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O filho eterno – Cristovão Tezza: afinidades eletivas

 

 

Acabei de ler o livro O filho eterno de Cristóvão Tezza. Li porque continuo aferrada as minhas leituras “estranhamente familiares”. Li porque sim: o autor tem sido laureado, incensado e tudo o mais, com prêmios pipocando aqui e ali. E ainda que eu não tenha compromisso com o “já” em arte, eu devo escutar tantas vozes que alçaram o livro às alturas.

Escutei-as  e li. O livro, ainda que já ficção, e não relato nem autobiografia, mantém- se um acerto de contas do autor com a vida, com o filho. E nisso algo me incomoda. Algo me incomoda aí. É um livro corajoso, mas a sua força advém somente da literatura? Não sei. A reorganização de uma vida, de uma história, e até mesmo de uma linguagem própria, a partir da experiência limite de ter um filho fora de qualquer padrão incomoda-me, ainda que essa virada emotiva-intelectual-criativa da personagem-autor seja a mais elogiada pela crítica. Mesmo que se trate de uma Odisséia invertida, pois lemos o pai em formação antes de tudo, o que per si interessa, o ressentimento todo não me cativou. E o livro não deixa de ter uma sustentação melodramática difícil de escapar, de o autor escapar, embora a linguagem não seja, quase nunca melosa, quase.  Sinto no livro mais uma forma de retórica, ainda que seca e fugindo aos lugares comuns, do que a instauração de uma voz (eu sei, vão me matar, mas é o que sinto, de sentimento, que vem de sentido, que vem de mim, uma leitorazinha com poucos leitores).

As partes relativas às rememorações do pai, mesmo bem urdidas, tive vontade de pular quase todas, ainda não estou convencida da  necessidade das narrações sobre sua vida na Alemanha, suas vivências teatrais, por exemplo.  Ainda que sustentem o paralelismo com a“imobilidade” do filho, que sequer entra na adolescência, viva uma infância eterna; e sirvama auto-análise memorialística da personagem.

De quebra, o tom ensaístico aqui e ali também não desceu, ainda que seja uma barricada e tanto à escrita fácil em que um autor, que não fosse bom como ele, poderia incorrer. Quero deixar claro que sei que o autor é um autor como poucos, que entende do riscado, o que não é fácil e já valeria prêmios.

Li o livro numa rapidez imensa, o que revela a dupla conquista de ele tratar de um tema complexo, sem concessões, e ainda ser legível. Mas não gostei do livro como gostaria. Questão de afinidade eletiva. É como se eu reconhecesse que um filme é um grande filme, um diretor, um grande diretor, mas a obra não bate. O livro do Tezza não bateu.

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2 Comentários Comente
  1. Felipe #

    Concordo que algo nao bateu. Nao aprovo a postura dos escritores contemporâneos de colocar a própria vida tão abertamente numa obra de arte, transformando a intimidade num espetáculo para todos. Nao sei se as pessoas envolvidas com ele gostariam de se encontrar como personagens, ainda que sem serem nomeados. Mas fiz uma leitura agradável do livro, nao me arrependo de ter lido, e recomendo.

    9 de novembro de 2008
  2. Felipe, gostei muito do seu comentário. Não escrevi, mas também não deixaria de recomendar o livro. Aliás, só escrevi sobre ele, porque algo incomondou, porque se fosse algo descartável eu nem comentaria.
    Volte sempre. Você tem um blog ou algo assim?

    9 de novembro de 2008

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