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2009, 2010

Queridos, eu mesma já não aguento mais entrar aqui para pedir desculpas pelos meus posts extemporâneos. Sorry geral e irrestrito. Creio que meu ritmo em relação a este espaço de mudou de vez. Para assombro de meus amigos próximos ando sumida, mas não temam por mim, não vou entrar em nenhuma torre de marfim. As contemporaneidades todas batem a minha porta, reiteradamente, e não me furto a elas, gosto muito, vocês sabem, até do que não gosto. É véro que pouco tenho saído de casa, a mercearia pouco me vê e eu a ela, assim como o b_arco e outros espaços. Como também as festas, os encontros de final de ano, muitos, vários. Mas jamais estive tão bem, quero voltar a circular, mas sem comprometer meus projetos e uma certa firmeza alcançada.

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O ano passado não foi nada bom, este se ajeitou como pode, melhor que a encomenda, em trilhos que muito me interessam e já me dão um certo alívio e folga em relação a 2010, ainda que minha agenda interna ainda se mostre grande. Talvez por isso eu não tenho blogado tanto, eu teria de fazer muita literatura para dar conta das movimentações por que tenho passado, que externamente não são tão visíveis e comentáveis assim. Não tive um ano de grandes fatos, mas de pequenos grandes saltos que só foram possíveis porque tive ajuda de muita gente querida, sozinha eu não daria conta. Mais do que fazer e acontecer, sofri, operou-se em mim, um balanço de perdas muito significativas, que se eu não tivesse feito este ano não conseguiria dar um passo mais adiante. Um ano duro, mas muito bom. Eu e meus fantasmas estamos firmes, mais apaziguados.

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Não acredito que nos livremos deles, apenas convivemos melhor. Um pala que a boa psicanálise já dá aos borbotões e que muitas religiões parecem indicar, mas as religiões não me pegam, apesar de eu respeita-las e cada vez mais colocar num mesmo plano aquilo que se impõe como enigma e o que pode ser chamado de mistério. Eles conversam. Só que mistério não cabe em institucionalizações, provavelmente nem o enigma com seu eterno convite à decifração. É por essas e outras, que o campo que mais frequento, ainda quando ausente, entendam como quiserem, seja o da arte, ela tem sido minha grande analista, oráculo, aquele tal pai reencontrado de que tantos escritores falam e no meu caso, sobretudo este ano, a mãe.

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Não à toa, agora lembrei da minha avó e fiquei com vontade de falar nela. Não era o plano, mas vamos lá. Apesar de ela não ter sido uma figura que possa ser chamada de materna daquele jeitão que muitos esperam que uma avó possa ser, foi uma de minhas mães, quase a primeira. Ela já se foi, mas eu pude vê-la mais de perto este ano também. Percebi muitas coisas que não cabem aqui, só quero pontuar, antes que eu comece outras digressões, uma frase que ela me sempre me falou e que diz muito dela: “Luciana, se você for à missa e não concordar com o sermão do padre, não comungue”. Ela dizia isso com um mau humor tremendo, mais: ela era mesmo uma senhora cheia de fúrias. As freiras ela detestava declaradamente – não é meu caso, eu não tenho essa fúria toda e acho que em algum lugar mora em mim um hábito (continuo provando a minha avó, incrível). Bom, gosto mesmo do fato de ela ter me ensinado a não comungar. Gosto de me lembrar de cenas como as dela brigando no banco seja pela  fila de idosos, quanto pela de não-idosos. Certa vez, um office boy, ainda se usava (ela usaria este termo “usar” e acho adequado), foi ficando impaciente e começou a resmungar dos que estavam à sua frente, numa fila que à época juntava idosos, grávidas, alhos e bugalhos, inclusive ele. Minha avó, diferente de outros entes constrangidos naquela situação, não teve dúvida, virou para o rapaz, na lata: “Você também vai ficar velho”. Silêncio geral, a fila ficou ótima. Noutra feita, já conquistado o direito da fila de idosos, ela foi para uma outra que estava mais vazia,  e uma moçinha incomodada veio falar com ela, Dona Maria Helena não teve dúvidas: “Minha filha, eu esperei anos para este país ser uma democracia, eu fico na fila que eu quiser”. Inúmeras vezes presenciei esta espécie de Mafalda idosa em ação, impedindo que árvores fossem cortadas no bairro, aglutinando vizinhos, brigando nos bancos, quando os bancos ficavam cheios de idosos no Rio de janeiro e os caixas eletrônicos não existiam.

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Só que a grande questão, no caso dela, me parece, é que ela se distanciou demais de tudo que possa ser chamado de mistério ou enigma, apesar de mergulhada na alta voltagem de sensibilidade e vivência artística do meu avô e de seus filhos e netos. Ressentida não é a palavra, minha avó ficou ressequida, suponho, com grande margem de acerto, depois de 1964 e de ter perdido uma filha. Ela não acreditava em nada que não lhe parece deste mundo. A música ainda a tocava, sobretudo bossa nova, Chico e Nara. Predileção que não herdei, mas que entendo hoje. Ela indicia que em algum momento minha avó acreditou bastante na vida, sobretudo quando estética e política pareciam se casar sem medo de serem felizes, ainda que se considere ainda hoje a bossa algo alienado, não era a visada de minha avó. Ela era refinada, embora tenha se… não tenho a palavra. A bossa encarnava para ela um tempo de promessas, de feitos até. Ela foi um bicho político que não se consumou, é a vocação que eu vejo mais claramente nela, que eu escutei, ela sempre gostou foi disso. Eu gostaria de dizer pra ela que eu sei, e que se não começo os jornais pelas páginas de política, se até fujo delas, de alguma forma levo isso comigo, espero que menos ressequida, mas, furiosa. Eu quero saber ser furiosa como ela e ainda assim ser querida como ela foi. É um bom desejo para 2010.

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E que essa fúria se some, não sei bem como, com a delicadeza extrema do meu avô, que em algum lugar também levo aqui, de modo  menos elevado  é certo, e por um desacerto de curso mais doído também. Passei o ano pensando muito neles e fecho assim, mas não melancolicamente. Eles estão desembutidos, digamos, livres para se reinventarem. E quem quiser que conte outra.

P.S.: Esse post estranho foi se fazendo. Ele fica também para os meus primos e para os meus irmãos, para quem eu amo.

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6 Comentários Comente
  1. ana luiza #

    Perceber ao outro tão profundamente é um Dom o Dom de sentir plenamente o próximo, transpor isso em belíssimas e singelas palavras e uma dádiva. E vc minha irmã é para mim uma Diva da beleza e das idéias.

    18 de dezembro de 2009
  2. Umbigo muito generoso. Belo post. Queria postar uma foto de comentário mas não vai.

    Cuide-se e nos vemos em 2010.

    Bjo

    19 de dezembro de 2009
  3. ô, fofona, você é uma exagerada. acho que somos. a diva é você. você sabe. beijos. 🙂

    19 de dezembro de 2009
  4. Fer, você é uma pessoa que eu quero levar para 2010! Iria adorar uma foto no comentário! Como não pensaram nisso antes. Uma conversa assim é que é boa! bjs!

    19 de dezembro de 2009
  5. Lili Vieira de Carvalho #

    Lindo post e foi uma delicia rever minha Tia Nininha nas suas palavras. Beijo, prima! E um 2010 cheio de coisas boas e de muita luz.

    19 de dezembro de 2009
  6. Lili, que bom você aqui, gosto de te ter por perto. muita luzzzzz na sua vida!!!! bj, lu

    19 de dezembro de 2009

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