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Vila Madalena pública e privada

Ontem eu li um texto no blog O de sempre nunca, em que o autor Renato Parada comentava que a vila madalena tinha saído na coluna viagens do New York Times como um lugar raro. Ele disse também que se sentia bem por morar no bairro, porque podia andar tranquilamente à noite, por exemplo.

Como também moro no bairro parei para pesar o que me faz gostar tanto daqui, uma amiga francesa, já senhora, sempre me diz que esse bairro, diferente de todos mais de São Paulo, tem caráter. Tem uma cara própria, com suas casas pequenas e suas praças e tal. Não querendo ser bairrista, e já sendo, concordo (só não sei até quando).

Antes da multiplicação de suas lojas modernex e cada vez mais caras, eu já gostava daqui, antes da expansão dos bares também. Freqüentei muito a vila por causa do meu pai, por ela ter sido a central do cinema paulista, papel que o bar Empanadas (Martin Fierro) catalisava, o qual hoje não deixa de ter um quê familiar para mim, coisa fundamental para meu espírito nostálgico. Com um pai boêmio não pude sair a ele, não quis, o que não me impede de ir a bares e de apreciar que eles estejam por perto. Gosto de, sobretudo, ver a vila como uma central de editoras, de galerias; e da Mercearia São Pedro reunir escritores e gentes que gostam de palavras (em variadas mídias). A ponto de ser tão relevante deixar um cartaz de um filme tanto na Mercearia quanto na Empanadas, até mais na Mercearia.

Mas eu gosto daqui não só pela ferveção cultural, muito bem representada pelo Espaço Brincante, dos Nóbrega; pela Fortes Vilaça; pela Xiclet; pela Livraria da Vila; pelo Instituto B_arco; pela Fnac; pela Biblioteca Alceu Amoroso Lima; e até pelo Instituto Tomie Ohtake, e pelos sebos da Pedroso (sei que vou esquecer de coisas).

Em verdade o que eu gosto mais na vila é a vida de bairro que ela me permite levar. Aqui eu conheço os moços do estacionamento ao lado da minha casa, as quitandeiras, o marceneiro careiro e péssimo, mas simpaticíssimo, o carteiro da minha rua, as gentes que atendem nos restaurantes e padarias. Se saio pela rua cumprimento uma série de pessoas que fazem o meu dia fazer mais sentido, comentam se eu emagreci, se engordei, sondam como vai meu pé, falam da falta de grana e movimento, reclamam que sumi, que não enchi mais meu cartucho, pedem para eu votar para fulano no BBB. Enfim, coisa de gente com gente. E nem precisam saber meu nome, mas sabem onde moro.

Especialmente gosto do meu prédio, quando eu mudei para cá, ele era cheio de velhinhos, moradores antigos, gente que trabalhou a vida inteira sem as expectativas da maioria que atualmente pode morar na vila. Eles hoje não dariam conta de comprar um imóvel aqui (como eu não dou). Velhinhas que têm seus móveis com capas para não sujar, com aqueles relógios de paredes horríveis; senhoras de um kitsch pra lá de aconchegante, que sabem convidar para um café, para comer um bolo, nada a ver com as lojas modernex e com o culto do hippie de butique ( do qual possuo alguns traços, não nego). Pessoas que moram há 30 ou 40 anos no bairro ou mais, que usam chinelo com meias e lavam calçadas e regam plantinhas, porque o prédio não tem porteiro, somos uma associação.

Senhorinhas que se cumprimentam, que me visitaram quando eu cheguei, que mesmo que eu não precise, posso contar. O fato é que elas estão morrendo e a cada novo morador que aluga aqui, percebo uma concepção de vida no bairro que não tem nada a ver com a minha e a delas, a que aprendi com elas. Gente que não sabe morar em prédio, que faz um barulho danado, que não cumprimenta, que é todo bem vestidinho, causa estranhamento com tanta novidade, mas atrasa o condomínio, molha as plantas infliltrando a sala do morador de baixo.

Outro dia fui bater no meu vizinho de cima umas 4 da manhã, um mix de emo e roqueiro indigesto para mim, ele estava loucaço e me perguntou: “você não sabe onde mora?”. Como se morar na vila fosse endosso para fazer da sua casa um bar, um frege; quebrei o pau e o deixei caladinho, por uns dias. Porque se gosto da ferveção sei que esta, em alto e bom som, tem de ser fora de casa, do contrário não há convivência possível e morar na vila virará, já está virando, um inferno. A velha história do público e privado que minha vizinhança nova não conhece, mas se depender da minha vassoura no teto, vai conhecer.

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