Pular para o conteúdo

Para não desorganizar – uma lição

Hoje eu resolvi arrumar meus livros. Não os trato com grande reverência, é fato. Pensei em mudar de postura. Em organizá-los por ordem alfabética, sobrenome e nome de autor, aquela coisa toda que eu nunca pensei em fazer, mas sempre soube que jamais teria saco e nem tenho tanto livro pra isso. Cheguei até a começar a procurar na internet dicas para organizar “a minha biblioteca”. No meio da pesquisa já estava lendo outra coisa. E mais: já tinha começado a colocar alguns livros para fora da estante. Não tinha método, mas o estrago já estava feito, sem volta! (Coloquei um som, procurei minha máquina fotográfica, sim! Achei que fotografar a bagunça daria umas imagens boas, mas não encontrei pilhas novas em casa. Usei meu celular. As fotos vem dele.)

1

2

Espalhei os livros pela sala toda e fui recolher os que estavam pelo quarto etc e tal. Uma encrenca, necessária. Comecei a tentar organizar por literatura brasileira; literatura aquilo; literatura isso, no final ficou só literatura. Aquilo que tenho  e  leio, ponto, que outra literatura poderia ser? Arrumar a estante tem um pouco a ver com olhar a própria cara. Não posso ter uma estante metódica quando as minhas leituras não são nenhum pouco, já foram por autor, mas hoje são “temáticas”, corro atrás de temas, quem lê o blog sabe do que estou falando.

dsc00289

dsc00296

Foi bom relembrar que a primeira paixão literária da minha vida foi Clarice (a  foto parece armada, mas não é). Eu fiquei namorando esta capa em vermelho por semanas, me lembro de olhar de dentro de um ônibus, na Teodoro Sampaio, para a “vitrine” de um sebo, que se não me falho a memória chamava-se  “Sagarana” e era do Afonso Evandro Ferreira. Na época eu não sabia que ele era ele, o escritor, só soube  muito depois lendo a Folha de São Paulo. Nunca esqueci seu rosto, não só pela emoção da aquisição, mas também porque no momento da compra ele me convidou para participar de um grupo de leitura que se encontrava no antigo Frans Café de pinheiros. Convite que no período me pareceu insólito, eu nem sabia do que se tratava a história,  mas hoje percebo que ele sacou  o óbvio: aquela pirralha só podia amar literatura. Eu devia ter ido, mas nem cogitei a possibilidade, não tinha maturidade. Só fui aceitar tal convite anos depois, mas não dele.  Acho que este foi o primeiro livro que comprei pela capa, fetiche mesmo, eu ainda estava no colegial, mas já amava Clarice e já detestava as capas da Francisco Alves. A Rocco vai ter muito trabalho para apagar da memória nacional a feiúra de tais capas, se bem que as capas da Rocco para Clarice ainda sejam feias, não tanto quanto antes, mas ainda ruins. Não me arrependo desta compra. 

dsc00301

dsc003001

Acabei organizando a coisa toda por literatura; psicanálise e crítica literária e cultura geral, leia-se artes plásticas, arquitetura, cinema e blá-blá-blá. Fiquei impressionada em como tenho coisas de crítica, bem a cara de licenciada em Letras, até me ressenti de não ter mais literatura, um dos sintomas mais comuns do meu curso superior é ler mais “quem escreve sobre” do que a literatura mesmo. Se bem que um Barthes eu leio como ficção, maior prazer, um Blanchot também, até mesmo Freud, ainda que tenha feito especialização em psicanálise. Mas me contive e consegui separá-los de literatura, organiza a estante e o resto. Na arrumação  encontrei pérolas, óbvio: duas, e não menos que duas, biografias da Madonna! (Juliana são suas, já!) Além de outros livros menos vexativos, mas bem “sinais dos tempos” como Personas Sexuais, da Camille Paglia; Tudo que é sólido desmancha no ar e por aí vai, fenômenos que foram à sua época, com seu devido peso e medida, similares ao que acontece hoje com os tais Líquidos todos,  tenho um deles: O tempo líquido, off course. Ou será que este é do meu ex-marido? Sim, porque também tenho esta questão, a comunhão de corpos leva a outras. E eu sou péssima para lembrar o que veio e o que ficou com quem. Senti falta de uns livros, mas tudo bem. São livros.

dsc00299

Com o rearranjo não encontrei mais espaço para os meus dicionários de regência, para as gramáticas, para o que mais manuseio quando trampo. Será que eu organizei uma estante diletante? De férias? Honestamente não tenho a resposta, mas comprarei para ontem um espaço digno para o meu material de trabalho. Um livro (aliás dois, porque tenho duas versões) para o  qual eu não achei um lugar apropriado foi a Bíblia, mas está na estante. Não fui tão rígida. Por mais cética que eu seja não consegui, não mesmo, colocá-la no rol da ficção, Freud explica.

dsc00311

dsc00313

Dei conta do recado, está de bom tamanho. Enfim, assim, então, pois é: não cabe mais nada!, aí está o único e incontornável problema.  No final da organização apareceu a Hilza, a diarista, que é quase uma AT (acompanhante terapêutica) para mim. Disse para ela que há uma lógica nas estantes. Que cada livro tem um lugar, que não podemos bagunçar o coreto. Mas a única lógica dela é a da arrumação, o que significa botar tudo num lugar que eu nunca sei qual é! E não dá pra negar: arruma. Por isso ela nem deu bola para meu exercício hercúleo, para minha ordem e ameaçou: “se você deixar livro por todo canto, eu boto em qualquer lugar!”  A verdade é que arrumar a estante não foi nada,  o desafio é deixar arrumada. É não desorganizar. Sinuca de bico, francamente.

Anúncios
7 Comentários Comente
  1. cheguei a arrumar a biblioteca de casa pelo modelo de umberto eco em “o nome da rosa”, separando os volumes por continentes e autores, e catalogando-os num fichário no qual segui mutatis mutandis a metodologia científica .. então minha empregada resolveu tirar o pó das estantes e rearranjou os livros de acordo com o tamanho deles .. e assim estão até hoje.

    20 de janeiro de 2009
  2. gente!… estou morrendo rir.

    20 de janeiro de 2009
  3. Sobrenome de Autor. Sem categorias. Fácil, simples e principalmente, as outras pessoas entendem.

    20 de janeiro de 2009
  4. Só posso te parabenizar. Pra mim não é simples. 🙂

    20 de janeiro de 2009
  5. É um método interessante, até por que o livro de um amigo seu pode ficar ao lado de Guimarães Rosa ou Darcy Rybeiro.

    20 de janeiro de 2009
  6. E quem disse os livros dos meus amigos não estejam ao lado? E mais: quem disse que Dadá e Rosa não eram (e sejam) meus amigos? :))

    20 de janeiro de 2009
  7. Minha intenção era o prazer de ver as coincidências que isso pode causar. Por exemplo, dois amigos meus que não se dão estão separado pelos “Sertões” de Euclides da Cunha.

    21 de janeiro de 2009

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s