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Alberto Guzik, Fernando Bonassi e Ricardo Silvestrin – balada literária

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©Dênio Maués

Esta foi uma mesa que também vou levar comigo, sobretudo pelo Bonassi. Foi bom ter ouvido a todos os três, que transitam entre tantas áreas distintas, mas o que me pegou foi a visada crua, quase cínica de tão afiada que o Bonassi tem do mercado. Tanto que ele menos se apresentou como escritor e mais como roteirista e dramaturgo, duas artes coletivas em que o dinheiro e a falta dele condicionam a obra diretamente, sem subterfúgios.

Ele tem uma fala direta, cáustica, do homem de origem operária, mais sem o ranço esquerdista (leia na pior acepção vitimista que o termo pode ter), ainda que se afirme de esquerda. Assume o papel do artista que tem de levar o leite das crianças, e que não pode nem quer acreditar nas suas criações como obras desvinculadas do sistema. No limite elas “servem” a ele por mais autorais que pareçam ser. Não por acaso ele questiona a questão da autoria, pois no fim da curva aquele que lhe encomendou o trabalho vai lhe “pedir” algo em troca. É assim que vê o panorama do teatro e cinema, mas alguém deveria ter levantado o dedo e perguntado: “com literatura você não tem mais autonomia???” Fica a questão.

Ele descreve a realidade do criador hoje, palavra por palavra, com desdém por muita coisa ou ódio ou lucidez extremada, por isso foi chocante para mim que não tenho os pés no chão e de algum modo, velado(?), preciso acreditar que um mecenas virá num cavalo alado. Depois de sua fala, e da Balada inteira, não há como.

A fala do Guzik, torrencial, mas moderada por Marcelino, numa habilidade incrível, casou-se com a do Bonassi, mais pelo ponto de vista que ambos têm do teatro, como arte colaborativa, agregadora, criadora de universos inesgotáveis, em que o papel do diretor torna-se maior à medida que atrapalhe menos. Algo que soa novo pra mim, tão acostumada a assinatura de um Antunes ou de um Zé, mas em boa medida já de saco cheio da camisa de força que eles já representam.

Eu só conheço o Guzik como crítico, ponta-de-lança do teatro. Não, nunca fui a uma peça sequer dele ou com ele no elenco, desconheço o Satyros, uma vergonha, eu sei, já sabia. Mas a Balada serve para isso, para nos sensibilizar para áreas que, no meu caso já não me seduziam, por gosto, por contingência, por optar pela literatura antes de qualquer coisa. E também, não posso negar, por ter assistido a muito mais peças ruins do que boas.

O que ficará do Guzik? Minha vontade de estreitar meus contatos com a cena Roosevelt. E também, como posso esquecer? Ficará a liberdade, com o estofo devido, não a de um kamikaze, dele em se aventurar em áreas diversas, ainda que afins. Ele me lembrou algo de fênix, mas com um ego tão robusto que nem chega a virar cinza.

Dois homens fortes numa mesa, não que o Ricardo Silvestrin não seja, mas o senti deslocado, não me calou fundo, deu-se como se deu − e ele foi muito bem com sua poesia. E ponto. Não é porque ouvimos a uma mesa que um encontro se dá com todos os presentes, o buraco é mais embaixo, algo já deve estar aberto.

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