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Disciplina outsider?

Do blog de Cláudia Catello Branco:

“Somos todos outsiders?

O escritor irlandês Colm Tóibín é um outsider. Franz Kafka, Keats, Albert Camus, Dostoievski, Sartre e Lúcio Cardoso também. Outsider é o cavalo com menos chances de ganhar. Outsider é o navio mercante que não obedece aos acordos estabelecidos pelas Conferências de Frete, segundo definição do Aurélio.

De acordo com o Cambridge International Dictionary of English, o outsider é aquele que não participa de nenhum grupo social ou organização, sendo também considerado como outsider, todo aquele que não reside em um determinado local. Estranhos e estrangeiros. O sujeito que não é apreciado ou aceito como membro de um grupo particular, de uma organização ou sociedade e que se sente diferente daqueles que são membros.

A história da literatura é repleta de outsiders que saíram de suas terras ou de si mesmos e buscaram desesperadamente, algumas vezes, reencontrar-se.Colin Wilson ilustra a condição do outsider com a frase de John Keats, que dizia sentir-se “como se já tivesse morrido e vivesse agora uma existência póstuma”. A inquietação de um outsider também está bem expressa nos versos de William Buttler Yeats, que afirma: “aquilo que buscam milhões de lábios no mundo, / deve estar substancialmente em algum lugar …”

Em A luz do subsolo, de Lúcio Cardoso, encontramos o outsider entregue a descrença, para aquém das convenções e dos laços afetivos:

“Eu sou um animal das trevas, um ser desconhecido e solitário, marcado por algum tremendo enigma a que eu mesmo desconheço, mas que segue os meus atos, como a sombra das minhas mãos seguem as minhas mãos”

Seríamos todos nós outsiders?”

Fiquei pensando nesta questão da Cláudia Castelo Branco, de se somos todos outsiders. De cara pensei de que se todos fôssemos, não haveria outsiders. E eles estão aí em todas as áreas de conhecimento, arte, filosofia, ciências. Depois, refleti sobre as minhas recentes experiências como professora e compreendi, que todos ou quase todos somos, em algum momento outsiders, que sempre há algo pronto a sair do esquadro.

Os exemplos que Castelo Branco deu são de escritores, artistas, não por acaso, creio que isso só reitera o clichê do artista como um ser que necessariamente vê mais fundo e está inelutavelmente à margem. Nem sempre é assim, porque a única coisa certa é que não há regras. E não há ninguém 100% outsider ou 100% insider.

Outro dia estava com dois alunos de redação, estávamos discutindo um tema que aparentemente pouco os afetaria pessoalmente, tratava-se de uma discussão sobre a supremacia do pensamento científico, sobre a possível desimportância da arte e do mito. Para mim estava claro que a necessidade da arte e do mito é inerente ao homem e que a ciência não dá conta de tudo. São apenas formas de apreensão diferente do mundo. Qual não foi minha surpresa quando se acendeu uma grande discussão entre os dois? Um agarrava-se ao pensamento científico, de fato acreditava na vida como algo absolutamente previsível e defendia a arte como mero entretenimento, o outro, que nunca divergia do amigo, aos 18 os meninos crêem que em nada diferem, começou a defender a arte apaixonadamente como nunca supus ser possível.

Eu os ouvi, até um pouco ansiosa, porque algo ali estava acontecendo, uma ruptura mais profunda, uma diferença entre ambos que nunca foi expressa apareceu, o que não é pouco para adolescentes, e o que em se tratando de escrita e de vida é muito bom. Mas o que mais me marcou foi a expressão de pavor, de tensão e desconforto, de um dos rapazes, o agarrado à ciência, que chegou a me dizer que se pensasse mais acabaria cortando a orelha como Van Gogh. Vi uma vez mais a reiteração da visão da arte como algo enlouquecedor, para outsiders, uma balela que não ajuda a ninguém, muito menos aos jovens que devem ser sensibilizados em relação à arte e a outros tantos apelos, pouco explicáveis pragmaticamente, da vida.

Evidente que a questão ali não era a ciência ou a arte, os dois estavam apresentando suas diferenças, suas dificuldades, e deparando-se com clichês que não explicavam as suas experiências; a vida não era tão reta quanto um queria, nem o amigo era tão parecido com ele como ele esperava, e mais: nem ele era tão parecido com ele mesmo. A equação que ele sempre usava não funcionou naquelas duas horas em que estivemos os três juntos.

Nesse período, de uma aula, alunos tão amigos e conhecidos um do outro, tornaram-se outsiders. Vivemos uma experiência de enxergar o outsider que cada um carrega, que pode sair da casca ou não. Naquela aula saiu, eu não sei como, mas eu sei fazer isso. Talvez aí esconda-se minhas qualidades outsiders.

O que eu quero dizer com esse relato é que acho que todos podemos ser outsiders, dependendo da posição que assumimos em relação a um outro (e a nós mesmos), independente de carregar ou não o rótulo de outsider. E que, honestamente, desconfio das melhores intenções de políticas de inclusão, porque vira e mexe somos todos outsiders, com singularidades para além de “diagnósticos” e isso não é previsível nem passível de recorte claro. Recentemente ouvi que em Londres há um programa aplicado nas escolas chamado “No outsiders” para que todos se sintam incluídos, eu não desejo isso para ninguém. Justamente porque tenho descoberto que trabalho com meus alunos, numa disciplina considerada quadrada, que eles suportem e vivam a condição outsider, de deixar vir o que não está ali. Sejam eles futuros engenheiros, médicos, sejam artistas, sejam o que for.

 

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