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Juventude – J.M. Coetzee (leituras)

 

Viramos o ano e as leituras continuam. Em verdade tenho descoberto uma certa lógica para elas. Já tenho dito que gosto de ler sobre “famílias”, o que leva a muito mal entendido, sobretudo numa livraria, pois quando peço algo em torno de tema tão abrangente das duas uma: ou me indicam um best-seller ou um romance histórico, quando eu quero é boa ficção na veia. Não que os romances históricos não sejam, talvez eu que não tenha paciência para eles.

Quase todos os livros que comentei aqui traziam a questão da “família” bem explicitamente: Cemitério de pianos, de José Luís Peixoto; Delírio, de Laura Restrepo; O despenhadeiro, de Fernando Vallejo; O encontro, de Anne Enright; Antonio, de Beatriz Bratcher; O filho eterno, de Tezza, não à toa, eu os pincei, às vezes no escuro, mas um a um.

Agora me pergunto se a “família” era só um pretexto para eu ir mais fundo nas minhas elucubrações, porque não tenho dúvida, a literatura é a melhor forma de darmos conta de algo que sem ela nem chegaríamos perto, ela é o tal escudo de Perseu que permite ver a Medusa sem petrificar. Ao fim e ao cabo percebi que estava atrás da questão mais ampla talvez que é da formação de uma determinada identidade, e que passa necessariamente pelo enfretamento da família, ou reconhecimento desta.

Um último livro que li me esclareceu isso, o imperdível, lançado em 2005 no Brasil: Juventude, de J.M. Coetzee. Cheguei a ele, confesso, porque ouvi numa mesa tanto Beatriz Bratcher quanto Tezza dizerem que este livro tinha tido grande influência sobre os deles. Claro que puderam fazer tal assertiva porque conseguiram fazer uma obra própria que não deve explicitamente nada a Coetzze. Entretanto, ler o sul-africano me lança uma pequena luz sobre os romances dos dois, ambos não deixam de ser romances de formação, no de Bratcher corremos atrás da figura (identidade?) de Teodoro; e no de Tezza, seguimos a trajetória do pai, como pai e escritor.

Nos casos brasileiros, como Antonio é escrito em várias vozes, e O filho eterno, trás a personagem do filho podemos perder o foco que agora eu desejo estreitar: o da formação de uma identidade e seus percalços. Coetzze é explícito (palavra perigosa) nesse sentido, trata de narrar a história de um jovem sul-africano que parte para Londres cheio de ilusões sobre o que possa ser um artista, um escritor, e acaba massacrado pelo sistema. Mostra-nos o rapaz (um escritor possível) forjando sua identidade, seus gostos, suas preferências, suas leituras, suas idiossincrasias, com não pouca frustração, já que carrega uma série de idealizações sobre ser um artista que são quebradas; interessante ressaltar que se trata de um romance quase autobiográfico como o de Tezza, o que encerra uma série de limites que muito me interessam.

Ainda bem que cheguei a esse livro, do contrário não teria conhecido uma escrita tão enxuta e que vai fundo, sem concessões, como eu gosto. E nem descoberto que eu esteja atrás de um “gênero” amplo como o diabo que são os chamados “romances de formação”, talvez eu tenha algo a dizer numa livraria. Juventude já é um dos meus livros de cabeceira, eu tenho uma enorme, é certo. Mas ele me abriu uma perspectiva nova sobre o que eu estava lendo e sobre minhas futuras escolhas; quando um livro implica em uma quebra de rota há que se levá-lo em conta, não?

Esse texto não está como eu quero, mas eu não poderia de deixar de falar dessa leitura, ou antes: eu não poderia deixar de narrar como andam minhas leituras, minha formação, digamos.

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2 Comentários Comente
  1. Os realistas de ontem invadiram esse tema, família: Eça praticamente se apropriou dele .. mas teu texto sugere algo diferente, o tema ‘família’ focado na psicologia dos personagens .. é isso? Se for, poderia te recomendar qualquer um do Milton Hatoum (exceto o último pois não o li) e da Doris Lessing, em especial “As Avós”. Anotei a tua sugestão e irei considerá-la da próxima vez que for à livraria.

    10 de janeiro de 2009
  2. Pedro, trata-se da psicologia do personagem, também. Algo por aí, mas sobretudo COMO escrever isso. O Juventude é mais “linear”, em “mono”, digamos assim, simplificando muito. Mas O Delírio e Cemitério de Pianos são em “stéreo” e “polifônicos” e isso me interessa demais, mesmo que as realizações não se igualem ao feito de Juventude. Eu também anotarei suas dicas, vou visitar seu espaço. Espero que troquemos mais dicas.
    Bjs, Lu

    11 de janeiro de 2009

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