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Antonio – Beatriz Bracher

 

Não dá para acabar o ano sem falar de um livro bárbaro, que veio para ficar, Antonio, de Beatriz Bracher. Segundo lugar em tantos prêmios, quando poderia estar em primeiro. Poderia. Sorte nossa que tivemos, por baixo,  dois grandes livros este ano.

Antonio é uma baita obra, mas daquelas que chegam discretas, com uma capa austera da 34, linda, que não entrega nada, sem concessões; uma contracapa idem, com nada além do que um excerto do próprio livro, sem louros nem salves de algum resenhista ou crítico, com suas possíveis frases de efeito — o que encontramos de “extra” é uma bela orelha, com aquela prosa precisa e também sóbria de Rodrigo Lacerda, que ao reconhecer a estrutura, o enredo, o peso do livro, o faz sem alarde. E podemos ler Antonio em paz.

Mais ou menos em paz, porque o livro não vem para isso, mas para incomodar, pois pede, de chofre, um leitor alerta a cada peça do quebra-cabeça que autora propõe. Não é um livro que dê para ler sem se comprometer, no “laissez faire”, porque o tema arde e a estrutura em mais de uma voz, que quando entrega o jogo também silencia, não dá descanso. O enredo trata de um rapaz de uns 30 anos, Benjamin, que ao ter revelado, por acaso, um pesado segredo familiar e na iminência de ter um filho vai atrás de sua própria história, reconstrói, por meio de relatos de familiares e conhecidos, os percalços de seu avô Xavier e, sobretudo, de seu pai, Teodoro. Descobre que ambos se relacionaram e tiveram um único filho, em diferentes épocas da vida, com uma mesma mulher. E que um desses dois filhos, chamados Benjamin, é ele, uma espécie de filho redivivo de seu avô, já que o primeiro Benjamim morreu. Nessa teia em que ele, Benjamim, é neto e filho de Xavier, e irmão e filho de Teodoro é que nos metemos. Como o rapaz nos deparamos com uma linhagem de loucura que o explica e pode “salvá-lo”, na medida em que a construção de um história pessoal só se dá no conhecimento e desconstrução de uma certa “verdade” familiar, que se descuidarmos se repete ad infinitum. Independente do tempo linear em que acreditamos erigir nossas vidas.

Como leitores ficamos como a personagem, a cada relato juntamos peças e nos assombramos com elas, porque as personagens que narram já estão num ponto da vida e de um certo distanciamento de Teodoro e Xavier, que lhes permite falar sem pejo de ambos (ainda que calem, o que nunca saberemos), entregar cada detalhe que lembram, ou que agüentam lembrar, porque a barra é pesada e compromete a todos. Destaco entre os narradores a personagem Isabel, a avó de Benjamim, segunda mulher de Xavier, que viveu os enfrentamentos de ser uma menina de família dos anos 40, sempre muito à frente e esclarecida, os conflitos e efeitos de ser uma mãe liberal na década de 60 e uma não pequena frustração de ser mãe e avó nos anos 80. Uma personagem dura, embrutecida por tudo que acreditou e não abriu mão, nem mesmo prestes a morrer, uma mulher que foi engolida de modo desavisado pelo enlouquecimento do clã e dela. Mas ainda assim, aos trancos e barrancos, uma mãe e matriarca. Uma personagem para se deter, que salta ao livro. Curioso, à procura do rosto de Teodoro (e Xavier) damos de cara com uma personagem imensa, lembrou-me gente que eu conheci, de carne, osso, vigor, ressentimento, amargura e morte também.

É um livro para se amar e se ter raiva, porque lança-nos a uma história que ao ser de Benjamim também é nossa, e nisso a coisa inflama. Além de um pensamento sobre a genealogia de uma família, há uma visada larga de Bracher sobre a história do Brasil, dos comportamentos e laços que ruíram e foram construídos pelo clã que ela descreve e que espelha tantos que ainda estão por aí e estarão. Antonio é uma tarefa hercúlea que só a boa literatura dá conta.

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4 Comentários Comente
  1. Justamente hoje estava a decidir se adquiria ou não tal livro. Passei por aqui e acabei optando descansado pelo “sim” (rs). A literatura brasileira contemporânea tem nos reservado boas surpresas nos últimos tempos. vale a pena apostar. Abraços!

    12 de dezembro de 2008
  2. Fantástico, Lu! Eu acabei de ler o Antonio também e concordo com você de cabo a rabo. Eita livro bom!

    12 de dezembro de 2008
  3. Que bom que você se animou com Antonio. A idéia é esta mesmo. :))

    12 de dezembro de 2008
  4. Menina, é não é? Bom demais.
    Bjs.

    12 de dezembro de 2008

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