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Lídia Jorge – A Manta do Soldado

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De que é feita a literatura? De palavras, palavras, palavras, diriam muitos como já sabem quase todos que transitam por esse território. Lídia Jorge sabe manejá-las como ninguém. Li A Manta do Soldado, editado pela Record em 2003, quando já estava publicado desde 1998 em Portugal, com outro título: O Vale da Paixão, mas com certeza o segundo título é muito melhor. Li que a própria autora assim considera também. Será que o mudaram em Portugal como no Brasil?

Em A manta do Soldado o nascimento da narradora, filha de um homem cujo irmão, o tio, assume-lhe como pai é a mola propulsora da inquietação calada da narrativa. A narradora sabe que é a filha do tio e que sempre há de chamá-lo assim, mas este é um silêncio e um segredo compartilhado por todos, o qual cabe a ela, sem que ela saiba, sem que saibamos, dar conta.

Lídia Jorge nos lança no escuro. O livro só se dá a ver enquanto o lemos e temos de lê-lo até o fim para dimensionar a capacidade de escrita e de surpresa que ele trás. A narradora inominada conta a história de uma casa e seus familiares que anos a fio entram em declínio, mas descreve o enredo tão de dentro que por quase todo o livro não a separamos da casa e seus fantasmas. Ela está colada ali, alicerçada, quase a naufragar também. Mas eis que de forma que mal percebamos, ela nos encaminha por outras perspectivas e saídas daquele cotidiano asfixiante e provinciano. A maestria da autora dá conta de que essa ruptura não signifique uma partida da narradora da casa, mas em atos e pensamentos que se dão ali. Ela reconstrói sua história quase sem sair do mesmo lugar, vê de fora, ainda que dentro.

Algo que impressiona na leitura é a capacidade de Lídia Jorge de esculpir o tempo da narrativa, de nos enredar neste tempo. Ler A manta do Soldado é ser levado a caminhar na lentidão de seu texto. Melancólico, fantasmático, feito de percepções e apreensões, pequenas visões, todas construídas no corpo de um tempo que está para ruir (a casa – a narrativa- a história de seu pai), porque se arrastou demais. É um livro para ser lido, uma autora para se encontrar e revisitar o quanto antes.

 

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