Para não dizer que não falei

E me pediram para escrever sobre a Flip, eu que não tenho muito mais a acrescentar, além de agradecimentos. Agradeço aqui a acolhida das queridas Fernanda e a Analu em suas já reservadas pousadas; ao Marcelino pelo ingressos dados, a Letícia da assessoria por outros mais, ao Eduardo pelo do Lobo, pela” sorte” enfim de eu ter visto o que quis e ter os amigos que tenho. Foram ótimos os almoços com Samir e Letícia e Elza e Bia e Fernanda e Rodrigo e Analu, e jantares com Eduardo e Helô. Agradeço ao Pasin pela alegria no encontro, que reforçou a falta do Rio, do meu avô, da Lia Nazareth, e, claro, pelos livros que me deu, inclusive autografados; agradeço também ao Emilio pelo Flores.
Pois é, confesso que voltei exausta e sem disposição para comentários sobre mesas, eu estava numa alta voltagem emotiva, que ainda se perpetua. O sentido da Flip para mim foram os encontros, que podem dispensar festas, mas não as pessoas que estão nas festas.
Diante da minha toada sentimental não creio que caiba aqui balanços e críticas, carrego comigo do evento algumas questões que reincidiram nas mesas, aparentemente já respondidas, mas que tem grande repercussão aqui, interna, como a do limite entre a fatura literária e o autobiográfico, eu sei, eu sei que beira o clichê, mas fazer o quê? Ainda fascina, como bem afirmou Tezza diante de um Bellatin que quanto mais nega sua presença, mais a afirma. Tensão trazida quase obscenamente em mesas como de Sophie e Gregoire e na de Katerine M., cuja mediação se enredou mal na questão e fez da mesa uma sessão pública de psicanálise para desconforto geral; tal perpectiva fusional, digamos, em relação à obra também foi encarnada por Domingos de Oliveira, sem pejo e de modo celerado como é de costume em Domingos – que assim seja e que seus filmes sejam mais vistos. Tatiana Salem Levy ainda que negando, com razão, a redução da sua obra à sua biografia, também teve seu discurso como ponto alto da questão, comovi-me com sua fala, com sua presença e timidez, com o tema, ainda que eu não conheça o seu livro, situação que me constrange. Porque eu sou do partido de que o que interessa são as obras, mas como alguém que vai a uma festa destas pode dizer isso? É necessário muita hipocrisia, não?
Resta-me o conflito, e a felicidade de ter estado lá.
P.S.: Já que falamos de gentes, não posso deixar de marcar aqui meu encantamento com a fala de Rafael Coutinho, é daquelas que ficam, pela afetividade, pela pertinência, pelo apreço aos colegas de mesa, enfim, por uma maturidade que não se explica, mas que gostamos de ver. O moço ganhou uma fã.
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Para Alcides Rocha Miranda
Escrevi este texto há 10 atrás, mas ele me parece ainda vivo. De alguma forma eu não consigo sair dele. Meu avô faria 100 anos este mês. Dia 30/07 haverá uma homenagem a ele no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Estarei lá, provavelmente lendo algo como me pediram, mas ainda dentro deste espírito. Confesso que nos últimos dias, mesmo que eu circule aqui e ali, minha cabeça e o resto estão todos voltados à memória (e a presença e falta) dele. Eu não seria sem este avô. De longe, sem edições, este texto me soa como uma ladainha, um canto, quiçá eu já o pranteasse, que fique assim para vocês (a versão belamente editada e diagramada está numa revista da FAU-USP).
Este texto não seria à época sem o carinho, a leitura e as intervenções do querido Professor Flávio Motta e sem a força da amiga Luana Geiger.
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EN SI NO SILÊNCIO
Pisarei em ovos como ele fez vãos no concreto, pausarei a verve, como ele indiretamente tantas exposições, sussurrarei, porque não foi na eloqüência que ele fez falar seu caminho, assim me empenharei ao retratá-lo, com acuidade máxima: respeito à sua sintaxe pontual, aos seus passos precisos, ao seu tato especial com as palavras, ao seu SILÊNCIO.
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Nunca vi meu avô levantar-se de uma cadeira como alguém que não sabe para aonde vai. Abruptamente ele se levanta e segue em passos retos, postura firme, salto lépido de quem estava imerso em pensamentos e num átimo toma uma decisão.
