussins, une monographie de Bruce Neuman et un téléphone noir qui défonça la cloison. C’ est alors que je compris qu’ il me demandait: l’ écouter. A treize heures, tout était rentré dans l’ordre. Restait le trou dans le mur: certre denière trace, je l’ ai cachée derrière notre photografie de mariage.

A briga

Na terça-feira, 10 de março de 1992, às 11 e 50, ele me jogou na cara os objetos seguintes: uma chaleira vazia, uma tábua de pão, um sofá amarelo de dois lugares, quatro almofadas, uma monografia de Bruce Nauman e um telefone preto que furou a parede. Foi então que compreendi que eu preciso fazer a única coisa que ele me pedia: escutá-lo. Ás 13 horas tudo estava em ordem. Sobrou o buraco no muro: essa última marca eu escondi atrás de nossa foto de casamento.

Lançamento, hoje

Era_uma_vez

Querido Marcelo Maluf organizou o volume, vinte autores, vinte contos infanto-juvenis, de gente como Tatiana Belinky, que destaco dentre outros pelos tantos “Era uma vez”  prestados, e também pelo fato de condizer, não por acaso,  com a faixa etária que tem mais frequentado meus posts ultimamente.

P.S.: Abrirei uma página só para divulgar lançamentos no bloguinho, o próximo vai encartado, digamos assim.

Será arte?

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

Sergio Britto em Beckett

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foto de guga melgar

Depois de falar tanto de Fernanda eu não poderia deixar de comentar Sergio Britto em A última gravação de Krapp e Ato sem palavras 1, de Beckett, dirigido por Isabel Cavalcanti. Peça que aliás, saiu de cartaz no final de semana passado.

Como eu não sou jornalista, não me atenho ao tempo que os espetáculos estão em cartaz e serviços assim, mas penso que deveria, há coisas que urgem serem vistas, Sergio Britto é o caso, Beckett também. Mas creio que esta peça como a de Fernanda devem voltar para uma segunda temporada, aí me redimo.

Acredito que não seja coincidência que dois atores tão próximos na arte e na vida tenham escolhido monólogos à esta altura da carreira e, sobretudo, que tratam, cada uma à sua moda, da brutalidade e absurdo da existência, da solidão em que estamos inelutavelmente mergulhados – e do que podemos ou não fazer com isso.

Quero deixar registrado aqui meu encantamento pelo domínio das palavras, pelo gosto por elas na boca do ator em a Última gravação de Krapp, como também pela potência imensa dos mínimos gestos deste homem de 80 anos em cena.  Não esquecerei o modo como ele comeu três bananas nesta peça, como suas mãos as decascaram e as empurraram paulatinamente goela abaixo. Pois é, uma banana e um ator podem alimentar uma existência por um tempo imprevisível. Isso já não vale o jogo?

Não bastasse a Última gravação…, Britto também se lança ao Ato sem palavras 1, que foi originalmente criado para o ator   e dançarino Derik Mendel, mas que o ator adapta aos limites, que podem ser ganhos em se tratando de teatro, de seu corpo, liberdade justa, digamos, ao se apresentar um autor que faz da nossa ” impotência a sua potência”. No limite, interpretar trata-se disso também, não?

Ver Fernanda Montenegro e Sergio Britto tão bem, na ativa, é algo alentador, acho que é isso. Dá gosto e sentido usar a já tão gasta palavra “contemporâneo” em releação a eles, se alguma contemporaneidade me interessa, ela está muito próxima desses senhores. Ser do mesmo tempo deles é uma destas contingências da vida que só tenho a agradecer.

Bate-papo com Fernanda Montenegro

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foto de pennah

Ontem eu fui assistir a um bate-papo gratuito entre Fernanda Montenegro e Jorge Coli,  que faz parte de um projeto chamado “Caminhos da liberdade”, no qual parte significativa da pesquisa que precedeu a montagem de Viver sem tempos mortos é levada ao conhecimento do público. Encontros como este tem se dado todas as quartas-feiras desde de 20 de maio, só soube ontem, o de quarta que vem será o último. Corram!

