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Tatiana Belinky – balada literária

tatianabommix

©Dênio Maués

Tatiana Belinky, a homenageada da Balada, que no ano que vem fará 90 anos, estava a todo vapor. A tal ponto que seu desejo de narrar ia além do bom tom em escutar as intervenções e perguntas que lhe eram feitas. Há tanto tempo ela responde a tantas e, provavelmente, as mesmas questões que ela já sabe qual o recado a dar. E que me pareceu consistir na sua disposição de estar, estar mesmo ali. Não precisava mais do que isso, aliás, as memórias dela de infância são tão vivas que falam por si, a história que ela encerra e que se abre como uma porta em todo e qualquer caso que ela narre dizem tudo, sem necessidade de roteiro. Tanto que ela afirmou em desafio: “qualquer pergunta que me fizerem eu tenho uma história para contar”,  narrar é o que lhe interessava, antes do que responder a uma demanda específica.

Senti como se ela fosse um conto de fadas na nossa cara, uma Emília impertinente que acha que é dona da verdade e tagarela sem parar, com humor e ironia. Em tudo nela mora uma anedota bem contada, uma brecha para o riso. Não à toa Tatiana disse que a grande personagem da literatura nacional não é a Capitu de Machado, mas Emília de Monteiro Lobato.

Disse isso, entre outras opiniões agudas que disparou e que soaram como frases que pedem para serem “anotadas”: “Sou insegura como todas as pessoas que não são burras” ou “a preguiça é a mãe de todas invenções”, já que ela, agnóstica, afirmou que nada era pecado, e a preguiça seria uma “desvontade” sem a qual não teríamos inventado a roda nem a vassoura.

Berlink em seu discurso nos impele a  pensar, devolvendo-nos a uma curiosidade quase infantil, a um modo de entendimento próprio da criança. Direto e reto, sem mais. Perguntaram-lhe: “Tatiana, quando você começou ou como começou a escrever? E ela respondeu:“Aos quatro anos, quando aprendi a escrever.” Numa lógica própria que nos deixa  bobos.

Ela chegou a um ponto, não sei há quanto tempo, não sei se sempre foi assim (há gente que já vem meio pronta), em que só fala o que quer, sem entregar todo o jogo. Por isso é tão difícil descrever a experiência de escutá-la, porque estar em sua presença nos convoca a outra lógica, a outra apreensão das coisas. Implica em que compreendamos, quase de pronto, entre tantas outras coisas, que carregar a criança que fomos não nos infantiliza, mas ao contrário. Afinal, no caso dela (e para “entrar na dela”) isso só lhe refinou as antenas, desamarrado-a de protocolos que ela não considera realmente importantes, como numa brincadeira, como uma menina que não se deixa dobrar. Até porque decidiu se divertir até o final. E ela vai, não tenho dúvidas.

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