Andar pausado, aprumado. Acerta a posição de um quadro, dispõe objetos de sua sala de maneira precisa, cada um com sua função, numa harmonia milimetricamente arquitetada e acolhedora.
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Agora, aos meus 24 anos, nossos caminhos convergem, ele, meu avô, sempre esteve aqui, à mão, mas faz pouco tempo, sinto-o como se tivesse ganho um presente, alcançado com certo esforço. Pude, finalmente tê-lo, tão presente como todo mundo, creio, cúmplice em boa medida.
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Acredito que quando se nasce não se ganha um avô, se ganha uma vida e … se busca um avô, se escuta um, se sente um, se cava e esculpe um e aí está ele: sempre vivo, em nós, moldando o encontro
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Encontro de interesses, afinidades, com quadros, com plantas, com morros, com nomes, de Lúcio, de Motta, de costa, de Aníbal, de Pompéia, de Zanine, de Mirandas, da Djanira, de Corbusier, de Kandinsky, de Lloyd, de Andrades, de Guignard, de Peixoto, dos Mários, de Portinari.
Datas sempre desencontradas, encontros sem pontos marcáveis na folhinha, um vazio cheio de sentidos, simultâneos e sucessivos que me vieram preencher, porque eu quis e meu avô, silenciosamente, pediu. Eu escutei.
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Burle Marx dava almoços com arranjos incríveis em uma mesa enorme para os amigos, sempre vários e, mesas menores no jardim para a criançada. Recebia e sabia receber.
Ele, cantava óperas e a comida, a cada novo almoço, insuperável. Se eu sabia que ele era o paisagista, o pintor e tudo mais?
Não sei responder, mas me encantava o seu jardim e a sua casa com móveis pintados por ele, além do imenso aquário, que ficava atrás da mesa de almoço. Qualquer criança se encantaria e se encontraria ali.
O meu avô neste almoço? Ao lado de minha avó, apreciando, rindo… convivendo.
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Com meu avô fui aprendendo, sem perceber, como se aprende uma língua, por convivência, por fragmentos, oposições fonemáticas, ruídos, cores, olhares e, um dia, o qual jamais precisarei a data, já estava eu, envolta e absolutamente desenvolta no silenciar riquíssimo dele: aprendi a falar a sua língua e a compartilhar do silêncio que a move.
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De meu avô não tive muitos abraços compridos, nem curtos também, colos, talvez, mas austeros, para o quieto, para o silêncio. Não conheci beijos de aprovação, nem diminutivos carinhosos de meu avô.Mas sempre acompanhei seu olhar, as respirações profundas, sua concentração e a censura discreta, dizendo tudo em beges, cinzas, ocres, verdes pro escuro, branco, grafites e marrons.
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Ternura, a palavra é: ternura. Dicionário de neta:
- sentimento contínuo, que alaga, o brando que excede.
- ver verbete: olhares e sorrisos ternos de Alcides.
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Minha avó, a enérgica Dona Maria Helena Miranda da rocha Miranda, duas vezes, porque prima de meu avô, também aprendeu a falar a língua dele. Um casamento, quase um batismo (creio que ela não gostará desta analogia.)
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No mundo de casada, assimilou e empunhou junto ao vovô o MODERNO, com a desenvoltura de uma poliglota que adota uma bandeira, por amor, no convívio e, sendo ela quem é, por extrema convicção também.
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Ela me conta que a primeira lembrança que tem do primo é a dele olhando com um olhar de extrema reprovação – para quem o conhece, se aproxima da tristeza - o teto todo decorado da casa de seu avô, ela tinha então 13 anos, ele uns 24. Meu avô não disfarçou seu olhar, digamos, MODERNO, àquela que seria, uns 8 anos depois, sua esposa. E ela condescendeu, discretamente.
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Aprendeu de forma tal a fala de Alcides e seu olhar, que fala ao telefone por ele, que não fala ao telefone, fica ao lado dela dando as indicações enquanto ela enuncia as falas, cancela, combina, decide, comenta, censura, se dá intensa: Dona maria Helena é também ARQUITETURA.
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Minha palavra também é feita de muito silêncio, por que foi assim que dele aprendi, foi assim que dele me formei, foi assim que ele me legou o que pôde e o que quis, como pôde e como é.
