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Anne Enright – O encontro

The novelist Anne Enright near her home in Bray, Ireland.

Acabei de ler O encontro de Anne Enright, é boa literatura às últimas. Mais uma vez escolhi um livro de intrincadas histórias familiares que passam de geração em geração, ou melhor, não passam. Em que o destino fica inscrito em algum lugar intangível que só poucos, no caso, a narradora, acessam. Mesmo que este seja um lugar aparentemente óbvio: o corpo. E como ela dá conta de apresentar o corpo, os corpos, em movimento, nus, dormindo, trepando. Como escreve! Neste livro há um segredo, e muitos outros, que não sabemos até certo ponto precisar, mas que precisam ser nomeados para que a personagem–narradora, a protagonista, possa tocar o chão, a vida. Sair do círculo insano da família, de dentro dele.

Anne  tem uma escrita que  não facilita, mas como é clara!, é precisa, a mulher não vacila. Mergulha fundo sem perder o fio da meada, sem se esparramar. Com a pena em riste. Suas elucubrações não caem no lugar comum, mesmo que venham de um fundo comum de histórias farsescas e  personagens bizarras que todas as famílias têm: um tio louco, uma mãe aérea, um irmão gay, uma alcoólatra etc.  Mas nada é tratado farsescamente e esteriotipado, porque as caricaturas seriam fáceis demais para a verve da autora, coisa que fazemos o tempo todo. Ela constrange e surpreende o leitor ao atingir o nó do não-dito e possivelmente rídiculo, naquele ponto cego que ninguém vê, mas no qual todos podem atirar a primeira pedra. Ela vai além do melodrama, o livro é encarnado, tem  palavras que dizem, que querem dizer e ponto, que afrontam, que incomodam, que não compactuam com saídas fáceis, seja para o autor, seja para o leitor.

Eu não sou boa o suficiente para comentar essa obra, esse é um livro pra ser lido, essa é uma autora para ser ovacionada. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos e que já entrou para minha lista de cabeceira.

Não à toa essa irlandesa fisgou ano passado o Man Booker Prize de Ian McEan e Lloyd James.

Do começo ao fim do romance sublinhei inúmeras frases e períodos e parágrafos, fiquem com este pedacinho, chave de leitura, juro:

 “Nós nem sempre gostamos das pessoas que amamos: nem sempre temos essa escolha.”

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