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Fernado Vallejo e + Laura Restrepo

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Acabei de ler O Despenhadeiro e o autor me conquistou, apesar do que eu disse uns posts atrás. Vi que sua verve direta é muito mais do que isso, que nada está tão claro quanto parece, nem a primeira pessoa que ele insiste em dizer que usa, nem sua obssessão pelo Papa, nem tampouco sua bile negra negra negra. Mostra a a Colômbia destroçada, ele-autor-personagem-irmão-família também; baba de ódio, ódio, ódio, mas esse exagero chega ao paroxismo e nesse excesso é que me dou conta do quanto sua escrita e loucura são pacificadoras, porque ele nomeia as coisas, assumindo a complexidade delas e enfiando-lhes o dedo na cara. Manda tudo ou quase tudo à merda. Mas, no entanto, a merda cola nele, poque ele não consegue enlutar, é uma escrita melancólica, cheia de fantasmas que o perseguem, dos quais não consegue se libertar, porque ele que me desculpe, tem compaixão demais, apesar de não saber. Ele cai junto no lodo do que escreve e descreve e rememora. É uma espécie de sobrevivente da própria memória. Não li os outros livros, mas creio que a cada livro ele sobrevive a si mesmo, porque nomeia a merda. A grade merda. E como dizia Freud:”o que não vira palavra, vira sintoma”. Eis um puta autor, que aquém da sua prória miséria a supera pela escrita, um “fi-da- puta” como ele mesmo diz.

Encontrei uma pérola. Uma entrevista feita pelo jornal El País com Fernando Vallejo e Laura Restrepo, que só confirmou o que eu já desconfiava, a proximidade entre ambos. Quem quiser o papo todo clique aqui.

diálogo

Escritores traçam painel sombrio Da Colômbia e atacam Uribe e as Farc

Laura Restrepo Escritora ColombianaFernando Vallejo _ Biólogo Cineasta e Escritor colombiano

por Juan Cruz

Laura Restrepo, 57 anos, é autora de “Delírio” e Fernando Vallejo, 65, é autor de “El Desbarrancadero”. Os dois romances, um sobre a violência doméstica, outro sobre uma mãe que desmorona como a Colômbia, são metáforas da situação que vive o país em que nasceram. Dois grandes escritores, duas personalidades radicais cujo compromisso com a escrita é um compromisso com a vida. De uma maneira ou de outra, com a Colômbia.

El País – Como este país afetou os senhores, como escritores?

Restrepo – Eu vou lhe falar sobre a literatura de Fernando. A literatura de Vallejo é uma das grandes ações que temos no campo da cultura para desmontar toda essa maquinaria de morte e opróbrio que há. Porque Fernando chama as coisas pelo nome, e eu creio na palavra; é nossa ferramenta, detesto a palavra que dá pistas falsas… Não só ele é um grande escritor, como mostrou essa espécie de face oculta da vida colombiana; se opõe à hipocrisia…, porque nós temos essa herança católica e espanhola do pudor, que nos impede de mostrar a roupa suja fora de casa. Fernando só faz lavar a roupa suja com a maestria que tem como escritor. Mas é tão importante sua palavra, e não só na Colômbia!

Vallejo – Eu não sei, porque meus livros me esqueceram; eu passei a metade da minha vida vivendo fora da Colômbia, mas sempre tive a Colômbia na cabeça, na verdade não fui embora. E a gente está onde o pensamento está. Então daqui volto e vou, vou e volto. Na realidade volto e vou, mas sem ter ido. Estou na Colômbia, sempre estive. E é uma das razões pelas quais não me matei. E também uma das razões pelas quais não me mataram. Porque a Colômbia é um país louco. E a Colômbia, se não o mata, pode levá-lo ao suicídio. A Colômbia é um país enlouquecedor. A Colômbia é um país delirante.

Restrepo – Não gosto de falar de literatura colombiana. Porque Fernando é lido em todo o mundo, seus livros são traduzidos em toda parte; não falam da Colômbia, sua literatura fala da condição humana. Uma garantia de nossa derrota é que o coloquem em um nicho: “Ah, são colombianos!”

Vallejo – Os problemas daqui são os problemas de qualquer lugar. Bogotá pode estar engarrafada; assim está o México, assim está Madri, assim está todo o planeta. O problema é universal e o problema é que não cabemos. Há muita gente, 6,5 bilhões, no planeta; aqui somos 44 ou 46 milhões, como na Espanha. Começamos o século 20 com 2 milhões, o terminamos com 42. Bogotá tinha 100 mil habitantes quando começou o século 20, hoje tem 7 ou 8 milhões… Como é possível estarmos em um país se nos multiplicamos dessa forma?

Restrepo – Uma coisa que eu quero dizer: fora o carinho e a admiração que tenho por Fernando, penso que nós dois mantemos uma independência muito grande diante do poder. Não há nada pior que a literatura palaciana. E é nisso que nos encontramos.

Vallejo – Uma coisa que acontece aqui agora é que cada vez menos escritores aceitam cargos políticos…

Restrepo – Seria preciso ser ainda mais radical: não só não aceitar cargos, nem sequer aceitar tomar chá com os presidentes, não aceitar viagens com ministros, bolsas… A literatura em si é um poder e esse poder você perde no momento em que se torna palaciano.

Vallejo – A única forma de calar alguém é com uma bala.

El País – Vocês são escritores desde jovens. O que os levou à literatura?

Restrepo – Eu participei muito da política, sou professora. E agora escrevo. Creio que sempre me motivou o mesmo: a paixão pelo que as pessoas fazem, a necessidade de estar perto das pessoas, a necessidade de colocar palavras nas coisas que vivo e que vejo. Não creio que tenha uma motivação como escritora diferente da que tive para ser política ou para ser professora.

Vallejo – E a mim chegou por estar desocupado. Não tenho nada para fazer, por isso me entretenho escrevendo. De verdade! A minha é uma literatura que não está pensada nem sequer para defender as causas; como a minha causa dos animais, porque essa causa quase não está em meus livros… Eu escrevi por desocupação, porque percebi que me dá um prazer muito grande incomodar. Queria que muita gente se incomodasse, começando pelos mais miseráveis.

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