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Entre muros, entre muros, entre…

Fui assistir ao filme Entre os muros da escola. Se eu gostei do filme? Não. Buscarei explicar o fato. Não entendi a Palma de Ouro em Cannes, aliás, há muito não entendo as premiações. Elas apontam para idiossincrasias e políticas culturais que me escapam. Das quais desconfio, mas não tenho elementos suficientes pra sustentar qualquer aposta aqui. Quem sabe um dia.

O filme apresenta a relação de um professor de francês com uma turma de sétima série de uma escola pública da periferia parisiense. Deparamo-nos com um circuito fechado em que a incomunicabilidade comanda. Vemos a escola desandar em seu cotidiano, a burocracia contra, os próprios professores sem falar uma mesma língua, quem dirá os alunos. Estes, literalmente não falam mesmo, há umpersonagem descendente de africanos, cuja mãe sequer fala francês,  que pode ser visto como um emblema do filme – e do preço alto que a França paga pela sua mão pesada na (neo)colonização -, aluno que não à toa é expulso. O sistema não está preparado para lidar com ele. Aliás, a ladainha do  filme é:  ninguém ali está preparado para lidar com as diferenças em nenhuma instância. O problema é que a reiteração incansável deste muro, do mesmo sobre o mesmo, torna o filme arrastado,  insuportável e do meu ponto de vista pouco crível.

Nesse sentido, o que me incomodou sobremaneira, e pode ter significado as loas todas recebidas pelo filme, foi a claustrofobia narrativa, o sem saída de cada tentativa de contato entre cada um ali, as cenas se arrastam numa mesma tônica, que não é a dominante, mas a única. O enredo não dá descanso, não sai do entre muros, e “temos” de assisti-lo até o fim, até que a negra mais negra diga que o ano passou e ela não aprendeu absolutamente nada. Um desfecho fácil para tanto lero-lero, para tanta função fática, chamem do que quiserem.

Pra mim é tudo muito duvidoso, assistimos a um “sem saída” muito armado, muito arrumadinho. Em nenhum momento eu me esqueci de que aquilo se tratava de um filme tentando simular algo que não estava ali, por pior que seja a tal escola, ela não estava ali, os alunos não estavam. Aquela negra dizendo que não sabia nada também não estava, era um ponto final adequado demais para um longa que promete trazer algo novo. Não traz, nem na França nem na China, quem dirá aqui. Pura encenação, na pior acepção do termo. Não por acaso me incomodou o mesmo professor que escreveu o livro e viveu o drama se auto-macaquear, haja distanciamento para reviver aquilo tudo que ele narrou em letra na tela. Honestamente? Tem de ser um professor muito ruim como ele se mostra no filme para fazer este papelão, para ficar sete meses cozinhando a ferida, que no final das contas não deve ter doído tanto assim.

Que doa em nós, e sem doer, o que é muito pior. É cínico. Eu não acredito neste filme, na sua suposta denúncia, no professor, em nada. Se acusam o cinema nacional de apelar para estética da pobreza, olhem bem este filme francês e me digam que estética é essa? E que ética mora num teatrão blasé como este do Entre os muros?

Este post é só o começo de uma prosa, o levantar de uma lebre que também não está tão clara para mim. Pensemos.

P.S.: Colegas professores, eu não questiono o contexto que o filme trabalha, mas o filme. Voltarei para falar de educação, certo? E de professores.

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2 Comentários Comente
  1. Oi, Lu.

    Pra mim, você fez um dos melhores resumos do que é o filme. De verdade. E o que você não gosta, que é essa reiteração, a incomunicabilidade total, o filme arrastado, insuportável é o que torna o filme para mim interessante. E totalmente crível. Para mim, o filme diz muito do que é a sala de aula.

    Claro que o filme não é a realidade, mas um olhar sobre, um recorte. O filme passa sobre todo um ano letivo com uma visão bem seletiva, principalmente dos momentos de tensão, das situações limites. Mas são essas que chamam a atenção para a discussão, pois são apenas a ponta do iceberg. O buraco do muro é muito mais embaixo.

    E sobre a negra mais negra que não aprende nada, não é um simples desfecho para tanto lero-lero. É uma situação real, infelizmente. Vivida no filme, vivida por mim ontem. Vida não vida, mas que acontece.

    Ah, sim. E gosto é gosto. Se discute, é claro. Mas gosto é gosto. Eu gostei do filme, não apenas pelo contexto, mas pela proposta e pela ousadia – que para mim existiu. Assim como gostei de “Quem quer ser milionário”, você não mas, tudo bem. Continuamos amigos – rs.

    Abraço,

    R.C.

    24 de março de 2009
  2. Rodrigo, que bom que deu o seu recado. Eu vou levar, e muito, em consideração o que você disse. Praticamente você me força a ver o filme mais uma vez, essa é a dor e a sorte de ter amigos como você. Mas é gente-gente como você que eu procuro. Sobre o “Quem quer ser milionário” não tem acordo, mas sobre “Entre os muros” sim. E é isso!, continuamos amigos, acredito que é justamente assumir uma posição que faz as relações se aprofundarem: podemos (e devemos) colocar as diferenças na mesa, porque o muro é muito mais embaixo.
    Bjs.

    24 de março de 2009

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