Antes da conversa, foi apresentado o documentário Une femme actuale, de Dominique Gross. Creio que não o apreciaria tanto caso não tivesse visto a peça que, aliás, praticamente o dispensa, honestamente. Entretanto ele estimulou um bom começo de prosa, sobretudo porque para o meu espanto, diante das questões colocadas pela platéia, percebi que muita gente ali não havia podido ver a peça como eu. Um fenômeno que só um país como o nosso pode “‘oferecer”. A atriz, além de atuar Beauvoir, no bate-papo, generosíssimamente versou sobre e decifrou a filósofa na maior leveza para uma platéia que certamente só conhecia a Fernada da tevê e nunca tinha sequer ouvido falar de Beauvoir.

Situação que só espantou a mim e mais um poucos,  Fernanda não se melindrou, muito pelo contrário, pelo que entendi este projeto é uma iniciativa dela,  mais do que ninguém a veterana sabe (e ousa saber) quem é sua platéia, e se dirige a ela sem pejo, com interesse, disponibilizando inclusive livros de Beauvoir no lounge do teatro.

Abismei-me com seu bom humor, com seu gosto pela reflexão e pela palavra, é de fato uma das mulheres mais inteligentes e lúcidas de que tenho notícia. Depois do que ouvi não me resta dúvida de que a dramaturgia da peça, que não é assinada, seja , em boa e incomensurável medida, dela.

Como é bom ver um ator com um domínio das palavras que rivalize com o do corpo, em que um esteja à altura do outro, cujas energia física e potencialidade vocal estejam prontas para dar cabo do texto, para enfrentá-lo. Coisa rara em tempos que que o corpo, mudo e desencarnado, prevalece, roubando tantas cenas.

Viver sem tempos mortos

fernandona

foto da bravo

Se eu pudesse assistiria a esta peça inúmeras vezes, mas os ingressos já estão esgotados e a temporada é dolorasamente curta. Ficaria lá, no teatro, quieta e em júbilo, assistindo Fernanda Montenegro interpretar Simone de Beauvoir pelo tempo que fosse, ad infinitum, digamos. Passado o espetáculo, percebo melhor o sentido das minhas palmas reiteradas, além de uma salva calorosa à atuação de Fernanda, elas foram de fato um pedido para que ela não saísse do palco, para que ficasse. Foi difícil sair do teatro e deixá-la, sair da peça, coisa que nunca havia me acontecido, como se eu quisesse poder voltar ao espetáculo a qualquer momento como podemos fazer com os livros mais queridos. Senti-me como uma criança que deve deixar uma festa no seu melhor, ainda que nesta peça o melhor esteja em toda sua extensão, não há tempos mortos na interpretação funda da existência de Beauvoir que Fernanda nos oferece.

O que relativamente me conforta é que esta peça, sem metalinguagens ou outros expedientes conceituais, já indicia que poderá viver em mim por um tempo que eu não posso sequer mesurar, justo pelo fato de ela se instaurar nua e cruamente no presente e defendê-lo com o tempo possível da atuação, da experiência, da vida. Neste “Viver sem tempos mortos”, dirigido por Filipe Hirsh, o que assisti foi o trabalho de uma vida de Fernanda que não se esgota em Simone, e de uma vida de Beauvoir que não se encerra em Fernanda, um encontro que as amplifica e que se abriu a mim , e aos outros espectadores, como a possibilidade de um presente largo. O espetáculo é uma espécie de convite para viver o hoje com uma intensidade, que confesso, mais intuída do que propriamente vivida por mim, por isso eu,  talvez, por paradoxo, desperta para esta possibilidade (ameaçadora) de sair dos grilhões, não queira sair do halo de ambas, de Simone em Fernanda, da peça, enfim.

