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Fantasma sai de cena (?)

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Continuo em busca de minhas leituras “estranhamente familiares”. Entretanto, mesmo quando penso que saio delas como no livro que acabei de ler Fantasma sai de cena, de Fhilip Roth, dou-me conta de que não saí, sobretudo quando percebo que o livro se trata em muito dos acertos de conta que a vida nos impõe em relação à memória.

Lá estamos nós diante de uma autor, Zukerman, que com 71 anos, depois de 11 anos vivendo isolado, com incontinência urinária e impotente há 10 devido a uma operação de próstata, volta a Nova York e se vê diante daquilo mesmo que anos antes ele escolhera (escolhera?) se afastar. E, sabiamente ( sabiamente?), sai de cena outra vez.

Pathos amorosos, entre outros, assomam-lhe com a passagem pela metrópole, e vemos nosso autor sem suportar as mazelas do presente, como a velhice e com ela a memória que se esvai, somada a dificuldade de lidar com o seu passado e o dos outros. A questão da memória perpassa o livro, o velho autor fazendo notas do que se passara e fabulando diálogos do que poderia ter acontecido, do que ele sentira que estava nas entrelinhas do acontecido. Fabular para ele é uma forma de suportar o presente, mas também de se asseverar de que está presente no presente, já que sem suas notas ele não tem certeza do que teria feito ou dito no dia anterior, por exemplo.

Não à toa há uma personagem de um jovem autor que quer escrever uma biografia de uma autor admirado e modelar para Zukerman. No jovem vemos o quanto a literatura pode se transformar numa rapinagem da memória alheia no mal sentido, sim há um mal sentido, no caso: a voracidade do biógrafo em devassar o passado de um autor a qualquer custo e de forçar uma determinada versão deste passado para justificar uma obra e se auto-afirmar sobre ombros alheios, postura que Zukerman por questões vária não suporta.

O livro trás muitas questões acerca dessa matéria de que é feita a literatura, a memória, e no limite a vida também. Já não sei o que a mim interessa mais. Fico com as questões que Zukerman trás do que se o que narramos é o que narramos,  se fomos narrado por nós, se somos puro esquecimento, mera fabulação, uma tanto de tudo isso, várias versões (um tanto à lá Borges, mas não muito), fantasmas devem um dia sair de cena.

Lembro-me  inevitavelmente de meu avô, ele dizia que um arquiteto italiano, que não me lembro o nome, lá pelos noventa anos, já não aceitava fazer projetos, que dizia estar “ muito velho”, meu avô falava em italiano. Mais de uma vez me contou isso, e agora, sobretudo depois desse livro, eu entendo. Zukerman e o arquiteto italiano falam uma mesma língua.

Entendo também o porquê de  meu avô, quando já estava para morrer, e sabia disso, ter parado de ler jornais – ele que toda vida  diariamente os lia. Lembro-me de uma capa do Jornal do Brasil com o atentado de 11 de setembro que eu na minha visão curta quis mostrar a ele. Ele não quis ler o jornal. Ele estava saindo de cena, com uma lucidez imensa.

Ele soube sair, eu não sei se vou deixar.

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2 Comentários Comente
  1. dani samad #

    To nesta leitura também querida, o Roth é fabuloso sempre ainda mais com as sempre taõ presentes ironias judaicas……ainda estou entrando na cena fantasmagórica……..
    beijones

    5 de novembro de 2008
  2. Gostei muito desse livro. É uma daquelas leituras que te envolvem e que dá uma pena danada quando se chega ao fim. Sempre tive um certo preconceito contra o Philip Roth e confesso que apenas ‘começo’ a confiar no moço. Mas com certa cautela ainda. Na pilha se encontra uma cópia de “Ordinary man” que eu espero abrir em breve, mas enfim. Mas só digo que apesar de ter gostado muito de “Exit Ghost” achei que o final ficou um pouco a desejar. Não sei explicar bem porque, esperava uma amarrada melhor pro final. Oh, well…

    23 de novembro de 2008

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