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Mais "Yoko Ono – uma retrospectiva"

Retomando, gostei muito da exposição, muitas coisas tocaram-me profundamente. A senhora Yoko é uma das grandes, uma série sua chamada Instruções em que ela apenas dá instruções escritas para o desenvolvimento de uma obra que ela conceitualmente cria e nós, expectadores, somos convocados a interagir foi uma das minhas prediletas. Mas interagir no repouso, com o olhar e a mente, algo muito próximo da literatura. Lembrei-me de hai cais, além da forma, alguns de seus escritos remetem a ensinamentos orientais.
Esta confluência de oriente e ocidente que sua obra traz também é, ainda hoje, muito estimulante:

Painting for de Wind (1961)

Faça um buraco em um saco cheio de sementes de qualquer tipo e posicione-o onde há vento.

Cleaning Piece III (1996)

Tente não dizer nada negativo sobre ninguém.
a) por três dias
b) por quarenta e cinco dias
c) por três meses.
Veja o que acontece com sua vida.

Paralelo a isso, ela também apresenta, por exemplo, a série Blood Objects, cuja violência também explicita, numa mesma retrospectiva, a quase impossibilidade de seguirmos de recriarmos o que a artista dita em Instruções. Vemos uma série de objetos de uso cotidiano salpicados de sangue.


Há muito a ser contado e registrado, mas fiquemos com o que mexeu aqui. Uma sacada instigante foi a sala batizada de Water Event, que consistia na disposição de 43 obras de diferentes artistas ( de distintos ramos das artes, não necessariamente plásticos). Yoko pediu a cada um deles que lhe enviasse contêineres para água.
Entenda-se, ela interpreta água como metáfora de amor, emoção, enfim. Não havia água por todos os cantos. O que importa é que uma das obras, que com muita correção o guardinha não me deixou fotografar, foi uma paulada, um meigo vestido de tricô vermelho que trazia o seguinte texto junto, ambos de Helena Villovitch, pareceu-me sintetizar o espírito da sala e de parte da obra de Yoko, é o seguinte:

Helena Villovitch

“Este vestido de tricô vermelho foi feito por uma mulher muito triste que esperava que algo acontecesse, ou que alguém aparecesse, ela não sabia exatamente o que ou quem. Foi um trabalho solitário, mas a mulher decidiu que seu término seria o começo de uma solução. As pessoas talvez olhem para este vestido e não o achem bonito ou valioso. Que seja! Não importa. Para esta mulher ( você já sabem que sou eu!) o importante era terminar alguma coisa, bem ou mal. E, ao oferecer este vestido de tricô vermelho para Yoko Ono como um recipiente, compreendo que seja possível terminar em outro momento (aqui acrescento água) o que já está terminado. É por isso que esta obra é dedicada às pessoas que tem medo de terminar alguma coisa, para ajudá-las a compreender que o fim não existe.”

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4 Comentários Comente
  1. patricia #

    Luciana, curioso como tivemos os mesmos sentimentos na visita da exposição da Yoko. Escreví algumas das suas instruções em meu celular, para me lembrar daquele estado meditativo que suas instruções me passaram. Indiquei para uma amiga cuja filha é artista mas que me dizia que não havia absolutamente nenhum sentido na arte, disse para ela ir à exposição da Yoko Ono, e vc não imagina o quanto ela me agradeceu, dizendo que finalmente alguém havia aberto portas para uma aproximação àquilo que chamo de um “estado de arte”. Valeu.

    5 de fevereiro de 2008
  2. luciana penna #

    Recebi no neu myspace um comentário sobre este post. Como meus dois espaços não possuem outra ponte que não seja eu, reproduzo o que
    Hermelino Neder escreveu lá. As palavras dele:

    “Tentei postar no blog, mas não consegui. Então, quem sabe, seus espaços possam conversar:

    A história de amor de John e Yoko é a melhor do século XX e começou numa exposição dela, com várias dessas obras que vieram ao Brasil.

    Ante a obra em que ela cobra um penny para o espectador pregar um prego, John disse que pagaria um penny imaginário e pregaria um prego imaginário. Ele não estava a fim de pagar micos.

    Porém, diante da escada que levava a um bilhetinho no teto, impossível de se ler do chão, ele encarou. Quando desceu, disse que gostou porque estava escrito YES, e que teria odiado se estivesse escrito NO.

    Esse foi o primeiro encontro. No segundo, gravaram um disco no estúdio particular dele, antes de transarem. Na capa e na contracapa, ambos totalmente nus, de frente e de costas.

    Um dia, John estava deprimido num hotel. Mas achou que dava para sair para uma entrevista. O jornalista veio buscá-los de carro e, logo depois que partiram, Yoko olhou para a cara de John e disse: não está dando, não é John? Ele disse: não.

    Então ela pediu que o jornalista os levasse de volta ao hotel”

    5 de fevereiro de 2008
  3. luciana penna #

    Hermelino, ficou bom, né? Gracias. Não podia deixar escapar esta contribuição aos meus zilhões de leitores. :))
    Obrigada mesmo, LU

    5 de fevereiro de 2008
  4. luciana penna #

    Patrícia, que bom vê-la por aqui! Seu comentário explicou-me bastante um tanto do que eu queria revelar. “Sentido”, a exposição fez muito “sentido” e o lindo desta palvra é que ela vem da mesma raiz de “sentimento”. É bom ter leitoras-amigas assim por aqui. Precisamos mesmo por o papo em dia e ver umas exposições juntas.
    Bjk, Lu

    5 de fevereiro de 2008

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