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Para Alcides Rocha Miranda

Escrevi este texto há 10 atrás, mas ele me parece ainda vivo. De alguma forma eu não consigo sair dele.  Meu avô faria 100 anos este mês. Dia 30/07 haverá uma homenagem a ele no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Estarei lá, provavelmente lendo algo como me pediram, mas ainda dentro deste espírito. Confesso que nos últimos dias, mesmo que eu circule aqui e ali, minha cabeça e o resto estão todos voltados à memória (e a presença e falta) dele. Eu não seria sem este avô. De longe, sem edições, este texto me soa como uma ladainha, um canto, quiçá eu já o pranteasse, que fique assim para vocês (a versão belamente editada e diagramada está numa revista da FAU-USP).

Este texto não seria à época sem o carinho, a leitura e as intervenções do querido Professor Flávio Motta e sem a força da amiga Luana Geiger.

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EN SI NO SILÊNCIO

Pisarei em ovos como ele fez vãos no concreto, pausarei a verve, como ele iluminou indiretamente tantas exposições, sussurrarei, porque não foi na eloqüência que ele fez falar seu caminho, assim me empenharei ao retratá-lo, com acuidade máxima: respeito à sua sintaxe pontual, aos seus passos precisos, ao seu tato especial com as palavras, ao seu SILÊNCIO.

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Nunca vi meu avô levantar-se de uma cadeira como alguém que não sabe para aonde vai. Abruptamente ele se levanta e segue em passos retos, postura firme, salto lépido de quem estava imerso em pensamentos e num átimo toma uma decisão.

Andar pausado, aprumado. Acerta a posição de um quadro, dispõe objetos de sua sala de maneira precisa, cada um com sua função, numa harmonia milimetricamente arquitetada e acolhedora.

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Agora, aos meus 24 anos, nossos caminhos convergem, ele, meu avô, sempre esteve aqui, à mão, mas faz pouco tempo, sinto-o como se tivesse ganho um presente, alcançado com certo esforço. Pude, finalmente tê-lo, tão presente como todo mundo, creio, cúmplice em boa medida.

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Acredito que quando se nasce não se ganha um avô, se ganha uma vida e … se busca um avô, se escuta um, se sente um, se cava e esculpe um e aí está ele: sempre vivo, em nós, moldando o encontro

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Encontro de interesses, afinidades, com quadros, com plantas, com morros, com nomes, de Lúcio, de Motta, de costa, de Aníbal, de Pompéia, de Zanine, de Mirandas, da Djanira, de Corbusier, de Kandinsky, de Lloyd, de Andrades, de Guignard, de Peixoto, dos Mários, de Portinari.

Datas sempre desencontradas, encontros sem pontos marcáveis na folhinha, um vazio cheio de sentidos, simultâneos e sucessivos que me vieram preencher, porque eu quis e meu avô, silenciosamente, pediu. Eu escutei.

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Burle Marx dava almoços com arranjos incríveis em uma mesa enorme para os amigos, sempre vários e, mesas menores no jardim para a criançada. Recebia e sabia receber.

Ele, cantava óperas e a comida, a cada novo almoço, insuperável. Se eu sabia que ele era o paisagista, o pintor e tudo mais?

Não sei responder, mas me encantava o seu jardim e a sua casa com móveis pintados por ele, além do imenso aquário, que ficava atrás da mesa de almoço. Qualquer criança se encantaria e se encontraria ali.

O meu avô neste almoço? Ao lado de minha avó, apreciando, rindo… convivendo.

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Com meu avô fui aprendendo, sem perceber, como se aprende uma língua, por convivência, por fragmentos, oposições fonemáticas, ruídos, cores, olhares e, um dia, o qual jamais precisarei a data, já estava eu, envolta e absolutamente desenvolta no silenciar riquíssimo dele: aprendi a falar a sua língua e a compartilhar do silêncio que a move.

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De meu avô não tive muitos abraços compridos, nem curtos também, colos, talvez, mas austeros, para o quieto, para o silêncio. Não conheci beijos de aprovação, nem diminutivos carinhosos de meu avô.Mas sempre acompanhei seu olhar, as respirações profundas, sua concentração e a censura discreta, dizendo tudo em beges, cinzas, ocres, verdes pro escuro, branco, grafites e marrons.