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Descobri rápido o gosto do vovô por desenhos. Eu os fazia, os mostrava , ele arregalava os olhos: aprovação. Não os arregalava tanto …. poderia estar melhor. Uma interjeição: oh!. A comunicação estava feita.
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Entre, seja por curiosidade, por afinidade, por amor mesmo ou por carência ( e por que não?) numa esfera de interesses dele, um domínio de aprendizado, de sensibilidade com as coisas do mundo, cujas portas só se abrem por dentro.
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Estou próxima a ele na sala, assim ficamos muitas vezes, e o vovô no seu tempo: – Luciana, sente-se aqui.
Sento. Espero… Silêncio e …ele: “Olhe como o quadro da Djanira fica bonito desta distância”.
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Petrópolis, antes dos meus quatro anos, noites a olhar estrelas, céu límpido, que fazia bem a ele, eu quieta, atenta , ao céu, a ele. De lá até cá, nunca diminuiu meu interesse por ele, com ele aprendi a contemplar, preciso não me esquecer disto. De manhã, a neblina, a caminhada, a leitura sagrada do jornal e nós, os netos, íamos brincar.
Brincar na mesma cidade, que anos depois eu vim a saber, foi a cidade de sua infância e adolescência.
****
O professor Alcides nunca fala com dicção de professor, nada de teorias ou eruditismos estriônicos, toda sua fala,quando se dá e se dá muitas vezes, é simples. Também nunca fala do que não o entusiasme no momento.Se há a lembrança do passado, ela está aliada à vivência contemporânea, a algum projeto que o mobilize, jamais transmite a nostalgia que esclerosa as coisas.
Tampouco fala do que não lhe parece significativo, nunca foi de concessões, os assuntos sulcam fundo, não de lhe interessar, ter uma certa ARQUITETURA.
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Ele é como um filme mudo sem legendas, 24 quadros arquiteto, em qualquer quadro se captará o que ele o é, porque ele o é todo o tempo.
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Legenda na projeção
O silêncio é o Limite ilimitado pelas interrogações.
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A escolha que meu avô fez, de caminhar pelo que acreditava, pelo o que o mobilizava, de Petrópolis a Brasília, para o que lhe era belo e justo, é o que me apruma muitas vezes, uma ética que tem seu preço e seus retornos valiosos.
Como os muitos amigos que meu avô fez nesta trajetória, os quais, afoita, quero escutar, saber, sentir, olhar, e dos quais só tenho a aprender.
****
É deste caminho lavrado em gestos tão firmes , em flancos tamanhos e profundos , que eu, enquanto sua neta e não sendo arquiteta, me a arvoro a retratar, a tatear. Caminho, o qual, de alguma forma (minha, própria) sinto como meu também.
****
Coloco-me no meu lugar: de neta. E neste agora, também sem data precisa, porque é um período longo, me dou conta do legado que recebi das mãos dele, o qual para idade em que estou, deve estar não só cá dentro, mas fora, sendo passado e repassado, à frente, na linguagem que puder e quiser ser.
****
Herdei a fé na interdisciplinaridade, de fazer LETRAS e trocar com arquitetos, de desenhar ao escrever, de olhar, escutar, tocar para frente este:
SILÊNCIO
Vãos imensos do MODERNO, aquele que aprendi com meu avô: olhar o passado para solucionar, dialogar, se embrincar com o presente e com o que do futuro fazemos.
****
Que escutemos o silêncio dessa geração em todas as suas variações do MODERNO, a qual tanto do que vemos, pisamos e somos.
A argila é trabalhada na forma de vasos
E no vazio origina-se a utilidade deles
Abrem-se portas e janelas nas paredes da casa
E pêlos vazios podemos utilizá-la.
Lao Tse
Meu avô elegeu este hai-cai do Lao Tse enquanto epígrafe de um depoimento auto biográfico seu, chamado “Caminho de um arquiteto”. Atento para a singeleza do poema, para sua síntese, para os vãos que evoca, para o silêncio de uma trajetória que não nega lacunas, mas as abre como a própria possibilidade de construção.
****
Digo construção enquanto comunicação também, pensemos na interdisciplinaridade que sustentava o SPHAN, na diversidade de interesses e conhecimentos que estes homens à época tinham: Mario de Andrade, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Lúcio Costa, Carlos Drumond de Andrade e Alcides da Rocha Miranda, entre outros. Eles sabiam e tinham a coragem de fazer falar os seus vazios, suas pedras no meio do caminho.
