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Chegando junto da Sutil Companhia

Leonardo Medeiros em Avenida Dropsie

Caros, eu não poderia deixar de comentar, por mais en passant que fosse, algo sobre a Sutil Companhia, ainda que  a temporada dela em Sampa comemorando seus 15 anos de vida já tenha encerrado.

Um teatro tão vital como o de Felipe Hirsh certamente voltará à baila muitas e muitas vezes, então fica aqui meu depoimento, à lá diário. Das 19 peças da Sutil assisti a apenas 4, confesso que me ressinto de não ter visto A vida é cheia de som e fúria, sempre achei que esta peça me daria pistas de qual é a desta companhia logo, de chofre, porque custei a sacar e a gostar dela. 

Gostar como aprendi a gostar atualmente: com esperança de mais e melhores espetáculos. A primeira peça que assisti da Cia, e já se vão alguns anos, foi Alice, me lembro do impacto visual  e de ter achado o texto muito arrastado, a “musa” da companhia Simone Spoladore (que adoro!) constrangedoramente emproada e gélida, enfim, não gostei do que vi. Em verdade, eu só consegui ver neste espetáculo  a assinatura da Daniela Thomas. Honestamente.

Algo não muito diferente se deu com a Temporada de gripe, apesar de algo nesta peça já ter me cativado mais, muito possivelmente uma única atuação mudou minha perspectiva, a de Leonardo Medeiros, já que eu nunca saio incólume da sua presença, ele é pra mim, disparado, o maior ator de sua geração. Qualquer projeto que o tenha presente já tem um crédito largo comigo. Mas devo assumir que ainda ssim o meu pé atrás com Companhia perpetuou-se. Era tudo bonito demais para ser verdade, muito no lugar, e eu via nessa “misancene” uma pretensão e pedantismo que me estarrecia. Eu não conseguia relaxar como espectadora, participar daquilo. Eu queria estar num teatro não tão quarta parede, o deles não tinha uma arestinha para me segurar. Não porque fosse difícil, mas porque me parecia querer sê-lo. Continuei insistindo, porém. 

Eu deveria estar um tanto equivocada na minha avaliação. Hoje penso que sim e que não. Prosseguindo: fui assistir a uma terceira peça, Não sobre o amor, e a parede se perpetuou, aliás, eu  já a considerava intransponível.  Tudo é tão amarrado visualmente neste espetáculo,  que mais uma vez a dramaturgia me soou uma peneira de textos absolutamente preenchida e abarrotada, salva digamos, uma vez mais, pela assinatura de Daniela (a mesma que eu já conhecia das peças do Gerald Thomas, quiçá repetindo-se). Pois é, saí de Não sobre o amor, a despeito da atuação irretocável de Leonardo, achando que eu tinha entrado em uma instalação e não uma peça. A sensação foi essa, o teatro é tudo, mas é teatro e não uma alta voltagem de artes plásticas.

Pois é, cruel, assumo e assino o que digo, porque sei que todas as críticas foram unânimes em louros e não seria eu a irresponsável de atirar a única pedra, frágil, baseada em impressões. Agora posso fazê-lo, porque minha visada é outra, o suficiente.

Foi necessária uma quarta peça para que eu sacasse que de repente a assinatura de Daniela é algo absolutamente orgânico ao repertório da Cia, não é mais Gerald Thomas pesando angustiadamente, o barato é outro. Palavras e imagens caminham rentes, num equilíbrio não muito fácil, mas este limite revelou-se um  risco muito particular da Sutil Companhia. Do meu ponto de vista nem sempre acertam o balanço. Honestamente? Senti na maioria das vezes falta de texto sólido. Entretanto, o que interessa é que quando saquei um projeto, um repertório, uma proposta que vem sustentando-se ao longo dos anos, passei a gostar, gostar até mesmo de não gostar das peças.  Fiquei confortada em perceber que há um fio que  enlaça o repertório, uma busca,  uma assinatura comum, a Cia tem uma voz que vale ser ouvida. A unanimidade não pode ser descartada, é isso.

A quarta peça foi Avenida Dropsie, ela derrubou todas as minhas resistências como já podem perceber. Minha gente, uma companhia que consegue por em cena 8 atores, brilhantemente, com um cenário irreparável, à altura, nem mais nem menos, e ainda assim sem facilitar retirar gargalhadas de um público que não é propriamente o de frequentadores do teatro, sim porque no Sesi vemos todos os tipos e extratos, só pode ser uma grande Cia. Não é qualquer um que consegue um teatro deste nível e deste alcance, tão popular (não gosto da palavra) e ao mesmo tempo técnico, histriônico sem peder a majestade, o preciosimo.

Eu pude ver uma orquestração tão rara e senti uma felicidade e uma gratidão tão grandes por ter visto a peça que nem sei. Há muito tempo não me sentia saciada e alegre saindo de um teatro,  sem quele peso que as outras peças impingiam, cabeçamente, digamos. Sabe aquela letra: “pletora de alegria o coração?”, por aí.

Fiquei feliz com os econtros, com o perfeccionismo coporal de Weber e nem por isso nem menos nem mais efetivo que a atuação de Leonardo Medeiros, que mesmo quando  é caricato, expressionsta,  uma personagem de quadrinhos, nos faz crer num estranho naturalismo. Amei ambos estarem lado a lado, em contraponto, sem ofuscamentos, pelo contrário, as diferêncas os agigantam. 

Gostei tanto das gags, dos chistes, dos gestos, do casamento perfeito de tudo, leia-se trilha, cenografia, luz e trá-lá-lá,  que quase esqueci as três peças anteriores, mas não, elas estavam lá, embutidas, tramando aquele ponto mais alto. Independente da ordem cronológica em que foram feitas, ok?

Resumindo: das peças que vi da Cia a Avenida Dropsie é um gigante e como gigantes não vem de graça não deixarei mais de assistir a uma peça sequer deles. Aliás, já estou louca para ver a Fernandona de Beauvoir. Imperdível, não?

 

P.S.:  Fica aqui o meu agradecimento ao Dênio Maués pelo toque de que eu deveria esperar ainda mais pra ver. Nem sempre é o caso, mas este foi.

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