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Ternura, a palavra é: ternura. Dicionário de neta:

  1. sentimento contínuo, que alaga, o brando que excede.
  2. ver verbete: olhares e sorrisos ternos de Alcides.

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Minha avó, a enérgica Dona Maria Helena Miranda da rocha Miranda, duas vezes, porque prima de meu avô, também aprendeu a falar a língua dele. Um casamento, quase um batismo (creio que ela não gostará desta analogia.)

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No mundo de casada, assimilou e empunhou junto ao vovô o MODERNO, com a desenvoltura de uma poliglota que adota uma bandeira, por amor, no convívio e, sendo ela quem é,  por extrema convicção também.

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Ela me conta que a primeira lembrança que tem do primo é a dele olhando com um olhar de extrema reprovação – para quem o conhece, se aproxima da tristeza –  o teto todo decorado da casa de seu avô, ela tinha então 13 anos, ele uns 24. Meu avô não disfarçou seu olhar, digamos, MODERNO, àquela que seria, uns 8 anos depois, sua esposa. E ela condescendeu, discretamente.

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Aprendeu de forma tal a fala de Alcides e seu olhar, que fala ao telefone por ele, que não fala ao telefone, fica ao lado dela dando as indicações enquanto ela enuncia as falas, cancela, combina, decide, comenta, censura, se dá intensa: Dona maria Helena é também ARQUITETURA.

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Minha palavra também é feita de muito silêncio, por que foi assim que dele aprendi, foi assim que dele me formei, foi assim que ele me legou o que pôde e o que quis, como pôde e como é.

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Descobri rápido o gosto do vovô por desenhos. Eu os fazia, os mostrava , ele arregalava os olhos: aprovação. Não os arregalava tanto …. poderia estar melhor. Uma interjeição: oh!. A comunicação estava feita.

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Entre, seja por curiosidade, por afinidade, por amor mesmo ou por carência ( e por que não?) numa esfera de interesses dele, um domínio de aprendizado, de sensibilidade com as coisas do mundo, cujas portas só se abrem por dentro.

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Estou próxima a ele na sala, assim ficamos muitas vezes, e o vovô no seu tempo: – Luciana, sente-se aqui.

Sento. Espero… Silêncio e …ele: “Olhe como o quadro da Djanira fica bonito desta distância”.

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Petrópolis, antes dos meus quatro anos, noites a olhar estrelas, céu límpido, que fazia bem a ele, eu quieta, atenta , ao céu, a ele. De lá até cá, nunca diminuiu meu interesse por ele, com ele aprendi a contemplar, preciso não me esquecer disto. De manhã, a neblina, a caminhada, a leitura sagrada do jornal e nós, os netos, íamos brincar.

Brincar na mesma cidade, que anos depois eu vim a saber, foi a cidade de sua infância e adolescência.

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O professor Alcides nunca fala com dicção de professor, nada de teorias ou eruditismos estriônicos, toda sua fala,quando se dá e se dá muitas vezes, é simples. Também nunca fala do que não o entusiasme no momento.Se há a lembrança do passado, ela está aliada à vivência contemporânea, a algum projeto que o mobilize, jamais transmite  a nostalgia que esclerosa as coisas.

Tampouco fala do que não lhe parece significativo, nunca foi de concessões, os assuntos sulcam fundo, não de lhe interessar, ter uma certa ARQUITETURA.

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Ele é como um filme mudo sem legendas, 24 quadros arquiteto, em qualquer quadro se captará o que ele o é, porque ele o é todo o tempo.

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Legenda na projeção

O silêncio é o Limite ilimitado pelas interrogações.

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A escolha que meu avô fez, de caminhar pelo que acreditava, pelo o que o mobilizava, de Petrópolis a Brasília, para o que lhe era belo e justo, é o que me apruma muitas vezes, uma ética que tem seu preço e seus retornos valiosos.

Como os muitos amigos que meu avô fez nesta trajetória, os quais, afoita, quero escutar, saber, sentir, olhar, e dos quais só tenho a aprender.

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É deste caminho lavrado em gestos tão firmes , em flancos tamanhos e profundos , que eu, enquanto sua neta e não sendo arquiteta, me a arvoro a retratar, a tatear. Caminho, o qual, de alguma forma  (minha, própria) sinto como meu também.