****
Leio meu avô com meu prumo: LETRAS e digo, arriscando-me ao óbvio, não fossem as janelas, não veríamos o múltiplo, as diferenças, a paisagem de fora, o vazio que elas são, significa.
****
A janela, como a palavra arada ou como é minha avó:
Arejada, permite à construção: o espaço, o fôlego de sua significação, seu horizonte, sem medida enquanto nos aproximemos.
***
Assim como a janela, o silêncio é a própria condição de possibilidade de comunicação, é nele onde a palavra se desloca e atravessa eras, sendo a mesma e outra porque o silêncio lhe dá a folga, é o ar necessário para que ela prossiga seu caminho.
***
É a abertura aerada das palavras de meu avô e de suas portas que permitiu que ele fizesse seu caminho, tombando e conservando nosso patrimônio histórico, arquitetando sua obra com soluções advindas do estudo de construções do que era então o seu passado e hoje, porque tombado, nosso.
****
Ele sempre trabalhou neste limite, nesta fissura, entre passado e presente, tão delicada, que não é facilmente observável; há quase que se vislumbrá-la, ela escorrega fácil, no silêncio, como escorregam as palavras, que um dia caem em desuso.
Como vislumbrar o valor delas para além do tempo no qual as pronunciamos e grafamos?
****
Aprendi que ancorando-se com coragem no cotidiano, assumindo esta fronteira movediça, na qual o passado, morros, cidades, casas, prédios, ruas, podem ampliar nossos horizontes de invenção.
Tombados não porque são passado, mas porque afirmam nossa identidade. Assim como faz o silêncio tombando as palavras para que possamos retoma-las e usa-las, ad – infinitum, enquanto durem, significando.
****
Sempre nos veremos neste limite, o sinto diariamente, intensamente, quase como uma emergência e diante desta, deste impulso que me impele a olhar um pouco atrás ( e à frente necessariamente) que sinto em mim e em outros, que desta língua aprendida eu quis saber mais a fundo; para estar à altura, em alto e bom som, do silêncio do meu avô e fazer com que mais alguns o ouçam e medrem em suas pausas, tons, semi tons, timbres: composições.
****
Não ganhei meu avô, o busquei, o escutei e o encontrei em mim, na minha tradição mais secreta e espero, que assim o seja para muitos outros, nas suas futuras, presentes e passadas realizações.
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Flipei

Queridos, a Flip se deu, aqui estou de volta, digerindo. Lobo Antunes em algum lugar ao centro.
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Flipando
Car@s, nos 45 do segundo tempo resolvi ir à FLIP, parto amanhã. Não atualizarei o blogue por lá, na volta trago-lhes algo. Creio.
Durante o evento milhares de coberturas serão feitas, mas vale lembrar que as mesas poderão ser vistas via web, ao vivo, basta acessar e fuçar: http://www.flip.org.br/aovivo_2009.php
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Rock with you
MJ foi, de fato, um ídolo da minha geração, talento solo que eclodiu lá pelos meus 12 anos, cuja trilha inelutável (que palavra justa!), me faz resgatar uma alegria de festas e acontecidos vários de que eu não me lembrava mais – lá atrás eu acreditei numa progressão sempre ascendente e reta para alguns, para ele. Era preciso, talvez aos 12 fosse. Dedico este clip há uns meninos queridos, como Che Leal, Bukassa, Eugênio Lima, que no Equipe, escola em que estudei, me “levaram” mais para perto dos passos de MJ e para Black Nights, Sub Club, Unidade Móvel, entre outros. Nessa toada, gostaria de indicar a leitura de um texto do Eugênio, bastante revelador do sentido desta perda. Trata-se de uma espécie de carta endereçada a uma geração, reconheço-me como destinatária. Ela está no blog do Jeferson De, para ler clique aqui.
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Quem tem medo de Sophie Calle?

