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Já vi este filme, mães e filhas et al

Este filmezinho curto já roda pela rede desde de 2007 e abocanhou vários prêmios, não o apresento aqui por um ânsia novidadeira. Aliás,  os frequentadores deste blogue sabem que esta não é a minha. Gosto de reiterar.

Os motivos pelos quais elegi  My name is lisa para postar não são totalmente claros para mim, tenho pistas, vamos lá, vamos descobrir. A questão do Alzheimer materno já seria suficiente para apresentá-lo, mas não é o que mais me interessa.

A doença parece que só potencializa uma questão que sempre volta à baila no que penso quando penso sobre família: o desamparo. Pois é, ele, um nervo exposto, ou o nervo,  nas relações entre mãe e filha, para não entrar em outras, que canso de ver cotidianamente, ao lidar com meus alunos, com a minha família,  aliás, basta olhar com atenção que o desamparo está em todo lugar. É fundante. Entretanto,  o que me incomoda sobremaneira é que as  indefinições  e inversões de papel  que levam a ele são hoje tratadas como algo banal e até mesmo positivo. Um exemplo? A opologia da liberdade da criação dos filhos, discurso que nunca me mostrou respostas muito felizes.

Porque me parece óbvio que os papéis existem e que cada vez mais se esfumaçam limites importantes, ainda que boa parte da torcida do flamengo ache lindo tal estado de coisas.  E naõ é. Até onde precisaremos chegar para que pais e mães sustentem um lugar que é deles? Seja de autoridade, seja de interdito mesmo e, por isso, de possiblidade de amparo, de zêlo, de respeito ao filho como tal. Porque para amparar, par educar, para maternar,  há que se assumir um lugar, não?

E, gente!, como é terrível assistir a um exército de mães que se comportam como menininhas e coleguinhas das filhas, ou melhores amiguinhas ou ou ou. Um terror da modernidade, um tiro pela culatra. É isso: o desamparo da personagem me comove. E, justamente, por não ser nada extraordinário, por estar tão na cara todos dias e ser tão reicidente. Não é necessário Alzheimer ou outra mazela catastrófica para bater com ele de frente. É com horror que vejo pais, por exemplo, acharem normalíssimo adolescentes de 14 anos vagando pela Vila Madalena. Conheço muitos casos, conhecidos. Pois é. Pronto: falei. Sempre falo.

E é tão significativo e sintomático este movimento que o filme apresenta de quanto mais “ausente” a mãe mais ela ocupar espaço, até dividir a tela do computador com a menina, até Lisa ter de “cuidar de ambas” sem poder dar conta sequer dela mesma, o que se dá no frigir dos ovos com boa parte dessa moçada de hoje (um cuidar que significa não estar em nenhum lugar, seja de filha, seja de mãe, um cuidar que é descuidar). Está tudo muito fora do lugar. Careta? Se a minha posição pode ser lida assim e não poucas vezes é no que tange a educação de filhos: sim, sou careta, caretésima!

Bingo, não? Quanto mais uma mãe abre mão de seu papel menos uma filha pode se constituir enquanto tal. Como isso é corriqueiro atualmente! Quantas Lisas por aí não terão de repetir anos e anos e anos: “Meu nome é Lisa”? Sem que não as ouçam, nem elas mesmas? Quanta melancolia está implicada numa perda que se dá de corpo presente, de mãe e de filha…

Confesso que tudo isso me deixa indignada, esta é a palavra, mães que não sustentam um papel porque são boazinhas, companheiras, confidentes, discurso comuníssimo que me dá azia, ou seja lá o que for. Vivemos um brutal esvaziamento, não?  É de chocar que um discurso fácil e paupérrimo como “criação libertária”, “pais-amigos”, entre outras balelas,  tenha um custo tão alto pra tantos jovens. E assistamos com apatia a tudo isso,  não raro num belo foda-se.

