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Rebecca Horn, rebelião em silêncio

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Slideshow  com fotos de celular feitas por mim de vários filmes de Rebeca da década de 1970.

Estive no CCBB de São Paulo numa sexta feira dessas, já não me lembro qual, no intento mesmo de ficar sozinha com a obra de Rebecca Horn. Na verdade, tirei um dia para ficar só e acho que a arte dela é uma boa companhia para esse intento, na medida em que ao puxar nosso olhar para fora, sua produção nos encaminha para aquele estar só irredutível, que pode doer, mas que é justo de onde saem (ou moram) as coisas que falam alto. Daí o prazer imenso, obviamente se não nos furtamos a esse campo, de batalha, de voo, de estar (só) onde se está – na concentração máxima do que não é dito e diz, diz muito bem, obrigado Rebecca.

As obras falam tão alto que cortam sem cortar, alçam voo sem voar, são puro movimento no que há de mais estacado (mas não estanque), amam e odeiam sem solução; atravessam oceanos e podem morrer de cansaço e hábito no meio do caminho, mas ainda assim não param, seguem, batem e rebatem asas como quem golpeia as teclas de uma olivetti em love, love, love sem ser lido e já sendo lido. Talvez a obra dela fale de um ponto de suspensão, em que tudo pode acontecer onde aparentemente nada se dá, como um telefone sem linha (há este objeto na mostra) que pode estar cheio de vozes, mas nosso olhar insiste em vê-lo mudo.

A obra dela parece advir de e se instaurar em um lugar em que os paradoxos não se resolvem, mas ao balbuciarem, falam, e podem até mesmo gritar justo ali no mais monótono e involuntário (e para refinar: matemático) – suas esculturas se mexem com o rigor de relojoaria. Paradoxos que tanto mais falam quanto mais parecem silenciados (aí a brincadeira de gente grande) pelo rigor formal e pela insistente simetria do trabalho de Rebecca. Simetria que sugere e mesmo impõe uma ordem no que não é mais possível ou nunca foi. Há uma espécie de nostalgia (ou de genuínos ressentimento e raiva) por uma ordem natural ou da natureza de que não temos mais quase notícia. A artista nos inquire sobre essa ordem perdida (e inescapável, entretanto); nos lança a esse ponto originário e original tão cheio de coágulos e forças indistintas, mas que fazem pérola, metal e outras superfícies lisas, frias mesmo, em suas esculturas. Além de penas, muitas penas. Talvez não passemos de insetos  ou aves procurando sentido, cheios de pathos, mas azuis e em madrepérola. A obra fala da carne viva, do corpo mais primeiro e brutal, mas sem perder a compostura, com uma precisão contagiante. Isso mesmo: contagiante. Ordem da delicadeza e da violência que ela compõe com tanta competência que só podemos sair bem da mostra. Postos e recompostos  em nosso caos.

Pela mão de Rebecca Horne podemos entrar em contato com essa ‘Rebelião em silêncio’ (nome da exposição) sem medo de se perder e se perder e gostar muito disso. É um reencontro, uma arapuca das mais belas em que já me meti nos últimos tempos.

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