Pular para o conteúdo

Arquivo de

Ensaio.Hamlet

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Bel Garcia como Ofélia

Ontem assisti Ensaio.Hamlet da cia dos atores (caixa baixa mesmo). Há muito tempo não me divertia tanto com uma peça. Gostaria de ser ou estar leve como esse grupo em relação à literatura e o resto. Mas isso exige muito trabalho, tanto que se pode nem chegar ao fim dele, ou ao se chegar, constatar que ele não passava de um eterno ensaio de leveza. Ou seja, a ludicidade do espetáculo se sustenta e se justifica por ele falar de si mesmo, explicitar o peso de se montar Shakespeare, a reponsabilidade do ator nesta empreitada, a gravidade das questões existenciais e teatrais em jogo, mas com humor. Brincar com a metalinguagem que já estava em Shakespeare de todos os modos possíveis, sem a pegada direta do besteirol, mas com um pé nele, sem o esteticismo de um Gerald, mas com um pé nele, sem, mas com tudo em cima, para cima mesmo na asfixia, com os atores todos em cena e todo o público também: eletrizado.
O humor é a saída para os atores lançarem-se à arena. Uma saída linda. A peça tem momentos sublimes. Aliás, mais que o humor eu vou guardar os achados estéticos dessa peça, como Ofélia despejando água sobre si com um garrafão azul, afogando-se desse modo. Eu vou guardar.

Não por acaso

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Leonardo Medeiros e Rita Batata em Não por acaso

Pensei que escreveria à toda um texto sobre o filme Não por acaso, do diretor estreante em longas Philippe Barcinski. Entrei no cinema para gostar e muito. Saí do cinema ainda querendo gostar e muito também, mas não deu. É um filme que vale a ser pena ser visto, pois mostra o quão capaz é esse diretor e o quão sensível ele pode ser e, acima de tudo, o quanto podemos esperar do seu segundo filme, em que certamente ele será mais fiel ao que já mostrava em seus curtas, sempre desafiantes formalmente.
Já que o primeiro tem todos os elementos para ser gostado, boa fotografia, bom som, bons efeitos, mesmo que não cole, não fisgue o coração, só posso por fé na mão autoral desse rapaz numa próxima. Pergunto-me onde ele teria errado? Se tudo parece tão redondo.
O roteiro é uma das respostas, e é chave, simplesmente ele possui duas histórias paralelas que não têm necessidade de caminharem juntas, o que as une é a mania obsessiva, a clausura, o aprisionamento que ambos protagonistas sofrem e o fato de eles passarem por uma perda brutal para que dêem novos rumos às suas manias, mas a grande questão é que esse luto não imprime na tela, e deveria ser melhor trabalhado. Faz falta, é pouco crível que tamanha violência, a morte de dois personagens num acidente, não invada o filme e pouco mexa no desenho dos outros personagens, ainda que “maníacos obsessivos”. E mais grave: sequer mobilize o público, a morte não tem o peso devido. Errou-se a mão aí. Seriamente.
O fato é que uma das histórias não convence, nem a trama, nem a atuação dos atores Rodrigo Santoro e Letícia Sabatela, no caso dela acho que a personagem carecia de elementos, sua atuação parece se sustentar no vazio, não é nem uma empresária de comodities, nem frustada com seu trabalho ou encantada com seu par a ponto de imantar a platéia ( e é linda!); já Rodrigo parece ter um prato cheio, mas ficou caricato, ele está com um bigodinho risível, plantado na cara, e um figurino que parece saído de uma novela das oito, e ele não precisava de nada disso, nada. É até cruel justapô-lo a atuação brilhante de Leonardo Medeiros, um dos melhores e maiores atores de sua geração. A personagem que criou e a cumplicidade silenciosa em suas cenas com Rita Batata, sua filha na trama, justificam a ida ao cinema, assistir o filme no telão. Esse é um ator que é só aparecer em cena que eu ligo as antenas, mesmo que não precise, porque ele o faz por mim. Não sei se sua trama era boa o suficiente, mas se ele a fez assim, porque a sua atuação é de um pulso tal que parece prescindir de um bom roteiro; seu tom monocórdico e fracassado todo filme, a tristeza que lhe molda o corpo indicam um domínio do ser ator que vai além de um filme. Leornardo é mais um daqueles atores que são atores estejam onde estiver, sob qualquer direção.
Mas não quero ser injusta com o jovem diretor, claro que devem haver elementos no roteiro para atuações tão delicadas e um trabalho tão brilhante de Medeiros. Ele também deve ser um bom diretor de atores, porque boas atuações indicam sensibilidade na direção. Entretanto o que eu vi, se eu tivesse que escolher uma imagem para tal, foi um “filme-novela”.
Não por acaso é um filme com dois núcleos, como uma novela que tem vários. Um dos núcleos é cinema, e o protagonista é Leonardo Medeiros; o outro é novela, e o protagonista é Santoro. Creio que Barcisnki está dividido entre duas estéticas, não sei se de tanto fazer publicidade ou se por tanta vontade de filmar tenha feito concessões. Pois além de exagerar nos figurinos e na caracterização gestual de algumas atuações, no núcleo Santoro há até exagero nos efeitos, a cena de sexo cheia de fusões me constrangeu, não havia necessidade de tantos recursos para velá-la, digamos assim.
Agora, algo que pesou deveras, e neste texto vai como a azeitona da empada, foi a trilha sonora. Um filme tão sóbrio, tão contido em seu texto, não deveria procurar se explicar ou coisa que o valha por meio de letras de canções. Não por acaso pedia um super trilha instrumental e ponto. Barcinski promete mais e desconfio que ele deverá fazer uma escolha séria na próxima para que suas reais intenções imprimimam e tenhamos um “filme-filme”.