Não há como esquecer e me imiscuir do que vi, da gravidade, sem perder a leveza e o fôlego, com que Fernanda parece atingir o núcleo duro e mais cru de Beauvoir (o que lembra Clarice), a solidão que a liberdade lhe imputou e, não por acaso, revelada no que há de mais íntimo: sua correspondência com Sartre. Não há como não abraçar como meus, desculpem-me, mas trata-se disso também, os vários lutos que a filósofa precisou operar para se construir como autora de sua história e os que Fernanda necessariamente também elaborou, porque não há como chegar ao apuro não só estético, mas ético a que a atriz chegou sem fazer tais passagens. E não é por acaso que Fernanda dedica, discretamente, no catálogo, a peça a Fernando Torres, homem com quem viveu por 65 anos.

Faço estas aproximações não para reduzir a vida de uma na outra, muito pelo contrário, porque as semelhanças poderiam sugerir saídas fáceis, mas se dá o oposto, o luto, que é a tônica dominante da peça, é absolutamente despojado do peso que ordinariamente lhe damos, não há nada que seja fácil nesta montagem. O que em boa medida fica é que não há liberdade possível sem o luto, e que para viver sem tempos mortos há que se além de viver, morrer; nem que seja deixar morrer um amor pela vida que outro amor lhe oferece. Sintomático é que as rememorações e confissões de Beauvoir estão despidas de qualquer sentimentalismo, sem nostalgia, evasão, melancolia, há a falta, mas parece não haver tempo para ela, as palavras saem da boca de Fernanda como setas apontadas para o que de mais fundamental há a ser dito para que cheguemos à Beauvoir, para que a sintamos.

Do alto de seus 80 anos Fernanda encarna esta mulher e seu tamanho presente de forma contundente e sem recursos cênicos que vão além de seu corpo, da iluminação, e de uma cadeira, coincidentemente (?) a mesma que Beauvoir sentou-se ao lado do féretro de Sartre. Tamanho silêncio só potencializa a força de Beauvoir , assim como a ausência de outros corpos que o monólogo impõe só aumenta a presença de Sartre como o de vários homens e mulheres com os quais a filósofa se relacionou e são de algum modo extensões deste casal, desta unidade de dois. Neste caso, engendrada no corpo, contrito, praticamente imóvel da atriz, que por sessenta minutos é de Beauvoir e também o nosso corpo.

Paratodos

Imagens quebradas

Um dia resenha, noutro um rasgo fabulado, adiante só imagem, no mais das vezes ausência, espero que não se fartem de tantos hiatos e fragmentação. Só assim dou conta de “sustentar” (?) uma farta sorte de paradoxos, digamos assim, que insistententemente me acomentem. Na dúvida corto, saio de cena, ou deixo aqui, como hoje, um bom poema, que em alguma medida me explique, para vocês e para mim. Creio que não é um uso de todo mal para ele. Aliás, poemas vem ao mundo para isso também, não? Digo: tirar o peso das costas, revelando-o.  Este aqui trata-se de uma tradução de Antonio Cicero para o poema “in boken images” de Robert Graves:

 

Com imagens quebradas

Ele é rápido, pensando com imagens claras;
Eu sou lento, pensando com imagens quebradas.

Ele se torna obtuso, confiando em suas imagens claras;
Eu me torno agudo, desconfiando das minhas imagens quebradas.

Confiando em suas imagens, ele pressupõe a importância delas;
Desconfiando das minhas imagens, questiono a importância delas.

Pressupondo a importância delas, ele pressupõe o fato;
Questionando a importância delas, questiono o fato.

Quando o fato o decepciona, ele questiona seus sentidos;
Quando o fato me decepciona, aprovo meus sentidos.

Ele continua rápido e obtuso com suas imagens claras;
Eu continuo lento e agudo com minhas imagens quebradas.

Ele numa nova confusão de seu entendimento;
Eu num novo entendimento da minha confusão.

 

fonte aqui