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Autobiografia desautorizada

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Vocacionada para Glória

Nasci em 22 de fevereiro de 1647, na cidade Montpelier, no sul da França e batizada Luciana Bourdois Penna. Em minha infância fui considerada uma das meninas mais graciosas de minha estirpe. E, como os Bourdois Penna estavam falidos desde a ascensão da burguesia e decadência da nobreza um casamento de conveniência e nobilíssimo seria a redenção de minha família, reduzida a mim, a meus quatro irmãos menores e a minha mãe viúva. De modo que eu deveria casar-me aos treze anos com um primo, não muito distante, descendente da mais pura linhagem de reis da Bavária e Antuérpia. Entretanto, os laços matrimoniais não foram meu destino, pois já aos nove anos, para desgosto dos meus, minha beleza tornou-se tamanha e para assombro de todos lasciva, o que implicou em minha sodomização reiteradas vezes por meu tio Barão Vanprès Bourdois e conseguintemente pelos seis filhos dele, entre outras desgraças, notícia que logo veio à baila e significou o fim de meu noivado. Tais percalços me deixariam marcas que só puderam ser expiadas e purificadas pelas mortificações e êxtases que eu levaria a cabo, sobretudo, no convento Palay Lemonial, onde fui enclausurada. Ao ingressar na vida religiosa aos quinze anos fui de chofre detratada por minhas irmãs, que sabiam apenas da face obscura de minha vida pregressa, mas não de toda sorte de esforços que eu já havia feito no caminho da ascese de minha alma. Desde os dez anos, minha mãe impunha-me as mais abjetas comiserações para que me salvasse. Como ser forçada a comer as fezes do seu irmão mais novo, doente de um mal jamais descoberto, mas do qual foi salvo. Tanto que aos doze anos já era procurada por toda sorte de disentéricos em busca da cura de seus males. Além de sorver seus fluidos, mais ou menos espessos, também me alimentava de seus vômitos, que ao serem ingeridos me traziam visões de Cristo. O que era sacrifício passou a missão. No convento, apesar de inicialmente rejeitada, meus esforços de purificação no sentido de extermínio de meu corpo foram logo reconhecidos, emporcalhava-me o quanto mais fosse possível, dormia sobre uma cama de esterco e amarrada com crina de cavalo, o que me ulcerava o corpo. Aberta em chagas e sem poder sequer locomover-me experimentei um de meus últimos êxtases místicos ao sorver o pus do seio canceroso de uma de minhas irmãs. Morri aos dezessete anos. Três anos mais tarde, em 1667, fui canonizada pela Santa Igreja.

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um comentário Comente
  1. South American Way #

    nossa amiga, baixou um augusto dos anjos básico??? adorei a escatologia à la george bataille; pensar que a vida e os amores sempre tem este fim, o de nos revirar pelo avesso fazendo-nos descobrir os podres dos outros, e muitas vezes, o nosso próprio….
    beijocas

    25 de junho de 2008

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