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Esquimó, lançamento

Eu devo contar a vocês que eu morro de vergonha de ir a lançamentos de livros. É, eu preciso contar. Ainda que eu vá a alguns e frequente eventos literários, acho lançamento uma coisa vexativa demais, não sei onde enfiar as mãos, pra onde olhar e como pedir o tal do autógrafo. Mas essa inabilidade tem me dado problemas, porque parece que eu não prestigio os amigos e também não prestigio aqueles que não são meus amigos, mas nutro certa admiração, reconheço o valor. Ontem foi assim, eu queria ir ao lançamento do Fabrício Corsaletti, porque gostei demais do ‘Esquimó’ dele, mas não fui.

Tinha até a desculpa de estar com o livro emprestado do Marcelino Freire, que me pediu para levá-lo ao moço para que ele reassinasse, sim, reassinar. A ordem foi essa, mas nem assim fui. E, putz, que livro mais redondo, mais bonito, mais honesto, na medida, sem reparo, sabe? Daqueles que, de repente, até você que não curte autógrafos quer ter um assinado. E devo dizer que eu gostei ainda mais desse livro do moço, porque o que eu havia lido em prosa dele não tinha me tocado assim, então quando me dei conta de que em poesia ele fazia tão bonito fiquei ainda mais mobilizada. Pois é, talvez agora a prosa dele ganhe outra graça para mim. Se bem que só o ‘Esquimó’ já está de bom tamanho.

Não vou dizer que ele lembra esse ou aquele poeta, porque não me parece elogio, eu não tenho gostado muito de críticas que puxam um ou outro autor, muitas vezes estas citações só encorpam a crítica e não iluminam a obra de que tratam. Então não digo nomes, mas acho que alguns dos poetas dos quais reconheço ecos em ‘Esquimó’ gostariam de ver o que escreve esse menino e o que ele promete escrever ainda. Nesse sentido, é salutar ter um cânone, os grandes ficam lá, mais para anjo da guarda do que para angústia da influência, aliás, configuração que é mais a cara desse livro. Que vem apaziguado, não apaziguador, mas de bem com as coisas prosaicas da vida.

E, la vamos nós no rame-rame, apesar de não ter ido ao lançamento, gostaria de ter pegado um autógrafo para minha analista, minha ex-analista, porque ainda que eu tenha minhas pequenas fobias, como as de gente amontoada e em fila em volta de uma mesinha, levei alta!, e eu preciso que doutora leia o poema ‘Hoje foi minha última sessão’, um agradecimento que eu agradeço que o poeta tenha escrito. As boas analistas merecem bons poemas, ainda mais as que nos deixam com nosso gosto por rabanetes e outras idiossincrasias. Vou dar a ela o livro, mesmo sem o autógrafo.

E eu poderia ficar agora infinitamente falando do  livro como numa canção de Bob Dylan, compositor que o moço tanto evoca. Podia dizer até o quanto que eu gostaria que escrevessem um poema como ‘Seu nome’ pra mim, mas já que ele não explicitou o nome da musa o adotarei e crerei firmemente que o nome é meu, reiteradas vezes. Como uma adolescente diante de uma letra de canção, daquelas que se decora. Aliás, sem demérito, eu me senti adolescente muitas vezes na leitura, acho que porque a fatura do livro não esconde que um autor jovem pode ter um pé lá, alguns poucos anos atrás, e sem medo de soar miúdo (coisa tão evidente aos compositores-letristas e que dá tanta coisa fina e elegante). Gostei muito da falta de pompa e circunstância desse livro verde. Talvez o lançamento tenha sido assim e eu nem me sentisse melindrada, mas ele já foi, e o livro está aqui.

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O retorno

Hoje recebi de uma amiga uma imagem que eu já havia postado aqui no blog, ela fez de propósito, como uma boa provocação. Gostei do gesto. Sabe  o náufrago que lança garrafas, esquece delas, mas de repente elas voltam para ele? Hoje foi assim.

Esse trabalho é da querida amiga Mari Labaki. O retorno dele aqui é obra da Gina Risério. A frase é de Lacan, mas ele eu não conheço bem.