Pig, from the series “Les Autobiographies”, 2001, photograph and text on aluminium, 170×100 cm and 50×50 cm – aqui
Ainda não sei o que pensar sobre Sophie Calle, digamos que tenho um pé atrás em relação a ela, a seu decantado exibicionismo, a sua intimidade pronta a nos atravessar e devassar, assim mesmo, num movimento pelo avesso: quanto mais ela se mostra, mas ela exige do outro que se exponha também, não só seus amantes, pais e outros objetos eleitos, mas nós também, a “audiência”, na medida, por exemplo, em que ela nos convoca a tomar um partido, pois é. Posição incômoda, como se ela nos pedisse um voto (de confiança?), nela, na sua personagem, na sua versão, de bate-pronto, como num reality show , ainda que explicite que fale do lugar mais relativo e frágil possível. Calle parece estar onde a arte conceitual flerta com o mais banal, mas sem perder a pose (quase perdendo), daí a graça. Sinto como se ela testasse até onde vai nossa curiosidade e nosso gosto. Em boa medida eu acho de mau gosto o que ela faz, mas ao ler e ver: não, já que é tudo muito elegante. A mulher me pega na curva, ali onde eu não estou bem segura, naquele ponto maldito em que não sabemos bem discernir o que estamos vendo ou do não estamos. Será a obra de Sophie Calle isso mesmo, só isso, ou isso tudo?
Independente da dimensão e alcance de sua obra, entretanto, o que não posso negar é que de alguma forma comporto uma “Sophie Calle” (!), e sei que muitas outras mulheres também, para o bem e para o mal, um papel possível: o da vítima que se identifica com o agressor e torna-se pior do que ele… Parece que Calle funciona sempre num movimento de revide, de vingança, não apenas na sua obra mais falada do momento – o tal email de término do namorado que ela expôs a 107 mulheres, que o responderam, e depois ao mundo como forma de purgá-lo -, mas em seus mais antigos e pequenos textos também.
Textos cuja necessidade da reparação não cala nunca, já que, óbvio, a resposta que ela deseja não se dá, não há como remediar a dor que lhe causaram, só mediar, pela arte, num faz de conta que não dá conta – não estanca nunca. Seria Calle mais uma num exército (de ressentidas?) não fizesse de seus fantasmas a matéria prima de suas obras, despudoradamente – não jogasse no ventilador ela e o outro, bem no espírito de seu (nosso) tempo, num espelhamento sado-masô mesmo, sem escrúpulos seja com quem for, no limite. Que medo. Não sei se posso gostar disso, acho que não. Preciso de tempo para ver e saber com mais justeza, sabe?
Ganhei do amigo E.M. o livro Des histoires vraies, de 1994, cujos textos reverberam (e mesmo se repetem) em todas as suas exposições, performances, livros, na sua produção, enfim: quem “ressente” sabe fazer a receita do bolo render. Elegi um textinho para vocês (a tradução é de E.M.), exemplar do que intuo/ procuro apontar em seu trabalho (ela escreve muito bem, diga-se):
La dispute
Le Mardi 10 mars 1992, à onze heures cinquante, il m’ a jeté à la figure les objets suivants: une boiulloire vide, une planche à pain, un sofa jaune à deux places, quatre coussins, une monographie de Bruce Neuman et un téléphone noir qui défonça la cloison. C’ est alors que je compris qu’ il me demandait: l’ écouter. A treize heures, tout était rentré dans l’ordre. Restait le trou dans le mur: certre denière trace, je l’ ai cachée derrière notre photografie de mariage.
A briga
Na terça-feira, 10 de março de 1992, às 11 e 50, ele me jogou na cara os objetos seguintes: uma chaleira vazia, uma tábua de pão, um sofá amarelo de dois lugares, quatro almofadas, uma monografia de Bruce Nauman e um telefone preto que furou a parede. Foi então que compreendi que eu preciso fazer a única coisa que ele me pedia: escutá-lo. Ás 13 horas tudo estava em ordem. Sobrou o buraco no muro: essa última marca eu escondi atrás de nossa foto de casamento.
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Lançamento, hoje

Querido Marcelo Maluf organizou o volume, vinte autores, vinte contos infanto-juvenis, de gente como Tatiana Belinky, que destaco dentre outros pelos tantos “Era uma vez” prestados, e também pelo fato de condizer, não por acaso, com a faixa etária que tem mais frequentado meus posts ultimamente.
P.S.: Abrirei uma página só para divulgar lançamentos no bloguinho, o próximo vai encartado, digamos assim.
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Será arte?
