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Antonio Cicero, acontecimento

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© fernada grigolim

Há um tempo tenho me perguntando sobre o sentido de fazer cursos curtos, ando com um pé atrás enorme à medida que as ofertas crescem, ainda que eu tenha mais experiências boas do que ruins nesse departamento – e escolha muito bem antes de me aventurar em oficinas e quetais.

Como esta semana vivi uma experiência de quatro dias que eu já sei que levarei por muito tempo comigo, porque ela implicou uma espécie de corte que não sei a extensão, minhas reservas quanto a cursos  breves foram deveras abaladas. Aliás, não consigo sequer imaginar não ter feito o curso Que é a poesia?, no b_arco, com Antonio Cicero. Um acontecimento, definitivamente.

Já na primeira aula ele deixou claro que suas aulas não se tratariam de uma oficina, não era o que eu esperava mesmo, no entanto ele nos presenteou com uma experiência que também não se situa no que se convencionou chamar “curso teórico”, na medida em que sua fala surtiu um efeito de ordem criativa (e aí se leia reflexiva e afetiva) muito maior do que uma oficina calcada na prática poderia, a priori, detonar.

Não posso situar o curso de Antonio Cicero no que se convencionou também chamar-se de “aula espetáculo”, creio que isso de deva pelo caráter introspectivo dele, pela sua polidez que nada impõe, ainda que sua presença não seja menos brilhante do que a de personalidades mais extrovertidas, aliás, muito pelo contrário. Há um carisma inegável, mas que se imprime pelo avesso, a sua reserva e discrição só potencializam a graça do que diz e lê, sem facilitações. Ele encanta a audiência na proporção em que encantado está pelo que lê e não por ele mesmo, a finalidade de tudo nele, em aula, é o poema a que se debruça, sem espetaculariazações, enfim. Sua leitura de poemas criteriosa, precisa, límpida, revelando métricas, entre outros eni recursos, que a leitura menos detida e dita de vanguarda sequestra por vezes, levou a classe longe, noutro espaço-tempo; e como foi difícil sair de suas aulas depois de conquistadas ou percebidas outras habilidades que um poema convoca. Cicero levou-nos a entrar no que ele insiste chamar de “tempo do poema”, sem abrir mão do rigor, ele fez. Uma aluna disse estar diante de um Aedo, arremetida ao Olimpo, eu não ousaria tanto, minha verve não permite, mas cá pra nós, faço coro.

Ele encarnou para nós, a cada poema, o que defende como crítico, fundamental ler seu livro de ensaios Finalidades sem fim – e o que podemos ler também em sua poesia. Sua aula é, em boa medida, sua própria arte poética aplicada, à mão. Assisti-lo foi pura fruição estética, no que exige ela de mais complexo e rico, à lá Kant, à lá Cicero. No limite, a definição que ele faz de poema bem caberia ao seu curso: “Objeto artificial de caráter formal, desprovido de qualquer função biológica, utilitária ou cognitiva. Ele é um objeto que vale por si”. Antonio Cicero quando nos deu um curso, ofereceu-nos arte. E como foi bom tê-lo frequentado e como ainda é e será.

Dentre os vários poemas que ele nos apresentou há um de Charles Baudelaire chamado L´invitacion au voyage, traduzido por Ivan Junqueira, que tem dois versos que me soam como uma espécie de promessa que este curso cumpriu e de chamado que eu não quero perder de vista:

“Lá, tudo é paz e rigor,

Luxo, beleza, e langor.”

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12 Comentários Comente
  1. exercer como professor alguma coisa é sempre muito complicado. ainda mais quando a relação com os enunciados é mais ambivalente do que as ambivalências costumam ser. mas imagino que ouvir comentários com essa clareza. com capacidade de demonstração da especialidade. deve ser delicioso para qualquer professor. por mais ambivalente que possa se manter. sorte a do antonio cicero. sujeito de sorte.

    10 de agosto de 2009
  2. Ficou boa a fotinho tirada às escondidas, rs rs.

    òtimo texto. Concordo totalmente. É um prazer viver bons cursos e boas companhias.

