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Fal Azevedo – Minúsculos assassinatos

 

Acabei de ler Minúsculos assassinatos e alguns copos deleite, de Fal Azevedo. Não a conhecia, não sei como não a conhecia. Ela tem um blog bastante estabelecido, Drops da Fal, com voz própria e que está aí desde 2002. Primeiro encontrei o blog, antes tarde do que nunca, e me encantei com a sua linguagem direta e reta — mas cheias de sutilezas e léxico próprio —, como se a ler fosse compartilhar de códigos e piadas internas, só que com centenas de pessoas. Um feito e tanto. Fal vai, em cheio, ao encontro do leitor, que sem se dar conta passa a saber a língua dela. Reitero: dela. No frigir dos ovos, ela tem uma assinatura. Tem. Para experimentá-la, leitor, tem de baixar as armas.

Essa moça me impressiona bastante, enfim. Ela se arrisca num fio de navalha: critica de forma aguda o cotidiano mais comezinho, mas de dentro dele, no olho do furacão. Não à toa ela causa tantas paixões,  arrebatamentos e fidelidade, no boníssimo sentido, em que a lê. E é muita gente. Não bastasse escrever como quem fala, sem atravessadores, ela ainda responde a cada comentário feito em seu blog, além de e-mails!, e são centenas e centenas numa semana. Para os ilustrados e letrados de plantão, numa primeira visada, ela poderá parecer uma blogueira de amenidades e não é nada disso, não mesmo. Há uma ética ali, uma responsabilidade e compromisso com quem lê, e que só ao se permitir entrar na dela é possível entender. E sentir, de sentido e sentimento. Pois é, segurem essa.

A moça é densa, sem hipocrisias, chega junto (o que é tão difícil!) das ditas pequenas coisas, daquilo que eu, você e a torcida do flamengo camelamos e assistimos e vivemos (why not?) no dia-a-dia. E com delicadeza, não digo mesuras, melados, frufrus, mas com atenção ao outro, ao que está em volta, aos que não lêem (livros) e a lêem no blog, e até mesmo aos que não lêem nada. Inclua-se gente-gente e bicho.

Isso tudo para falar do livro dela, e ainda é pouco, mas o fato é que descobri uma autora, junto à blogueira, e não “apesar de”, “ainda que”, ou “além de”. As duas escritas são independentes, ninguém precisa ler sua pala diária para apreciar o livro, mas as duas conversam. Como alguém pode usar “hahahaha” em literatura e se sair bem? Ela pode, receita própria. É bonito acompanhar a versatilidade da autora em duas mídias, dois suportes, duas praias distintas e com a mesma responsabilidade com o produzido. Com autoria.

Não preciso dizer que gostei de Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. E também não posso negar: ele trata de uma geração que me interessa muito, aquela que perdeu o pé, junto com seus pais, no caso da protagonista Alma, ao ser mergulhada na liberdade comportamental de 60 e 70, e sem tubo de oxigênio. Uma geração de sobreviventes que se faz sentir (e ressentir?) até hoje, e muito. E que está presente em não poucos romances contemporâneos como, volto a citá-los: Antonio, de Beatriz Bratcher, e o Filho eterno, de Tezza, pra ficar com apenas dois.

Mas não é pra correr pro livro em busca do retrato de uma geração, a sutileza, a manha do livro, da autora, não é tratar do macro, mas do mais humano, e é claro que nisso o tempo histórico grita, mas não só, podemos ouvir (e reconhecer) várias vozes, e com um humor que só lendo. Mesmo que a melancolia dê o tom. É bonito, tem algo novo e bom no ar, a moça vai crescer ainda mais como romancista, aposto.

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4 Comentários Comente
  1. Fal #

    Eu fiquei sem ar. Muito, muito obrigada. Que coisa. Que coisa. Poxa vida.

    15 de fevereiro de 2009
  2. Que bom que gostou. Era isso, eu tinha de dizer. Eu que agradeço. Bjssssssssssssssss

    15 de fevereiro de 2009
  3. Ana #

    Também gosto muito do quê, e de como, a Fal escreve. Estive lá algumas vezes, comentei, mas não li nenhum (acho que é mais de um) livro dela.
    Aliás, olha ela aí em cima!

    16 de fevereiro de 2009
  4. É legal ler. Pois é, ela escreveu, uma querida.

    16 de fevereiro de 2009

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