Carreiras

Eu gostei muito de ter assistido a peça Carreiras, de Domingos de Oliveira, inspirada na peça Corpo a Corpo, de Vianinha; vi creio que no ano passado. Fiquei impressionada com a força do monólogo e, sobretudo, com a energia da atriz Priscilla Rozenbaum. Ela fazia o papel de uma âncora que lá pelos 40 se vê substituída numa das programações da rede em que trabalha por uma novata. Alucianada ela passa uma noite absolutamente nas trevas, cheirando todas e embriagada liga para os seus superiores, chefes, para os altos escalões, para aqueles que fazem parte de um sistema de que ela também faz parte, mas não é mais que joguete.

Louca, ela vomita verborragicamente pelo telefone o que de pior ela viu e viveu nos bastidores da emissora, mas há um fio tênue entre a repulsa e o tesão que ela sente por esse meio, a cocaína dá o tom. A coragem de mandar todos a puta que pariu e a arrogância para se sentir muito melhor do que todos e, sub-repticiamente, à altura deles, quiçá além de todos que ousaram passá-la a uma posição inferior no concorrido panteão de estrelas da casa.
A ambigüidade da personagem se esclarece ainda mais no desfecho, mas não fosse tão violenta e eficaz a atuação da atriz, ela não seguraria o final, uma virada que seria óbvia, mas que me surpreendeu, completamente. Acreditei que à ida ao fundo do poço levaria à âncora a outras escolhas na vida, e que ela de fato estava farta do que quase a enfartou, mas era tudo mais perverso do que eu podia imaginar. Fiquei encantada com o tour de force da atriz e aprendi a gostar ainda mais de Domingos de Oliveira, que descobri faz pouco, se comparado ao tamanho de sua carreira, seu filme Todas as Mulheres do Mundo é tão pra lá de clássico que desconfio que apenas acho que vi, mas não vi não.
O fato é que aprendi a amá-lo com Separações e Amores, ele fala daquilo que é praticamente indizível nas relações, de maneira prosaica, sem grandes elucubrações, ele não é um francês falando de amor cheio de circunvoluções e cabecices, nem um novaiorquino analisado chato, ele é um carioca pô! Um brasileiro! E eu entendo esse tema universal como nunca quando assisto seus filmes, sinto aqui, fundo como boa balzaca.
Mas voltando a Carreiras. Esta não é propriamente uma peça do que aparentemente Domingos mais sabe falar, mas é, porque pelas carreiras (de pó e profissional) a personagem manda às favas tudo o que possa significar vida pessoal, o noivo é um nada, não à toa os offs dele na peça são péssimos, não que isso justifique o deslize, mas quem quer saber disso quando se tem um trator demolindo tudo como Priscilla?
A peça virou filme e fui assistir, fico feliz que a atuação de uma atriz como ela seja eternizada, esta é uma das graças do cinema, ganhou o Kikito de melhor atriz, aliás. Devo dizer que vibro em saber que Domingos está filmando e em digital, com um fotógrafo das antigas como Dib Luft, que em 8 noites e com baixíssimo orçamento, ele fez um puta filme que pode animar muitos a fazerem o mesmo: reunirem-se em cooperativa para dar cabo a suas idéias, para multiplicar talento. O filme é um libelo pelo cinema autoral, pela liberdade de filmar, independente do que os estetas de plantão possam desejar. É um filme de quem precisa filmar para viver e não tem tempo a perder, por isso amei o filme e a proposta de vida que ele encerra. Entretanto, confesso, apesar de muitas das soluções dadas a peça na linguagem de cinema terem sido muito bem urdidas, e o filme tenha ganhado com o personagem do ex-marido feito pelo próprio Domingos, acho que o teatro ganhou dessa vez. Preferi a peça. O texto era mais contundente no palco e atriz imensa.
Mas isso é que menos importa agora, temos um belo texto em duas linguagens, sorte de quem viu os dois e de quem está acompanhando esta espécie de guerrilha de Domingos de Oliveira. Todas as loas pra ele.