Por que agora eu estou escrevendo sobre isso? Porque quando escrevo elaboro coisas, em público, como quem pensa. Posso? Meu nome é Lisa toca numa questão fulcral  a que eu continuarei voltando, até porque, infelizmente, não paro de assisti-la.

Como diz Lisa: “Elas acham que a vida é um livro de colorir, mas não é. É um livro feio, imprevisível e muito difícil”.

P.S.: Quem  frequenta o blogue sabe que eu estou sempre em busca de livros e outras coisitas que tratem do tema “família”.

P.S.2: Meus escritos nem sempre são tão passionais, este passou do ponto. Mas saiu assim, eu precisei,  assino embaixo. Não o leiam como uma acusação generalizada,  mas antes como uma reflexão.

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12 Comentários Comente
  1. Ótimo video, lindo texto! Adorei, como sempre que passo por aqui!

    2 de abril de 2009
  2. interaubis #

    É tudo muito confuso mesmo. Como exigir das mães um comportamento que as faria pessoas mais velhas, neste mundo onde a juventude é um valor em si mesma? Talvez essa obsessão com a juventude seja determinante para a covardia desta geração de pais. Enquanto os jovens são educados por estratégias acéfalas de marketing, os pais omitem-se com medo de envelhecer… Nem todos, claro. Ser pai/mãe é vocação e ainda existe quem nasceu pra isso, o futuro agradece.

    2 de abril de 2009
  3. Ps. Adorei, mas tem um detalhe que eu discordo:
    Meu filho anda sozinho na noite a pé pela Vila Madalena e não só, como na idade dele, eu andava sozinho na noite em Maputo, Moçambique, de moto ou a pé. Nem por isso ele é ou eu fui desamparado. Hoje em dia tem celular antes não. A confiança no ser que você criou é importante, sempre sei onde ele vai estar e que horas pretende voltar. Se os planos mudam sou avisado. As pequenas bobagem feitas nesse percurso fazem parte da aprendizagem. Claro que falo só por mim, não por outros pais. Mas acho difícil acreditar que uma educação liberal, por pior que seja, consiga ser pior que uma criação do tipo superprotetora moralista e antiquada. É claro que uma boa educação exige limite, mas estes devem ser estabelecidos através do diálogo e não por imposição ditatorial. Quer ver um exemplo, na primeira festa que eu deixei o Ivan ir sozinho, perguntei que horas ele voltava e ele disse que não sabia porque era uma super festa e tralalá, eu disse que assim não podia, tinha que estabelecer um horário pra eu não ficar preocupado, ele fez bico e falou pra eu dizer a hora então, quando eu falei 6h da manhã, ele saiu assustado e voltou tipo 3:30!

    Beijos

    2 de abril de 2009
  4. Aritanã, sabia que eu estava mexendo em terreno espinhoso e que uma leitura possível seria do tipo 8 ou 80: ditadorial x liberal. Mas não é o caso. Sobre a sua afirmações “Sempre sou avisado” e “Hoje tem celular, antes não” acho bem sintomáticas do que pretendi expor, é uma inversão os pais serem avisados, o filhos estipularem a volta, a hora que devem ser pegos aqui e ali. Se é para usar a palavra ditadura, que é muito pesada , vivemos uma ditadura dos filhos e o celular é uma feramenta e tanto. Pelo que vejo, a tal confiança pode gerar desamparo. Mas não quero atirar pedras nos pais, mas o vi muita gente da minha geração e desta, que aliás bebe que é um absurdo, daí o exemplo da Vila, bem desamparadas. Ser pai é sempre uma questão complicada, e deve ser tratada como tal. A idéia do desampardo é bem difícil de descer, né? Este post vai me dar trabalho. Bjs. P.S.: Reitero, não leia as coisas aqui como uma sentença de acusação, é para pensar, só. O que já é muito. 🙂

    2 de abril de 2009
  5. É a obsessão pela juventude é um ponto importante, quando escrevi, e os exemplos vão por aí não tinha pensado nisso tão especificamente, mas é isso mesmo, também: a adoração de tudo que seja jovem é uma puta falácia que não ajuda ninguém. Constrangedora. Não sei se ser a palvra é “vocação” tipo “dom”, ser pai é uma entre tantas construções, mas entendi. Que tema, né? Ah! “Omissão” é uma palavra muito boa e “covardia” também. Está ligado, hein? Nada como ser um jovem padrasto! Eu também fui uma jovem madrastra… Não há como passar incúle a esta experiência. Ainda bem!!!