Traduzir-se
Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
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Sergio Britto em Beckett

foto de guga melgar
Depois de falar tanto de Fernanda eu não poderia deixar de comentar Sergio Britto em A última gravação de Krapp e Ato sem palavras 1, de Beckett, dirigido por Isabel Cavalcanti. Peça que aliás, saiu de cartaz no final de semana passado.
Como eu não sou jornalista, não me atenho ao tempo que os espetáculos estão em cartaz e serviços assim, mas penso que deveria, há coisas que urgem serem vistas, Sergio Britto é o caso, Beckett também. Mas creio que esta peça como a de Fernanda devem voltar para uma segunda temporada, aí me redimo.
Acredito que não seja coincidência que dois atores tão próximos na arte e na vida tenham escolhido monólogos à esta altura da carreira e, sobretudo, que tratam, cada uma à sua moda, da brutalidade e absurdo da existência, da solidão em que estamos inelutavelmente mergulhados – e do que podemos ou não fazer com isso.
Quero deixar registrado aqui meu encantamento pelo domínio das palavras, pelo gosto por elas na boca do ator em a Última gravação de Krapp, como também pela potência imensa dos mínimos gestos deste homem de 80 anos em cena. Não esquecerei o modo como ele comeu três bananas nesta peça, como suas mãos as decascaram e as empurraram paulatinamente goela abaixo. Pois é, uma banana e um ator podem alimentar uma existência por um tempo imprevisível. Isso já não vale o jogo?
Não bastasse a Última gravação…, Britto também se lança ao Ato sem palavras 1, que foi originalmente criado para o ator e dançarino Derik Mendel, mas que o ator adapta aos limites, que podem ser ganhos em se tratando de teatro, de seu corpo, liberdade justa, digamos, ao se apresentar um autor que faz da nossa ” impotência a sua potência”. No limite, interpretar trata-se disso também, não?
Ver Fernanda Montenegro e Sergio Britto tão bem, na ativa, é algo alentador, acho que é isso. Dá gosto e sentido usar a já tão gasta palavra “contemporâneo” em releação a eles, se alguma contemporaneidade me interessa, ela está muito próxima desses senhores. Ser do mesmo tempo deles é uma destas contingências da vida que só tenho a agradecer.
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foto de pennah
Ontem eu fui assistir a um bate-papo gratuito entre Fernanda Montenegro e Jorge Coli, que faz parte de um projeto chamado “Caminhos da liberdade”, no qual parte significativa da pesquisa que precedeu a montagem de Viver sem tempos mortos é levada ao conhecimento do público. Encontros como este tem se dado todas as quartas-feiras desde de 20 de maio, só soube ontem, o de quarta que vem será o último. Corram!
Antes da conversa, foi apresentado o documentário Une femme actuale, de Dominique Gross. Creio que não o apreciaria tanto caso não tivesse visto a peça que, aliás, praticamente o dispensa, honestamente. Entretanto ele estimulou um bom começo de prosa, sobretudo porque para o meu espanto, diante das questões colocadas pela platéia, percebi que muita gente ali não havia podido ver a peça como eu. Um fenômeno que só um país como o nosso pode “‘oferecer”. A atriz, além de atuar Beauvoir, no bate-papo, generosíssimamente versou sobre e decifrou a filósofa na maior leveza para uma platéia que certamente só conhecia a Fernada da tevê e nunca tinha sequer ouvido falar de Beauvoir.
Situação que só espantou a mim e mais um poucos, Fernanda não se melindrou, muito pelo contrário, pelo que entendi este projeto é uma iniciativa dela, mais do que ninguém a veterana sabe (e ousa saber) quem é sua platéia, e se dirige a ela sem pejo, com interesse, disponibilizando inclusive livros de Beauvoir no lounge do teatro.
Abismei-me com seu bom humor, com seu gosto pela reflexão e pela palavra, é de fato uma das mulheres mais inteligentes e lúcidas de que tenho notícia. Depois do que ouvi não me resta dúvida de que a dramaturgia da peça, que não é assinada, seja , em boa e incomensurável medida, dela.
Como é bom ver um ator com um domínio das palavras que rivalize com o do corpo, em que um esteja à altura do outro, cujas energia física e potencialidade vocal estejam prontas para dar cabo do texto, para enfrentá-lo. Coisa rara em tempos que que o corpo, mudo e desencarnado, prevalece, roubando tantas cenas.
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