Veneno Antimonotonia – Björk e Ponge

Este vídeo da Bjök, Oceania, sempre me salva. Esteja eu como estiver, ele sempre me faz bem. Claro que saber que existe uma artista contemporânea com tamanha força é sempre apaziguador, sempre abre uma porta, sempre dá esperança. Oceania, música e vídeo, no entanto, entre tudo que ela fez até agora é a mais forte substância que ela tem oferecido a minha corrente sangüínea.

Francis Ponge também dá as suas dentro e é outro veneno antimonotonia necessário, sobretudo este poema que leio e releio. Faz parte de um livro ou de parte de um livro que chama-se:

O SOL COLOCADO EM ABISMO

O SOL FLOR FASTIGIADA

TODOS OS DIAS AO CIMO DO MUNDO
EIS QUE SOBE UMA FOLR FASTIGIADA.
O SEU ESPLENDOR APAGA O SEU CAULE
QUE VAI TREPANDO POR ENTRE OS DOIS OLHOS
DA DEMASIADA ESTREITA NATUREZA
P’RA LHE DIVIDIR SEPARAR A FRONTE.
A RAIZ ‘STA EM NOSSOS CORAÇÕES.

A raiz do que nos deslumbra está em nossos corações.

Tradução Manuel Gusmão. Ed. Cotovia.

Rato

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Eu minto
reajo dentro do quadrado
como córnea encapsulada no escuro
lesma na placenta
Eu me arrasto
revejo no lapso lacunar
a risca de cera da minha mãe
o aceno nulo de minha avó
o peso pesado dele
eu morro
e ouso ouvir desde logo
que o hiato é a ânsia do primeiro passo
e de longe
escorro
pra dentro do umbigo
de novo.

Limite e Beckett

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Imagem do filme Limite, de Mário Peixoto.

Sábado fui numa peça muito ruim, urdida com uma seleção de textos de Beckett. Creio que não vale a pena escrever sobre o que é obviamente mau. Honestamente pensei em não ir, não porque desconfiasse que seria uma peça mal montada, mas ao contrário, temi o quanto o universo desse autor poderia me tocar e supus que talvez eu devesse ficar na minha, com meus botões que andam um tanto doloridos. Fui. Saí incólume, pela primeira vez algo muito ruim me fez bem, pois a peça não entrou, nem os atores, nem as falas, tudo estava fora de sintonia, risível, como uma fera de plástico. Acho que Beckett em alta voltagem poderia apertar demais, foi melhor assim.

Pensei no que postar quando não se quer ou não se pode postar, quando a maré não está pra peixe, nem pra gato. Quando se viu algo que não vale contar. O fato é que Beckett lembrou-me de um filme que gosto muito, mudo, brasileiro, de 1931, chamado Limite, de Mário Peixoto. Não à toa Beckett e Mário são contemporâneos, porque fazem falar muitas coisas em comum, como o silêncio. E, se me permitem, acho que este trechinho de Beckett vale para as realizações de ambos ( é o que vejo hoje).

“(…) Eu trabalho com impotência e ignorância. Não acho que a impotência tenha sido explorada no passado. Minha pequena exploração é sobre essa zona que sempre foi deixada de lado pelos artistas como algo imprestável – como algo, por definição, incompatível com a arte. Acredito que, hoje em dia, qualquer um que preste atenção à sua própria experiência se dá conta de que é a de alguém que não sabe, que não pode.”

12

Deu-lhe a a chave. Não se deu conta de que  havia ficado presa.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Contra e Atravessando

