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Gustavo Machado – APCA e Gramado

© Iatã Canabrava

 

Não posso deixar de falar de cinema nacional por aqui. É assim que é. Seguinte: Gustavo Machado fez um grande trabalho no filme Olho de Boi, do diretor Hermano Penna. Além de ter ganhado, em 2007, o kikito de melhor ator, em Gramado; levou, em 2008, o prêmio APCA.

Loas e salves para  ele!

 

Reproduzo uma entrevista que o moço deu para o blog do filme:

 

Carioca, formado em teatro em São Paulo, Gustavo Machado não possuía nenhuma familiaridade com o universo rural de Olho de Boi. Mesmo assim, e apesar de ele próprio ter “alertado” o diretor Hermano Penna para sua pouca vivência do universo real de um vaqueiro brasileiro, Gustavo foi o ator escolhido para interpretar Cirineu, protegido e afillhado do forte e rude Modesto. 

Ator, diretor e autor, Gustavo tem no currículo montagens de destaque como Essa Nossa Juventude, de Laís Bodanzky (2005), com a qual foi indicado a Melhor Ator no Prêmio Shell de 2006; O Avarento (2006) e Cleide, Eló e as Pêras (2006). No cinema, participou de produções premiadas como Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky (2001); Contra Todos, de Roberto Moreira (2002); O Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald (2007); e Brother, de Jefferson De (rodado em 2007 e ainda inédito).

 

Cirineu, como bem definiu o roteirista Marcos Cesana, tem uma dimensão épica que vai além do mero personagem do matuto brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, é um personagem tipicamente brasileiro. Como foi construir esta personsalidade?

Foi um trabalho árduo, mas muito gratificante. Este é um universo com o qual não tenho muita familiaridade. Sou carioca, cresci no Rio. Até morei em outras cidades, como Manaus e Macaé, mas, apesar de não serem grandes cidades, também não eram o interior. Para criar o Cirineu, mergulhei fundo neste universo do Brasil Profundo. Tinha medo no início. Medo de pesar no sotaque, na caracterização do Cirineu. O teatro é um jogo que nos permite uma licença poética. Mas no cinema tudo fica mais evidente. E este filme, apesar de não realista, de ser uma tragédia, deixava o trabalho dos atores muito evidente.

Mas você acabou aceitando o desafio de viver um personagem típico do interior do Brasil.

Aceitei, claro. Até comentei com o Hermano que conhecia outros atores, e amigos, que dominavam este universo e que criariam tipos muito mais facilmente que eu. Mas ele queria exatamente o oposto. Queria uma interpretação sem vícios e mais essencial. Foi o que tentei dar a Cirineu. Ele se torna verossímil graças a esta essência.

Como se deu este mergulho? Foi preciso muita preparação?

Foi difícil, mas muito interessante. Além das semanas de verdadeira imersão no mundo do tropeiro, do matuto brasileiro, que fizemos quando passamos um tempo em uma fazenda, as conversas com Genézio de Barros me ajudaram muito. Ao contrário de mim, o Genézio cresceu neste ambiente e o domina como poucos. Ele não só sabe falar como um típico caipira como também sabe fazer cigarro de palha, andar a cavalo, falar exatamente como um deles. A parceria com o Genézio foi crucial para que Cirineu fosse um personagem autêntico.

Por falar em “falar”, o trabalho em reproduzir com autenticidade a prosódia do interior brasileiro foi uma preocupação de vocês?

Com certeza. Não só reproduzir as palavras usadas, mas também adequar o ritmo, a prosa, o tempo de cada palavra. Os personagens vivem um tempo deles. E isso tinha de ser respeitado. Mais uma vez, Genézio foi imprescindível. Eu literalmente colei nele nesta hora. Criamos personagens que se sabem interioranos, mas que não são tão facilmente reconhecíveis. Não são nordestinos. São do sertão que está em toda parte. Estão muitas vezes mais para personagens gregos que para personagens de Guimarães Rosa. Mas são também muito brasileiros. Na terra deles, a comunicação é rala. Muitas vezes, os sons que emitem se assemelham aos sons dos animais. Um mugido, um barulho da natureza. São como bichos às vezes.

E o resultado foi um filme autêntico e fora do comum, não?

É um ponto fora da reta. Em tempos de filmes tão violentos como estes em que vivemos, Olho de Boi surge como um risco que valeu a pena correr. É totalmente fora dos padrões. Há quem até se incomode com ele, com seus diálogos e seu drama, mas é um filme diferente. Não é uma peça filmada. É cinema, sim. Em tempos da banalização da violência, há um filme como este, em que dois homens discutem e se embatem porque um terceiro vai morrer. Olho de Boi não banaliza a morte. Ao contrário. Há um embate filosófico no assassinato que vai ser cometido. Há também o embate entre pai e filho, entre traidor e traído. Sim, este é um embate muito forte porque Cirineu foi criado como protegido, afilhado, quase um filho de Genézio, mas nunca teve o respeito e admiração deste que tem a figura paterna. Cirineu quer tanto a aprovação de seu padrinho que acaba se transformando no outro. Não há comunicação entre os dois. Cirineu envereda pela esquizofrenia enquanto Genézio se perde em seu inferno de dúvidas e severidade. Ele acaba surtando na última noite em que tem a companhia deste pai. E tudo que ele quer é atenção. Inventou toda aquela história para poder passar esta noite com ele. Tudo que quer é conversar com o pai. É existir.

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