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Gerald, links e afetos

 


Mattogrosso – by Lenise Pinheiro

Um dos grandes prazeres de blogar é ver seu link no blog de um outro. É sinal de que algo bateu, em alguma instância. Aqui no wordpress não tenho como medir isso, saber quem me linkou, talvez não saiba mesmo fazê-lo.

Ontem recebi a notícia de que Gerald Thomas havia me linkado, dada pelo próprio via SKIPE e, evidentemente, só posso estar com um brilho flamejante no umbigo. Ele pode ter uma história breve comigo, mas eu tenho uma de longa data com ele. Possivelmente se não fosse a internet não teríamos nos esbarrado. Afinal ele me encontrou, porque eu deixei um comentário em seu blog e daí para sua então moderadora Ana Peluso me rastrear foi um pulo &  pude estar com ele.

Mas esse papo está com cara de fã e auto-confete, em grande parte, pode se tratar disso. O fato é que quando eu tinha 14 anos eu descobri o trabalho desse homem, foi um tiro na nuca. A flecha certa que me abateu. Não só o descobri, como pude apresentá-lo ao meu avô, que à época deveria ter uns quase 80 anos.

Eu estava no Rio, onde moravam meus avós, e acontecia na cidade uma mostra grande para os padrões locais chamada Tucano Artes. Sem saber como ir, com quem ir, nenhum amigo meu neste período ginasial se interessava por eventos assim, comprei ingressos duplos para a Laurie Anderson, que acabei indo só e descoberta na noite por amigos de um tio meu estupefatos por aquela menina estar ali, voltei de ônibus com luzes e medos no estômago; para o Olodum, então uma novidade, para qual carreguei minha mãe, que jamais sai de casa, não sei como consegui o feito; e, finalmente, para Mattogrosso, peça para qual convidei “formalmente” meu avô.

Quando ele e eu entramos no Municipal do Rio eu já sabia que algo forte aconteceria ali, eu não tinha referência nenhuma de Gerald, além dos jornais, mas eu sabia que de alguma forma, através daquele espetáculo eu poderia retribuir ao meu avô, arquiteto moderno – homem das referências mais apuradas e do juízo estético mais aguçado que já conheci na intimidade – algo do que ele tinha me dado. Era como: aprendi , obrigada, quero lhe dar um presente.

Mattogrosso foi o meu presente ao meu avô e a abertura de novas possibilidades estéticas no teatro pra mim, que mal havia saídos dos cueiros das péssimas peças infantis, ante então só o cinema me apontava algo de estimulante;  e u também não conhecia Antunes Filho ou Zé Celso, nem desconfiava da existência deles.

 Quando encontrei o Gerald meu avô não me  saía da cabeça e inevitavelmente falamos dele, lembro-me que Gerald ficou encantado com o fato de meu avô ter recebido  Frank Lloyd Wrigt no Brasil, se ele soubesse o que esse homem fez cairia duro.

Eu amo estar no blogroll do Gerald, por mim, pelo meu avô, porque minhas antenas não falharam. As histórias sem datas marcadas na folhinha e de dimensões insuspeitas se dão de uma forma ou de outra, ainda que prosaicamente, num pequeno gesto. Ir à uma peça é o possível começo, um link é o mesmo, ambos apontam para algo. Incerto, mas aí que mora o perigo, o risco, o jogo, o quão é comblexa e brutalmente singela a vida.

Desde Mattogrosso fui a maioria das peças de Gerald e me ressinto de não ter podido levar meu avô comigo, e não é assim com literatura, minha praia, ou com artes plásticas, é assim com Gerald. Há uma língua profunda que ambos falam sem se conhecer, eu sou uma pequena ponte , digamos de Le Coubusier. Desculpe a modéstia, ou um jardim, de Burlemax. Ou a Luciana, medusa, nanã, sem idade tantas vezes, transitando entre os mortos cheios de vida.

Só para constar, na noite anterior ao chamado de Gerald sonhei com meu avô e ele estava vivo.

Gerald, como último romântico que é, desejo-lhe LOVE.

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2 Comentários Comente
  1. Inês #

    Querida Lu,
    Estive em Chicago este Verão, com o Pedro, passeámos de barco para ver a paisagem urbana, lembrei-me de ti e do teu avô – vou-te mandar umas fotos, a arquitectura das metrópoles muitas vezes me faz lembrar de ti. Não sabia que teu avô querido tinha recebido no Brasil o Frank Lloyd Wright.
    Saudades.

    19 de outubro de 2008
  2. Inês, como você viaja, né? Está no seu DNA. Fico contente que pouse por aqui e d que se lembre de mim em alguns dos lugares que passa. Meu avô permanece importante… e eu continuo uma louca metropolitana. Só abriria mão de prédios altos e fluxos incontinentes para uma vida de retiro na Amazônia, na Ilha do Marajó, que você tem de conhecer com o Pedro. Vai com certeza.
    Se bem que uma vida retiro está mais do que longe de mim, a minha Ilha é na metrópole, no meu apartamento.
    Esta conversa está longa, devo estar com muitas saudades mesmo.
    Bjs, Lu

    19 de outubro de 2008

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