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Kika Nicolela

Naked (2008)

Passanger (2007)

 

Ontem desabei da minha casinha para o B_arco para assistir uma palestra sobre arte e psicanálise. Queridos leitores não torçam o nariz, foi ótimo, em muitos aspectos. O mais importante é que o trabalho da artista convidada é uma barbaridade de bom. Confesso que estava com preguiça de ir, mas como não ir se um dos comentaristas era o psicanalista carioca Joel Birman? Ok. Também não me convenci de todo, mas eis que resolvi dar uma busca no trabalho da moça, Kika Nicolela, e fui completamente arrebatada. Em vinte minutos estava no B_arco, sem exagero.

Queria muito ouvi-la falar, junto à crítica de arte Juliana Monachesi e ao psicanalista. Conversa que não se deu, ou se deu pelo meio, porque ela estava em Toronto e conectada à mesa via skipe. Foi uma experiência, digamos assim, já que o programa caía reiteradamente.

Pude ver seu trabalho no telão, uma benção, numa qualidade bem superior a que a rede proporciona, sem aquelas quebras todas que mesmo as bandas mais largas promovem. Vi também, nos lapsos do skipe, algumas expressões e comentários da artista, que honestamente já me valeram, pois ela se mostrou muito tranqüila e acessível, além de muito consciente do seu trabalho como conceito, ainda que não precisasse explicar nada, porque o trabalho fala por si.

Sustenta-se sem tradução, vai direto ao espectador (o que não desmerece as leituras mais… autorizadas). Até onde pude ver, ela domina as filigranas do luz, cor e música, roteiro, todos aliados às suas pesquisas estéticas, tidas como campo das artes plásticas, mas que potencializam um discurso que é muito estruturado, pensado numa “lógica”mais próxima do cinema. Um trabalho muito conceitual, mas sem necessidade de legenda ou guia. Inquietante, questionador, mas que nos seduz e sem enxaqueca. Se quisesse, assim me parece, ela seria uma puta documentarista (possibilidade que não é muito comum a outros vídeomakers), mas suas inquietações estéticas a levam a outro caminho. Sorte nossa. Não sei em que território essa artista pisa, mas se dizem que é vídeoarte, eu acredito.

Chuto alguns lances, pelo que vi e escutei. Foi muito bom ouvir a escuta (analítica) de Joel Birman, apesar do meu flerte com a psicanálise, morro de paúra de que o psicanalista procure enquadrar a obra numa leitura pré-fabricada, como tantos analistas fazem com seus pacientes, deformando-os. Não foi o caso, muito pelo contrário, Joel desenvolveu sua linha de apreciação da obra levando em conta cada elemento dela. Ainda que tenha levantado a lebre e sustentado seu discurso sobre questões mais gerais que atravessam toda arte contemporânea, o mundo contemporâneo ou pós-moderno, como a questão da identidade.

Nessa noite caiu a ficha, por completo ou quase, de que a psicanálise tem muito a oferecer como aparato teórico à crítica de arte, sem engessá-la, mas dando um norte. Foi muito legal a fala de Juliana Monachesi, muito generosa, pois contextualizou tudo o máximo possível, porque conhece muito de perto a obra da Kika e a própria. Entretanto, inquietou-me um pouco o compromisso com a descrição que a crítica tem (ou teve?), com uma espécie de tradução da obra para o espectador. Não necessária porque vimos as obras, penso. Muito conhecimento, mas meio sem direção, provavelmente porque deve ter sido difícil ela circunscrever uma questão para leitura da obra quando falava a um público, a priori, de psicanalistas, e a reboque da imagem grandiloqüente do Joel Birman. Bom, não posso incorrer no risco de ser leviana, acho que a Juliana cortou um dobrado e só posso falar algo depois de ler o que ela escreveu sobre o trabalho da Kika, coisa que não fiz.

P.S.: Para pesquisá-la geral clique aqui.

P.S.2: Esta palestra foi uma parceria do Epeb (Espaço brasileiro de estudos psicanalíticos) e do B_arco.

P.S.3: Olha moça via skipe, sinal dos tempos.

kika

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3 Comentários Comente
  1. Otávio #

    Primeiro a delirante caminhada pelas ruas de São Petesburgo, estranho, descobrindo e tendo certeza de uma coisa que não sei o que é, em cada brilho em cada sombra, aquele olhar persecutório, está ou não está? Será Ragójin? Será que o que eu sinto agora é mesmo o que estou pensando?…

    …depois acordar como uma bomba, se virar, buscar um sorriso, se deparar, ah!, com… um olhar!
    Se não estou a delirar, a realidade é mesmo assim: só olhar.

    Querida Luciana, de um passeio a outro, dei alguns deliciosos passos nesse seu espaço, sem deixar de tropeçar também no olhar da Nina Kicolela (troquei o nome em homenagem àquela sua parenta). Em “Naked” há um espelho incrível (daqueles de parque de diversão) do seu olhar da foto do blog, lá pros 0:52s. Poxa, desculpa escrever tanto olhar, mas é que é mesmo muito olhar! Então: Olhar! Olhar! Olhar! Olhar! Olhar! Olhar! Olhar!Olhar! (que palavra gostosa de se pronunciar!). Isto aqui é uma janela.

    Mas, Lulú, antes de voltar pra dentro, não posso deixar de fazer este convite, para você ir jantar O Idiota conosco lá na Companhia Livre. Estamos fazendo estudos cênicos, improvisos, partindo de propostas dramatúrgicas do Vadim Nikitin, e dirigidos pela Cibele Forjaz. Semana que vem faremos os 3 últimos do ano, tem sido ótimo, me faz inflamar. É aberto ao público à partir das 20:00hs, segunda, terça e quarta. Pouco e bom público. O galpão da Companhia Livre fica na Rua Pirineus, que só tem um quarteirão e fica ao lado da Angélica. Foi Estragon que falou para Vladimir (ou ao contrário?!) que queria, um dia, ir conhecer os Pirineus? Olha só! É uma oportunidade (não pra eles dois, que perdem todas!).

    Muitos beijos
    Otávio
    cheio de ar!

    10 de dezembro de 2008
  2. Tatá, admiro muitoooooooooo a sua capacidade de ir fundo e se apaixonar pelas coisas que faz! E o que é melhor: são boas de fato. Menino esperto. Vou jantar o Idota com você.
    Bjs russo-antropofágicos, Lu

    11 de dezembro de 2008

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  1. Cool… « Breathe, inhale, exhale…

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