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Coloco-me no meu lugar: de neta. E neste agora, também sem data precisa, porque é um período longo, me dou conta do legado que recebi das mãos dele, o qual para idade em que estou, deve estar não só cá dentro, mas fora, sendo passado e repassado, à frente, na linguagem que puder e quiser ser.

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Herdei a fé na interdisciplinaridade, de fazer LETRAS e trocar com arquitetos, de desenhar ao escrever, de olhar, escutar, tocar para frente este:

SILÊNCIO

Vãos imensos do MODERNO, aquele que aprendi com meu avô: olhar o passado para solucionar, dialogar, se embrincar com o presente e com o que do futuro fazemos.

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Que escutemos o silêncio dessa geração em todas as suas variações do MODERNO, a qual tanto do que vemos, pisamos e somos.

A argila é trabalhada na forma de vasos

E no vazio origina-se a utilidade deles

Abrem-se portas e janelas nas paredes da casa

E pêlos vazios podemos utilizá-la.

Lao Tse

Meu avô elegeu este hai-cai do Lao Tse enquanto epígrafe de um depoimento auto biográfico seu, chamado “Caminho de um arquiteto”. Atento para a singeleza do poema, para sua síntese, para os vãos que evoca, para o silêncio de uma trajetória que não nega lacunas, mas as abre como a própria possibilidade de construção.

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Digo construção enquanto comunicação também, pensemos na interdisciplinaridade que sustentava o SPHAN, na diversidade de interesses e conhecimentos que estes homens à época tinham: Mario de Andrade, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Lúcio Costa, Carlos Drumond de Andrade e Alcides da Rocha Miranda, entre outros. Eles sabiam e tinham a coragem de fazer falar os seus vazios, suas pedras no meio do caminho.

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Leio meu avô com meu prumo: LETRAS e digo, arriscando-me ao óbvio, não fossem as janelas, não veríamos o múltiplo, as diferenças, a paisagem de fora, o vazio que elas são, significa.

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A janela, como a palavra arada ou como é minha avó:

Arejada, permite à construção: o espaço, o fôlego de sua significação, seu horizonte, sem medida enquanto nos aproximemos.

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Assim como a janela, o silêncio é a própria condição de possibilidade de comunicação, é nele onde a palavra se desloca e atravessa eras, sendo a mesma e outra porque o silêncio lhe dá a folga, é o ar necessário para que ela prossiga seu caminho.

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É a abertura aerada das palavras de meu avô e de suas portas que permitiu que ele fizesse seu caminho, tombando e conservando nosso patrimônio histórico, arquitetando sua obra com soluções advindas do estudo de construções do que era então o seu passado e hoje, porque tombado, nosso.

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Ele sempre trabalhou neste limite, nesta fissura, entre passado e presente, tão delicada, que não é facilmente observável; há quase que se vislumbrá-la, ela escorrega fácil, no silêncio, como escorregam as palavras, que um dia caem em desuso.

Como vislumbrar o valor delas para além do tempo no qual as pronunciamos e grafamos?

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Aprendi que ancorando-se com coragem no cotidiano, assumindo esta fronteira movediça, na qual o passado, morros, cidades, casas, prédios, ruas, podem ampliar nossos horizontes de invenção.

Tombados não porque são passado, mas porque afirmam nossa identidade. Assim como faz o silêncio tombando as palavras para que possamos retoma-las e usa-las, ad – infinitum, enquanto durem, significando.

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Sempre nos veremos neste limite, o sinto diariamente, intensamente, quase como uma emergência e diante desta, deste impulso que me impele a olhar um pouco atrás ( e à frente necessariamente) que sinto em mim e em outros, que desta língua aprendida eu quis saber mais a fundo; para estar à altura, em alto e bom som, do silêncio do meu avô e fazer com que mais alguns o ouçam e medrem em suas pausas, tons, semi tons, timbres: composições.

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Não ganhei meu avô, o busquei, o escutei e o encontrei em mim, na minha tradição mais secreta e espero, que assim o seja para muitos outros, nas suas futuras, presentes e passadas realizações.

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2 Comentários Comente
  1. lilivc #

    Saudades do meu Tio Alcides e dos seus olhos azuis. Os olhos nunca envelheceram.

    9 de julho de 2009
  2. prima, é uma saudade tão grande!

    9 de julho de 2009

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