    2 de abril de 2009
  6. Lu,

    Realmente eu intendo sua revolta, mas encontraremos pais omissos em qualquer tipo de educação! Quanto a pega e levar, eu não faço, use ônibus ou vá a pé! O celular é só uma tranqüilidade a mais, ele sabe que seu está restrito a emergências ou pra me comunicar de alguma mudança de plano significativa. Eu uma vez assisti um filme meio bobo, nem lembro o nome, mas que tem um monólogo incrível, um adolescente cansado de sofrer nas mãos do pai, reclama que precisamos de licença pra tudo: Andar de carro, usar uma arma, mas pai qualquer filho da puta imbecil pode ser! Tenho muito orgulho do filho que criei de modo aberto (não gosto tanto da palavra liberal, prefiro libertário), mas com muito zelo. Ao contrário da maioria da sua geração, sua programação de TV era feita por mim e continha de Disney s Yellow Submarine, passando por thunder birds e johnny quest! Aos cinco ele estava nadando com golfinhos em Fernando de Noronha, e com tubarão tb. Ano passado no 2º colegial ele pegou sua única recuperação em toda a vida. Adora bom cinema, tem gosto eclético por musica. Toca violino a nove anos e toca tb violino elétrico, guitarra, baixo, um pouco de teclado e gaita! Tem seus defeitos também, pois é um adolescente. Mas amo ele e tenho orgulho, embora faça algumas críticas, do modo como ele foi criado!

    bjs

    2 de abril de 2009
  7. Revolta, né? Que coisa… Parabéns pelo filho! Bjs.

    2 de abril de 2009
  8. Sei que por ter muito “material” para se discutir a respeito, prefiro me limitar a um humor besta e escrachado: http://www.youtube.com/watch?v=NDyo43kbtA8&feature=channel_page

    3 de abril de 2009
  9. Ana, só você!!!!!! Eu estou em crise com este post. Mas se vc resolveu dar o ar da graça… ótemo!
    Bjs.

    3 de abril de 2009
  10. Rosa #

    Oi!

    Achei perfeita as colocações sobre a familia e pais e mães desse sec XXI. Digo isso em meu estado de ser mãe de dois rapazes. Felipe de 24 e Danilo de 22 os quais criei sozinha desde muito tempo, e sempre a moda antiga ou careta??? e não me arrependo de nada, nunca fui amiguinha e sempre estive muito atenta. Hoje já com eles adultos, podemos dizer que estamos transformando nossa relação em uma profunda e duradoura amizade.
    E saiba que sou uma pessoa,contemporânea, ativa que trabalha com Arte Contemporânea e sempre ligada nas mudanças ao redor. Mas que sei exatamente do meu papel de mãe, educadora e resposnsavel pelo o que havia colocado no mundo. Vejo também ao redor pais e mães sem saberem exatamente o que fazer com seus filhos adolescentes, sem colocarem limites deixando eles pensarem que tudo é permitido. Talvez a ansiâ de uma eterna juventude por parte dos pais e mães, seja realmente um dos serne dessa questão.
    Bem, tb estava com isso um pouco intalado na garganta, é isso.
    beijo

    3 de abril de 2009
  11. Oi, Rosa! Adoro seus comentários. Que bom uma mulher e mão comentar por aqui, é raro! Pode desintalar a garganta o quanto quiser por aqui. 🙂 Beijo.

    4 de abril de 2009
  12. Rosa #

    obrigado!
    beijo

    7 de abril de 2009

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