    Bjo

    10 de agosto de 2009
  3. sorte aparecer um comentário como o seu. sujeito de sorte, eu.

    10 de agosto de 2009
  4. vamos manter contato, hein? Bj!

    10 de agosto de 2009
  5. Malu Alves #

    Lu
    Você realmente arrasou!!!!!Conseguiu encontrar as palavras certas para descrever impecavelmente o que aconteceu naqueles dias mágicos, para alguns eleitos!!!!!
    bjs
    Malu

    10 de agosto de 2009
  6. Lindíssimo o seu texto, Luciana. Desvelou para mim os fundamentos do prazer estético que experimento ao ouvir os poemas do Cícero, por ele mesmo. Pena que nunca ouvi ao vivo, mas apenas em gravações.
    Parabéns.
    Abraço fraterno.
    Mariano.

    10 de agosto de 2009
  7. flor, você descreveu muitíssimo bem. era como se estivéssemos no edem. o antônio é de uma elegância e delicadeza de alma ímpar, se existisse príncipes encantados, ele seria o mestre de todos eles! só temos que agradecer e guardar dentro de nós cada momento. bjs, m.

    11 de agosto de 2009
  8. Bia Del Picchia #

    Luciana, que belo texto!
    Concordo com tudo.
    Homero, Horacio, Borges, Baudelaire, Bandeira, surgiram vivíssimos nas palavras do Antonio Cicero, deixando também a nós, que o ouviamos, ainda mais vivos.
    bjs, Bia

    11 de agosto de 2009
  9. Mariano, dei um pulo no seu blog! Tem coisas ótimas.

    11 de agosto de 2009
  10. victorcolonna #

    Luciana,
    Sou poeta e cronista e criei um blog para divulgar meus textos! Sou fã do Cícero e através do blog dele cheguei ao teu. Parabéns pelo texto! Se puder, dê uma olhada no meu blog: http://www.deitandooverbo.wordpress.com
    Seguem aí dois poemas. Grande abraço!

    BOCA DO ESTÔMAGO (VICTOR COLONNA)

    Minha língua afiada
    Cortou o céu da boca:
    Passei a cuspir marimbondos.

    Era tanto veneno
    Que toda ferida era casca
    E todo ruído, estrondo.

    Um dia, desatento
    Passei ungüento na boca
    E amaciei o céu.

    Pus-me a cuspir marimbondos
    e abelhas
    Sangue adoçado
    Veneno e mel.

    SUJEITO OCULTO (VICTOR COLONNA)

    O problema são as conjunções desconjuntadas
    As interjeições rejeitadas
    Os adjetivos desajeitados
    Os substantivos sem substância
    As relações de deselegância entre as palavras.

    É preciso superar o superlativo:
    O absoluto sintético
    E o analítico.
    Achar o verso
    Entre o verbo epilético
    E o pronome sifilítico.

    Falta definir o artigo inoxidável
    O numeral incontável, impagável.

    Resta procurar o objeto direto
    Situar o particípio passado
    E o pretérito mais-que-perfeito

    Desvendar a rima
    Desnudar a palavra
    Encontrar o predicado
    E revelar o sujeito.

    11 de agosto de 2009
  11. Flávia Reis #

    Luciana! Eu acho que já disse isso antes: vc tem muito jeito com crítica literária, sabe escrever muitissimo bem!
    Parabéns é pouco, Lu, pois além de escritora, professora, cronista – até jornalista vc se tornou! Eu, que não fui neste tal de curso teórico do tempo do poema, tomei conhecimento do seu impacto e conteúdo por intermédio das suas palavras. E que honra ter seu nome do blog do Cícero, eihn? É para poucos, muito poucos.
    Beijos!
    Flávia

    11 de agosto de 2009
  12. Luciana, imagino o quanto enriquecedor foram as apresentações de Antonio Cícero.

    Estou lendo o Finalidades sem Fim e realmente trata-se de uma obra importantíssima.

    Parabéns pelo blog.

    11 de agosto de 2009

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