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Sobre o professor

Antes que minha mão caia vou escrever sobre o finzinho do ano. Confesso que este período entre Natal e Ano Novo me deixou fora de prumo, evidente que ainda estou um pouco assim e assado, mesmo que racionalmente eu afirme: “não estou nem aí”, a coisa pega, pegou.

A tal ponto que fiquei sem ter muito ânimo para escrever, perplexa ante as possibilidades sem pé nem cabeça de Natal e festas de fim de ano que surgiram, nada fazia sentido. Além de ficar soçobrada sob boas e más lembranças de Natais e finais de ano anteriores que não explicaram muito o porquê de eu me sentir tão mal nessa época. Não vou abrir aqui o meu baú, não é este o fim. Mas que ele está com algumas pistas, e da “descoberta”, aí entrego parte do jogo, de que minha avó e minha mãe nunca curtiram estas festas, muito pelo contrário. Peguei o vírus, em parte.

Pois, em meio à crise, sem me deixar derrubar de todo, no dia 23 resolvi fazer algo que me parecia genuinamente natalino: visitar alguém de quem gosto muito e levar um presente. Fui à casa de um amigo do meu falecido avô, e hoje meu amigo e meu querido, valeu o final do ano. Posso passar tempos sem vê-lo, mas sempre parece que estivemos juntos ontem. Preciso ser discreta ao seu respeito, ele não gosta que o fotografemos, que o entrevistemos, nada, nada que o devasse ou sugira que isso possa acontecer. Sempre respeitei o pacto.

De fato eu fico louca para contar cada detalhe da visita, entretanto, além do interdito, é muito difícil (acho que até mesmo impossível) recompor linearmente nosso encontro, porque os papos se dão numa freqüência de onda outra, quase telepática, porque o professor (é assim que o chamo) sempre acaba se adiantando a respeito do que eu quero falar e sempre diz algo que cala fundo. Não sei o que se estabelece entre nós, mas não se trata de um diálogo que se dê na esfera do que é dito, vivencio com ele uma ligação diferente de todas que já experimentei. E posso dizer que esse senhor de 85 anos foi das melhores conquistas que o meu avô me deixou. Digo conquista, porque mesmo sem esforço, uma amizade não deixa de ser algo assim.

Talvez um dia eu entenda melhor o que se passa, talvez não precise entender. Nessa última visita consegui falar-lhe o quanto reconhecia que ele era uma antena muito fina, de uma sensibilidade que não se vê por aí, que ele me percebia demais (não à toa ele foi e e é um grande professor e crítico de arte, ele é mais: ele é poesia pura); ele me retrucou dizendo que se eu via isso nele era porque eu que era assim. Não é o caso, nem de longe, ele saiu pela tangente: um dia recupero o curso dessa conversa.

Há mais de dez anos o visito e só agora consigo dar conta do impacto que os encontros com ele produzem. Ele tem uma lucidez tão aguda que beira a loucura, isso é desconcertante, ainda que eu sempre tenha transitado muito bem entre suas elucubrações, desvios e luzes (e me encharcado dele até a última gota, porque com ele é assim, não há meio termo).

Em meio a idas a sua biblioteca, consultas ao dicionário em busca da etimologia de inúmeras palavras, numa dinâmica que sempre se reitera, de associações sobre associações, ele me contou duas histórias que me marcaram profundamente e eu não gostaria de esquecer. Não contarei em que contexto ele sacou as narrativas, mas me acertaram em cheio. Nem sempre elas se dão assim com cara de parábola, fáceis de recuperar, mas como é o caso, vou passá-las adiante.

Uma era sobre um grupo de estudiosos de nível elevadíssimo, ocidentais, do qual fazia parte um desenhista; todos tinham um alto conceito sobre si mesmos e se reuniam para tratar de arte. Certa vez, procuraram um grande sábio oriental, buscavam ainda um maior entendimento sobre arte. O sábio ao se deparar com eles desenhou dois pontos num papel e propôs ao desenhista que ele ligasse os dois pontos, o desenhista de pronto traçou uma linha, os intelectuais ficaram muito satisfeitos, entretanto para pasmo geral o sábio não aprovou o que viu e sentenciou: “ele não viveu esta linha”.

Outra era sobre uma invasão francesa do Marrocos, sobre um forte que o exército construíra e que muito incomodou aos tuaregues da região. Até um dia que o líder dos Tuaregues foi falar com o dos franceses; o francês não teve dúvida olhou o relógio como quem afirma ao outro que não lhe dará muita atenção. Ao ver o gesto, o Tuaregue sentenciou: “vocês têm os relógios, nós temos o tempo”.


 

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5 Comentários Comente
  1. Renato #

    Oi Luciana,

    Que bom começar o ano com um post como o seu. Vivi experiência semelhante. As pessoas haviam planejado um Natal para mim: na verdade, planejaram meu itinerário de motorista, daqui para lá, e para acolá, fazendo visitas a quem mal conheço, e compras e mais compras. Dei um basta e:

    “Pois, em meio à crise, sem me deixar derrubar de todo, no dia 23 resolvi fazer algo que me parecia genuinamente natalino: visitar alguém de quem gosto muito e levar um presente”

    Visitei uma tia, que cuidara de mim quando era criança, 80 anos, solteira, sábia e prendada, cozinheira de mão cheia, mas que ia passar o Natal sozinha: que injustiça.

    Seu professor deve ser um sujeito daqueles. Eu conheci (conheço) um ou dois desse estirpe. Costumava visitá-los também e voltava meio atordoado.

    Ocorre que na última semana parece que “encontrei” um desses. É um filosófo chamado Roberto Gomes. Já ouviu falar? Ele têm crônicas disponíveis na rede. Olha… fazia tempo que eu não lia coisas tão legais. São simples, despretenciosas e, na maioria das vezes, engraçadissímas. Se tiver um tempo, de uma olhada.

    http://criaredicoes.com.br/robertogomes/textos_cronicas/gramatiquice.htm
    http://criaredicoes.com.br/robertogomes/textos_cronicas/toda_entrevista_e_um_parto_doloroso.htm

    Luciana, deixa eu lhe fazer uma das minhas perguntas. É o seguinte: por algum acaso, durante sua formação ou nos eventos que participa, você já teve oportunidade de conhecer pessoalmente o Zé Miguel Wisnik? Pergunto por que eu li seu último livro (“Veneno remédio”) e fiquei pasmo. Ademais, mudei para São Vicente, terra natal dele, e fico me indagando seu um dia vou conseguir o autógrafo dele: segurando o livro “como se estivesse na fila da hóstia” (era essa sua metáfora?). Se o conheço, pode me dizer se ele é acessível, boa praça como parece? Ou é meio cheio de si, presunçosão?

    Grande abraço,
    E que em 2009 você tenha ainda mais contatos com seu Professor e com outras pessoas legais.
    Renato.

    1 de janeiro de 2009
  2. dani samad #

    ah , agora ta expplicado porque tu não foi no meui niver….foste visitar este tal professor…..ja sei até quem é……..vou pensar se te perdôo. beijones

    2 de janeiro de 2009
  3. Dani, uma coisa não tem nada a ver com outra. Cierto?
    Beso, L.

    4 de janeiro de 2009
  4. Oi Luciana, adorei o professor!! beijos

    5 de janeiro de 2009
  5. Oi, Renata, obrigada. Adorei o visual do seu site!
    Bjs, Lu

    6 de janeiro de 2009

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