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Forgetting Dad, é tudo verdade

É raro, mas há filmes que congestionam, perturbam, acordam-nos no meio da noite, literalmente, puxam nossos pés, e a única saída, ao menos pra mim, é escrever sobre eles, ainda que eu não tenha muito a acrescentar além da revelação do meu assombro. É o caso do documentário Forgetting Dad (Esquecido papai), de Ricky Minnich, cujo subtítulo “If you father no longer remember you, does he stop being you father?” já dá pistas do quanto poderemos não passar incólumes a ele.

Saí do filme, assistido no É tudo Verdade, devastada, gostaria de um termo menos emotivo, mas a palavra é “devastada”. O documentário trata da procura de respostas de Ricky, o diretor do filme, para a perda de memória de seu pai após um acidente sem gravidade aparente. O cineasta mobiliza a família, os irmãos do primeiro casamento do seu pai, do segundo, madrasta, mãe, tios e tia, trazendo à tona a tragédia comum e, inelutavelmente, as seqüelas que ela imprimiu. Somos expostos com crueza a dor irreparável a que todos envolvidos foram submetidos pelo esquecimento do “esquecido papai”. Entretanto, tamanha verdade é desvelada, por incrível que possa parecer, como extrema delicadeza, salto estético e ético que só torna o documentário mais impactante, para não dizer: chocante.

Seria um filme difícil, mas não tanto quanto é, caso a amnésia do pai fosse um trauma que o edificasse, o justificasse, o desculpasse como vítima, mas não é o que a investigação indica, todo o sofrimento familiar e a “perda “do pai pode ter sido uma armação dele. Ainda não sei se dou conta de acreditar nisso. Deparamo-nos com a hedionda possibilidade do “esquecido papai” ter simulado a perda da memória para escapar de uma realidade que para ele era insuportável. É terrível pensar, mas seria “mais fácil” se o pai tivesse de fato apagado, morrido, tivesse dado a chance de os filhos fazerem seu luto. Mas não seria verdade se assim o fosse, não seria o “esquecido papai”.

Caros, como é terrível chegar a este desfecho possível. Não há saída, ele fica cozinhando, na medida em que a busca do filho levou a uma figura paterna que mesmo revisitada e desconstruída insiste em querer assombrar, porque não permite uma resposta satisfatória, minimamente, não uma que seja suportável. É isso: o filme é insuportável e a sua memória também.

Na sessão em que fui estava o cineasta, ali, à mão, aberto a questões, não consegui dizer palavra,  os poucos que falaram só conseguiram agradecer o feito, a história ter sido compartilhada, o que dadas as circunstâncias já me pareceu muito. Não preciso dizer que chorei horrores, e honestamente? Creio que preferia não ter visto o cineasta, menos ainda presenciado sua disponibilidade em falar, porque eu gostaria que ele não precisasse dizer mais nada, eu gostaria de acreditar que o documentário tivesse sublimado tudo, fechado a ferida, mas não, ela ainda estava ali, aberta a perguntas, encarnada naquele homem, no Festival.

Que coragem de ser humano desse Ricky Minnich, a amelancolia pode fazer bravos com ele. É tudo verdade.

Para saber mais clique aqui e aqui .

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2 Comentários Comente
  1. Gabriela #

    Vi esse filme hoje também, no Hot Docs aqui em Toronto.
    Estava procurando mais informações sobre ele na net quando achei esse blog.
    Sou voluntária no festival, e fiz questão de interromper o meu turno pra ir ver o filme.
    O Ricky também estava lá. Esperei todo mundo sair e, em particular, perguntei pra ele:
    “Se o seu pai recuperasse a memória, ou admitisse que sempre a teve esse tempo todo, você iria perdoá-lo?”
    Ele parou e pensou por uns 15 segundos, e depois sorriu e disse:
    “Não sei. Acho que depende do jeito que ele contasse.”
    Agradeci e elogiei o filme, sem saber o que mais dizer.
    Acho incrível que ele está disposto a perdoar o pai, mesmo depois de tudo…

    7 de maio de 2009
  2. Grabriela, muito legal seu comentário. Acho que você fez uma das perguntas que “não querem calar”, mas só o fato de ele ter dedicado o filme ao pai já diz muito, né? Há um perdão ali, na medida do possível, porque aquele perdão de final feliz, tão apregoado hoje, quase obrigatório, não permitiria a feitura do filme… nem as discussões sobre ele. Sem perdão, há solução… o cinema é uma delas. 😉

    7 de maio de 2009

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