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José Castello arrebenta

Há muito tempo não leio uma crítica tão bem escrita sobre um livro. Tenho malhado a crítica como muitos, mas não por um desrespeito liso e tosco, mas antes porque considero fundamental e fundante ter boas leituras sobre o que se produz hoje. Arrogo-me a dizer e os bons críticos sabem disso: uma  crítica bem escrita e sólida em seus argumentos e estilo é um gênero literário como outro qualquer.

E o que me encanta é que José Castello é um dos poucos que dá conta disso. Agora ele derruba a banca ao escrever sobre o grande livro do meu querido Marcelino Freire: RASIF – o mar que arrebenta. è um encontro de titãs, uma crítica à altura do livro e do autor do mesmo.

Quem leu o livro e conhece o furacão Marcelino sabe exatamente do que Castello trata, e caso desconheça autor e obra estará muito bem e generosamente apresentado, em alto e bom som a ambos. Uma crítica como essa é um acontecimento. E tenho ditO.

Ia apenas colocar o link do indispensável site Cronópios que reproduziu o texto publicado originalmente no O globo. Mas o copiarei e colarei aqui, porque quero tê-lo perto, à mão.

 

O editor de vozes

Por José Castello

Uma tormenta de vozes despenca sobre a cabeça do escritor Marcelino Freire. Quando lê seus relatos em voz alta, em performances que evocam o teatro grego, Marcelino ruge, esgoela-se, faz sua catarse de poeta. Elimina assim, pela garganta, um pouco do vozerio doloroso. Contudo, quando lemos seus relatos em silêncio, com o desamparo que caracteriza o ato de ler, a dor se agrava. Vozes estridentes e sem esperança perfuram nossas mentes.

Inevitável lembrar do emaranhado de vozes que compõem Enquanto agonizo, o romance-bomba que William Faulkner publicou em 1930, e até hoje nos estilhaça coração. O coro de vozes que embala a agonia de Addie Bundren é só um dos atos extremos da relação entre a palavra e a voz. A origem das palavras está na fala, e a literatura disso não escapa. Ao contrário do que sugerem certos puristas, que desejam limpar a palavra dos chiados e gosmas da respiração, fala e escrita procedem do mesmo poço profundo.

Quando escreve um conto, o mineiro Luiz Vilela sai pela casa, às tontas, lendo em voz alta o que escreveu, só para ter certeza de que seus personagens não o devoraram, de que ele ainda os controla. Os vizinhos pensam que está louco _ mas ele sabe que essa é a melhor maneira de conservar não só o estilo, mas a lucidez.

Hilda Hilst dizia que, no ato da escrita, seus personagens se desdobravam em almas externas, que se punham a tagarelar em seus ouvidos. Um de seus personagens mais famosos, a Senhora H., um dia lhe avisou: “Eu não sou você”. Hilda aprendeu a não ceder às ilusões da letra. H. não é Hilda, assim como K. não é Kafka, e G. H. não é Clarice Lispector. Personagens não são autores. Vozes não pertencem a quem as ouve. São uma tormenta que cai.

Pessoa também se desdobrou em novos corpos, com novas biografias, novos estilos, novas ilusões, em um esforço heróico para domesticar essas vozes. Retalhou-se, sangrou, para não sucumbir. Para não vergar como Virgina Woolf que, sem resistir às vozes que ouvia e que a infernizavam, matou-as se matando.

Marcelino Freire só não sucumbe ao inferno de personagens que carrega, eu penso, porque lê em voz alta. Quando lemos seus livros, como o recém lançado Rasif/ Mar que arrebenta (editora Record), feroz coletânea de contos, também de nós se exige coragem. Críticos insensíveis já qualificaram a literatura de Marcelino de grosseira, de indecente, de primitiva. Eles confundiram as vozes dos personagens com a fala de seu autor. É preciso ter força para lidar com tanta raiva, tantos palavrões, tanta fúria. Só com delicadeza se consegue editá-los, de forma que os aceitemos e possamos deles nos aproximar.

Não, Marcelino Freire não faz como Dalton Trevisan que, interessado nas vozes pequenas dos homens comuns, as apequena e esmaga, e sobre estes restos escreve. Mais valente, Marcelino incorpora essas vozes — aceita-as como são, por mais medonhas e repulsivas que pareçam —, e se oferece como um transmissor. Seu trabalho é o do editor que depura, procura relações ocultas, alija fraudes, desenha o possível. Ele atua como um browser, instrumento que habilita seu leitor a navegar por um vasto oceano de vozes, a acessar vozes hospedadas nas mais distantes profundezas, e ainda assim retornar à superfície.

São vozes feridas pela revolta, como a do índio que, em “Tupi guarani” adverte, cheio de ira: “A gente pinta a cara, mas não é palhaço”. Vozes amargas, como a do homem que, em “Sinal fechado”, faz um longo discurso contra a roda e contra o carro, certo de que, não fossem eles — e seu sangue fétido de petróleo — o mundo seria outro. Vozes infelizes, como a do menino Leco que, em “Meu último Natal”, armado de uma pedra, decide matar Papai Noel porque o velho se nega a visitar o barraco em que vive.

Vozes duras, difíceis de suportar. Na última vez em que ouvi uma leitura de Marcelino — em uma livraria, com aquela postura de grego raptado pelo sertão — o que mais me impressionou foi o desgaste que o acomete. Não é fácil se oferecer como um aparelho de captação e transmissão dos farrapos da voz humana. Aceitar a brutalidade e o sofrimento do outro, acolher (em vez de afastar). E fazer disso escrita.

São vozes atormentadas, que reagem, esperneiam. Sob seu peso, Marcelino tem algo de um Titã, gigante que sustenta o insustentável. Em um salto para trás, rumo aos séculos gregos, ele reaproxima a literatura do teatro e das rapsódias. Quem foram os rapsodos, senão cantores ambulantes que, sem rumo, vagavam pelas estradas levando nas costas, e em suas canções, o peso de seu tempo?

A escrita de Marcelino é entrecortada, ofegante, ritmada. Tem fôlego curto, de martelo, e é interrompida por refrões. Essas repetições não só lhe marcam o ritmo — como faz um atabaque —, mas lhe sopram vida. Prosa dançante, a ficção de Marcelino Freire parece fácil, mas exige do leitor o compromisso mais difícil: com o estranho.

É um prosa de “amor retorcido” pela vida, para roubar uma expressão do pederasta europeu que, em “O meu homem-bomba”, se apaixona por um terrorista, e quase morre a seu lado. Prosa que, mesmo áspera e suja, se aproxima da poesia, ainda quando recolhe as mais fétidas dores do mundo. Prosa muito forte, é verdade, para um mundo de seres espelhados, que cultivam a repugnância pelo outro e seu inferno de diferenças. Mundo que, em “Roupa suja”, uma empregada doméstica, apaixonada por um rapaz inacessível, assim descreve: “Ele, dentro de uma bolha. Eu, tão rastejante”.  

         Vozes que rastejam, mas que, nem por isso, deixam de existir. O corajoso Marcelino me faz pensar na famosa frase de Whitfield, o personagem de William Faulkner: “Quando me disseram que estava morrendo, durante toda a noite lutei contra Satanás e saí vitorioso”. É para fisgar o grito horrendo de um mundo doente que Marcelino Freire escreve. Som aflitivo, que às vezes nos leva a rir de desespero, outra nos comove. Para Marcelino, como para os poetas, a literatura é uma luta. Combate para acolher gemidos e conferir sentido a um real despedaçado. 

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