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Quem tem medo de Sophie Calle?

Sophie-Calle_sophie-calle-25

Pig, from the series “Les Autobiographies”, 2001, photograph and text on aluminium, 170×100 cm and 50×50 cm – aqui

Ainda não sei o que pensar sobre Sophie Calle, digamos que tenho um pé atrás em relação a ela, a seu decantado exibicionismo, a  sua intimidade  pronta a nos atravessar e devassar, assim mesmo, num movimento pelo avesso: quanto mais ela se mostra, mas ela exige do outro que se exponha também, não só seus amantes, pais e outros objetos eleitos, mas nós também, a “audiência”, na medida, por exemplo, em que ela nos convoca a tomar um partido, pois é. Posição incômoda, como se ela nos pedisse um voto (de confiança?), nela, na sua personagem, na sua versão,  de bate-pronto, como num reality show , ainda que explicite que fale do lugar mais relativo e frágil possível. Calle parece estar onde a arte conceitual flerta com o mais banal, mas sem perder a pose (quase perdendo), daí a graça. Sinto como se ela testasse até onde vai nossa curiosidade e nosso gosto. Em boa medida eu acho de mau gosto o que ela faz, mas ao ler e ver: não, já que é tudo muito elegante. A mulher me pega na curva, ali onde eu não estou bem segura, naquele ponto maldito em que não sabemos bem discernir o que estamos vendo ou do não estamos. Será a obra de Sophie Calle isso mesmo, só isso, ou isso tudo?

Independente da dimensão e alcance de sua obra,  entretanto,  o  que não posso negar é que  de alguma forma comporto uma “Sophie Calle” (!), e sei que muitas outras mulheres também, para o bem e para o mal, um papel possível: o da vítima que se identifica com o agressor e torna-se pior do que ele… Parece que  Calle funciona sempre num movimento de revide, de vingança, não apenas na sua obra mais falada do momento – o tal email de término do namorado que ela expôs a 107 mulheres, que o responderam,  e depois  ao mundo como forma de purgá-lo -, mas em seus mais antigos e pequenos textos também.

Textos cuja necessidade da reparação não cala nunca, já que, óbvio, a resposta que ela deseja não se dá,  não há como remediar a dor que lhe causaram, só mediar, pela arte, num faz de conta que não dá conta – não estanca nunca. Seria Calle mais uma num exército (de ressentidas?) não fizesse de seus fantasmas a matéria prima de suas obras, despudoradamente – não jogasse no ventilador ela e o outro, bem no espírito de seu (nosso) tempo, num espelhamento sado-masô mesmo, sem escrúpulos seja com quem for, no limite. Que medo. Não sei se posso gostar disso, acho que não. Preciso de tempo para ver e  saber com mais justeza, sabe?

Ganhei do amigo E.M. o livro  Des histoires vraies, de 1994, cujos textos reverberam (e mesmo se repetem) em todas as suas exposições, performances, livros, na sua produção, enfim: quem “ressente” sabe fazer a receita do bolo render.  Elegi um textinho para vocês (a tradução é de E.M.), exemplar do que intuo/ procuro apontar em seu trabalho (ela escreve muito bem, diga-se):

La dispute

Le Mardi 10 mars 1992, à onze heures cinquante, il m’ a jeté à la figure les objets suivants: une boiulloire vide, une planche à pain, un sofa jaune à deux places, quatre coussins, une monographie de Bruce Neuman et un téléphone noir qui défonça la cloison. C’ est alors que je compris qu’ il me demandait: l’ écouter. A treize heures, tout était rentré dans l’ordre. Restait le trou dans le mur: certre denière trace, je l’ ai cachée derrière notre photografie de mariage.

A briga

Na terça-feira, 10 de março de 1992, às 11 e 50, ele me jogou na cara os objetos seguintes: uma chaleira vazia, uma tábua de pão, um sofá amarelo de dois lugares, quatro almofadas, uma monografia de Bruce Nauman e um telefone preto que furou a parede. Foi então que compreendi que eu preciso fazer a única coisa que ele me pedia: escutá-lo. Ás 13 horas tudo estava em ordem. Sobrou o buraco no muro: essa última marca eu escondi atrás de nossa foto de casamento.

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9 Comentários Comente
  1. Luciana, recebi este link…

    http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=3288&Exib=2575

    …para o curta “Desejos” de um Amigo, hoje, por e-mail.

    Por alguma razão – não sei exatamente qual a lógica implícita (e por isso mesmo talvez seja um ato impulsivo; ou falho) – intui que se adequaria ao post de Sophie Calle; criando espécie de molécula – ou composto – de efeito sensorial interessante.

    Sei lá, por via das dúvidas, espero que Goste…

    Beijo, Jorge X

    23 de junho de 2009
  2. Jorge, não consegui ver, o link não abriu.
    Bjs, Lu

    24 de junho de 2009
  3. luciana,
    gostei muito do que você escreveu sobre ela. você disse alguma coisa que eu estava pensando. mas só que eu não tenho nenhum pudor de gostar. adoro! gostaria de conversar mais com você sobre isso.
    beijo!

    24 de junho de 2009
  4. Noemi, pois é, pudor é uma boa palavra. Eu adoraria conversar sobre isso com você e outras coisas. Vamos marcar!
    Bj!
    P.S. Como é bom seu texto chamado “dedo”!

    24 de junho de 2009
  5. Flávia Reis #

    Luciana!

    Incrível sua avaliação sobre Sophie. Todas os questionamentos são muito pertinentes!
    Adorei – inclusive o texto escolhido traduzido pelo E.M.
    Seu blog sempre garante boa leitura, sempre!
    Beijos,
    Flávia Reis

    25 de junho de 2009
  6. Sim…é pura arte
    Sim…arte é a melhor forma de vingança
    beijo

    26 de junho de 2009
  7. Oh, Flávia, obrigada! Valeu a presença! Bjs.

    26 de junho de 2009
  8. com certeza de sophie calle todos temos um pouco. eu me encaixei perfeitamente naquela descrição da briga citada, poderia ter feito relatos no memso tom. e meu blog não começou como o blog da separação? mas foi difícil assumir que o assunto era esse. acho bacana essa exposição explícita da intimidade,a demora no assunto escavado até o fim, o que mais gosto é que ela levou a coisa pra outro patamar. e além disso, faz muita diferença você ver o mesmo drama tratado por diferentes pessoas, visto de diferentes formas, mesmo que de qualquer forma a unica forma possível de tratá-lo deverá ser a sua. essa foi a dela.

    29 de junho de 2009
  9. Não sei qual o limite entre arte e realidade na contemporaneidade, nem mesmo se é necessário que ele exista, mas penso que Sophie Calle faz na arte o que já fazemos todo tempo na realidade, catarse online.Nos expomos todo momento em sites de relacionamentos, blogs, troca de e-mails, ela faz isto usando a arte.
    Talvez a arte seja agora apenas mais uma ferramenta de apresentação da realidade.
    Ou talvez tenhamos que pensar o conceito de realidade de outra forma.

    8 de julho de 2009

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