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Lourenço Mutarelli – o gato preto

Ontem foi a Abertura da mostra SESC de Artes, todas as loas para os autores que como eu fazem parte. Mas eu quero mesmo é falar de outro evento que também fui: um bate-papo mediado por Marcelino Freire entre Lourenço Mutarelli, de quem nunca li nada, ainda!, e Marcelo Rubens Paiva.

Dessa noite eu só quero me lembrar do Lourenço, eu gostei muito dele ali. Eu gostei dele. Suas palavras se colam ao seu discurso como se fossem ele, sabe? Dele mesmo e de nenhum outro. É diferente de outras pessoas e escritores dos quais tantas coisas já ouvi. Falam, falam e não estão ali, não sabem quem são. O Lourenço estava. Ele tem gravidade, peso, volume e sombra. Uma enorme sombra. Ele estava particularmente sensível, com uma ferida grande que partilhou: seu gato preto, que era parte dele, havia morrido. E ele também disse en passant que esse gato havia como que “recebido” o seu pai. E durante toda conversa a imensa sombra do gato-pai esteve ali, junto dele.

Sei o que é perder um gato, é um luto que exige tanto quanto o de um familiar próximo. Há uma alquimia louca entre homens e felinos e, ao contrário do que muitos pensam, os gatos são de uma fidelidade supra-canina quando escolhem seu dono. Em alguma esfera eu entedi o Mutarelli, mesmo que não alcançasse a sua dor. Ele tinha perdido dois entes num só ou quem sabe três, ele, o pai e o gato.

Mas ele estava ali, aos pedaços, ainda que inteiro. E eu pude apreciá-lo na sua simplicidade em dizer do leve e do chumbo, de apresentar um texto lindo sobre seu gato preto e mostrar que havia raspado as sobrancelhas como os egípcios por estar em luto pelo felino.

Ele disse que havia lido num livro de William Burroughs a justificativa para a homenagem que fizera. Eu tenho justamente O gato por dentro, de Burroughs. Estes dois trechos estavam na fala de Mutarelli, são ele ali e aqui, aonde quer que esteja, e são muito bonitos:

“A imagem da vasilha de comida vazia de Ed… Ele sempre comia em uma vasilha pequena no quarto da frente. O potinho branco de comida de Ed, com detalhes verdes em torno da borda, pedaços de comida de gato seca presos nos lados, ainda está numa prateleira no quarto da frente.

Os antigos egípcios pranteavam a perda de um gato e raspavam as sobrancelhas. E por que a perda de um gato não pode ser tão tocante e sentida quanto qualquer perda? As pequenas mortes são as mais tristes, tristes com a morte dos macacos.

Tob Tyler aconchega o macaco moribundo nos braços.

O velho fazendeiro está de pé diante do muro inacabado.

Os quadros são gravuras em livros antigos.

Os livros se desfazem em pó”.

E mais:

“Indícios apontam que os gatos foram domesticados pela primeira vez no Egito. Os egípcios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraiam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso tenha sido exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.”

Não dá pra não gostar de um homem que encara a morte desse modo, que sabe reverenciá-la, que expõe seu luto. Que sobreviveu a tantos outros. Que a sombra do seu gato o acompanhe. Mas a do pai, ainda que talvez ele não saiba, ou não queira, ou não possa, ela já se foi, ou está quase lá, longe Acho que o gato preto me contou isso.

Todo meu carinho ao Lourenço Mutarelli e à presença de todos os felinos. Agora vou ler seu livro A arte de produzir efeito sem causa.

 

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