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Lygia Fagundes Telles – pra ontem

Designer:  Eugenio Hirsch/ Livraria José Oympio Editora

Eu amo esta capa, não tanto quanto o livro que ela envolve, mas que é um grande casamento não tenho dúvida. Pois bem, levei esta edição para a Lygia autografar e ela ficou felicíssima ao vê-la, comentou o quão a capa era bonita e tudo o mais. Eu concordei, eu queria falar mais com ela, da capa, do livro. Do quão este romance, lido dias antes, tinha entrado na minha corrente sanguínea. E mais: do quanto ele já estava plantado nela sem que eu soubesse.

Eu queria poder ter comentado com a autora, entre tantas outras coisas, o quanto os diálogos desse romance são vivos, ágeis, na ponta da língua, e ainda assim não perdem o fundo mais fundo da prosa. E que por isso, por esta vivacidade, por este papo reto na boca de personagens complexos ela é a autora mais contemporânea que eu já li nos últimos anos. Não que ser contemporâneo seja um elogio, longe disso, mas o fato é que descobri que esta senhora de 80 anos ou mais escreveu, em 1973, uma obra-prima num mood fragmentado que vejo os romances de hoje buscarem.

Em verdade, eu pude perceber melhor a riqueza de Lygia, o tamanho da sua literatura, do seu legado, pelo que veio depois dela. Nunca o texto vital de Borges “Kafka e seus precursores” foi tão claro pra mim. Foi bom ter lido As meninas depois de Antonio, de Bracher, e de O filho eterno, de Tezza, por exemplo, para ficar com dois livros.

Os parentescos entre os três livros são grandiloqüentes para mim, independente do alcance estético de cada um (não darei conta de mostrar num post). As meninas trata da barra pesada da década de 1960-70 de dentro dela, e consegue fazer alta literatura do que estava então à mão. O Filho eterno, de Tezza, e Antonio, de Bracher resgatam justamente o mesmo período, procuram recuperá-lo, e usam expedientes formais que Lygia já tinha acenado nesse seu imenso romance. Talvez ambos não o tenham lido, não é o que mais importa, literatura é assim, mesmo que não saibam, estes escritores (entre outros) pisam numa seara já deflagrada por Lygia e dialogam profundamente com ela.

Lygia para dar conta de anos e espaços e personagens tão turbulentos e ambíguos abriu sua voz em três narradoras, um achado;  Bracher abriu Antonio em dois narradores e uma terceira narradora; enquanto Tezza custurou o resgate do passado numa única voz, mas absolutamente fragmentada, plurivocal, cheia de complexidades e paradoxos. Todos os três livros adotam a primeira pessoa. Mesmo que com vozes distintas e autorias indiscutíveis, os três falam a mesma língua e de um universo temporal historicamente próximo. Não me parece que seja coincidência que Bracher e Tezza tenham tido tanto reconhecimento num mesmo ano, 2008, e justamente regatando os anos 70. Os  livros conversam, basta lê-los. Curioso, não? Parte premiada e significativa da literatura feita hoje parece ter de se imbricar com algo que ficou ali, atrás, mas que ainda se faz muito presente, que é emergente (de emergir e emergência), ainda. Nesse sentido, As Meninas abriu um caminho indiscutível tanto formal quanto temático para parte do que lemos hoje. Esse romance urbano, metropolitano, ágil, absurdamente coloquial (e sapequem-se quantos predicados ao gosto contemporâneo se queira) é um verdadeiro ovo de Colombo.

Lygia, em 1973, escreveu o agora do seu tempo e de hoje, por isso, não por acaso, deixou herdeiros. Não à toa também na orelha dessa edição do As meninas que tenho, já velhinha, pode-se ler algo assim, num tom bem datado, de Telmo Martino, mas justo: “Um exemplo raro de profissionalismo dentro da literatura, principalmente porque o instante e o assunto escolhidos estavam cheios de perigos e dificuldades. O instante é o atual e tão atual que as páginas são viradas no mesmo gesto com que se arranca uma folha do calendário”.

Pois é minha gente, dentro deste post há uma tese, esboçada, mas que aos trancos e barrancos pode ser resumida no seguinte recado: “Quer conhecer literatura brasileira contemporânea? Procure uma autora chamada Lygia Fagundes Telles. É um bom começo de um dos mais que possíveis começos.”

 

P.S.: Estive com Lygia bem en passant por ter ido, a convite do Marcelino Freire, a um programa de tevê em que ele e Lygia foram convidados para falar de literatura, mediados por Manoel da Costa Pinto. Ela não podia estar mais à vontade, de cima dos 80 topa bem uma horizontalidade, com a maior lucidez e elegância. A prosa de Marcelino Freire, bem afiada no dia, não soou nada estranha a um ouvido atento e operante como o dela aliás, muito pelo contrário. Revelaram-se também pontos de contato entre ambos, mas isso dá outro post. Para ver os bastidores desse encontro e saber mais basta clicar aqui.

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2 Comentários Comente
  1. Analu #

    Essa “resenha” tinha que estar na Folha ou no Estadão. Ou não. Melhor assim, sem edição de gente chata, com a autenticidade e a força que brilham no teu texto. Adorei o jeito como vc alinhavou os autores e os tempos e os temas. Nunca imaginei juntar “lé com cré”. É isso. Ver além da curva. Bj!

    27 de março de 2009
  2. Que bom que você gostou! Tá biita na foto, hein? Brigadim!

    27 de março de 2009

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