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Eu não poderia deixar de assistir Atravessando a Ponte, do diretor alemão descendente de turcos Fatih Akin, já que seu filme Contra a Parede é um dos meus favoritos. E eu estou numa certa onda turca, creio que há mais tempo do que imagino, só o nome do blogue já indicia.
Documentários são apenas aparentemente filmes fáceis. Entre a realidade e a ficção, (não sei muito mesurar este corte e aí talvez more a questão) eles podem explorar o próximo, não digo nem só a imagem do próximo, sem dó nem piedade, tudo em nome do cinema. Sempre fico melindrada com isso, com a ética no documentário, porque em ficção a discussão é outra, quando há, apesar de eu considerar muitos longas absolutamente cínicos, sem ética qualquer que seja, é muito difícil sustentar tal visada. Parece que em ficção tudo se justifica.
O interessante é que uma ficção pode se “explicar” ou se iluminar com um documentário feito após ela ou a partir dela como canta a maioria. É o que acontece com o filme Contra a Parede após assistir o Atravessando a Ponte, ou vice-versa: o documentário agiganta-se ao assisstir a ficção que lhe antecede, porque ambos partem de uma mesma força motriz.
Mergulhei de cabeça no Atravessando a Ponte e descobri o quão um bom filme pode pedir outro e mais outro e mais outro,porque quando a questão é vital, quando o filme tem o que dizer, ele não se esgota. Vi o Atravessando, num primeiro momento, como um continuum necessário do Contra a Parede, independentemente de gêneros. Aliás, não só eu o vi assim como muitos outros, pois pelo que pude ler nas minhas rasantes diagonais pelos jornais, ao fazer o longa, na gravação da trilha sonora, o diretor foi engolido pela riqueza musical da Turquia e, para surpresa geral, no ano seguinte ao bem sucedido longa, o diretor não se lançou à outra ficção, mas a um documentário. Até aí concordamos todos, o fato dá a letra, mas as matérias não saíram dessa constatação.
O ponto é que em matéria de criação, fatos e marcos são sempre balela, historinha pra boi dormir. Atravessando a Ponte me pareceu uma viagem do diretor ao olho do furacão que o mobilizou a fazer Contra a Parede, aos zilhões de paradoxos que a Turquia encerra, especificamente, Istambul; eu não quero usar o jargão psi, mais cai como uma luva: o Atravessando é um tremendo e delicioso “retorno do recalcado”. É mais que continuum, é o mesmo filme, a mesma irrefreável volta ao redor, através, pela, contra, a ponte/parede.
Após assistir o documentário, revi o Contra em DVD e percebi que a música nele já era quase uma das suas personagens, ela já era uma voz, já o notava narrativamente. Fatih Akin já fazia o documentário no longa anterior, não à toa a personagem principal do Contra e o alter ego do cineasta no documentário se hospedam num mesmo hotel na Turquia.
Os filmes se sobrepõem e assistir os dois só refina a visão de ambos. Gosto da descoberta ou da hipótese, que seja!,de que esse diretor se enquadra numa “linhagem” de cineastas que estão sempre filmando o mesmo filme, girando em torno do mesmo tema, aprofundando uma mesma questão, de modo não a estancá-la, mas a ampliá-la. Eu gosto disso, da repetição que inova, da investigação obsessiva.
Ver o Atravessando a Ponte ilumina a claustrofobia, em vários níveis do Contra a Parede, mas não a resolve, a asfixia permanece. Ao final do documentário, não por acaso, o alter ego do diretor diz que sai da Turquia sem entendê-la, mesmo depois de ter escutado a música romena, a curda, o rap e o rock turco. E é por aí a graça. Eu acho. Penso que as bandeirinhas de Volpi são por aí, os carretéis de Iberê Camargo também, cada um em sua gradação, em sua praia. A repetição transforma e trás a forma, por insistência, pelo volume máximo que pode pedir.
Fui ver um outro filme do Fatih Akin, mas revi uns outros dois. O meu bilhete trazia um bônus: uma faixa outra que me trazia de volta ao primeiro filme, o melhor, aliás.

Bonus track do post:

Aynur, cantando em curdo, sua língua materna que, na babélica Istambul, foi proibida até 1991.

OUT

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Eu preciso mais um
como quem bebe o próprio sumo
gira
em torno
do próprio rabo
cauteriza o umbigo
joga cinza no morto
coloca brincos longos e pétreos
e sai para festa onde alegria é disfarce
de velório
de enjôo
de mijada escura
mas a saia é curta
os dentes brancos
o hálito de maçã
e as pernas pescam rápido
e esquecem
dos seus que desejou e daqueles que perdeu
da fome contida consumida em vício
em unha ruída
em perda
nos dias de ontem que voltam todas as manhãs
mas um, por favor.

Blue Moon

CURRENT MOON

Desengavetar como a lua, girar sobre o próprio rabo como ela, sem inventar a roda, sendo a própria sem culpas. Um círculo vicioso cheio de si, sem medo de se consagrar ao óbvio,de ser o óbvio, de ser satélite, de ser. Ulular-se toda cheia de si. Escancarar a fresta rósea e as outras. O zero e o zênite. Ôca, mas linda, linda, linda, mesmo que pisada por homens de capacetes ridículos. Sorrir no alto do céu mesmo que decrescente. Aprender com a lua a quase sumir sem medo de cair.