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Obrigada, Coutinho.

Acabo de sair do cinema após ter visto pela segunda vez seu filme Jogo de Cena. O que me toma de assalto neste filme? Já eleito como um dos filmes de minha vida?

Pensei em ler todas as críticas e resenhas sobre ele. Talvez o faça, mas depois. Eu preciso escrever assim, de chofre. De memória, como as personagens e as atrizes, porque a lembrança é quem fala lá e aqui. O susto é este: a desimportância da fidelidade, ou a tremenda importância que o documentário dá a ela, justamente por não passar por um molde. A fidelidade mora no mais precário e inalcançável de nós, é o que pude sacar no filme, através dos depoimentos, de atrizes ou não, e de minhas reações nas duas sessões que vi.

O que desejo expressar pede que eu fique em silêncio, mas não posso, porque preciso dizer e só tenho as palavras para isso. Poderia tratar do rame-rame entre ficção e realidade, o que não é mais questão. Seu filme está para além desta inquietação, que me parece frívola, papo-cabeça de jornalista. A pegada é outra. O que me tomou em seu filme foi a humanidade imensa que ele impreme . Estar com o filme, diante da tela, e sair dele é como recobrar a possibilidade de viver a vida na sua precariedade e intensidade, nos arcabouços do sonho, da vigília, da imaginação, num trânsito livre, mas seguro, porque seu filme ordena este caos em que todos estamos imersos. Mas sem amarrar. Como é possível tal mágica?

Como seu filme ordena uma matéria tão fina? Suponho que por assumi-la como tal. Me lembrei de um texto de Walter Benjamin, que não tenho mais à mão e, por isso, poderei ser leviana com ele, mas até onde me lembro, tratava da importância do ato de narrar que se perdia, porque em meio as experiências fragmentadas de uma guerra, por exemplo, as narrativas perdiam seu teor épico, memorável. As lembranças eram só destroços e a experiência passava a ser desvalorizada. Não só a guerra, mas cada vez mais a distância da oralidade e o universo cada vez mais romanesco das coisas levariam, segundo ele, à experiência a um segundo plano. Concordo que isso tenha ocorrido no mais das vezes no mundo em que estamos.

Jogo de Cena resgatou para mim a importância da experiência, de que ela pode ser passada, mesmo que não epicamente, em epítetos, mas no desamparo, sem moldes, esteriótipos e sem Deus. Não à toa as atrizes se vêem diante de um grande desafio, pois representar a experiência em carne viva não é simular com cristal japonês ou verter lágrimas na hora x ou y, é estar de corpo inteiro à altura da experiência do outro. Descobrir uma via de acesso outra ao outro. É abrir-se à existência e à atuação dela no que há de mais aterradoramente próximo e singular. É viver a alteridade na veia, por mais técnica que se tenha, todas se defrontaram com o indizível que os roteiros não param de tagarelar, bem como as fórmulas familiares e sociais.

Num mundo em que o valor da experiência se perdeu e se macaqueia papéis e vidas, em que lágrimas esquizóides sustentam melodramas, Jogo de Cena acalenta. O seu filme dá continência para substâncias tão tensas e tênues como traumas e perdas, permite que elas possam emergir como tais. Abre a cortina para que aquelas mulheres nos leguem as suas experiências sem sentido, tão sentidas e legítimas de existir e atuar. O filme é um presente. Eu amei profundamente cada uma daquelas mulheres, pois o filme constrói um elo entre atrizes, depoentes, expectadoras. Relativizei meu desamparo, a minha vida, a impossibilidade de narrar e redimensionei a miséria imensa de se estar vivo e o quão lindo é isso.

Já que seja no sonho, seja no palco, podemos nos reconciliar com nossas perdas. Se há algum filme sobre reparação em cartaz é o seu.

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3 Comentários Comente
  1. denio #

    lu, acho que vc acerta no alvo ao citar, no “jogo” entre ficção e realidade do filme, a dificuldade que é dedicar-se à experiência do outro. algo que o próprio coutinho, como diretor/entrevistador, sabe fazer como poucos. belo filme.
    bj,

    denio

    27 de janeiro de 2008
  2. Léo Ferreira #

    Luciana, seu blog é muito bom. Pressupõe uma pessoa bem interessante. Vou mandar e-mail pra você, falando sobre alguns projetos que estou realizando. Gostaria de ler seus contos.
    bjs

    27 de janeiro de 2008
  3. luciana penna #

    Obrigada,
    Léo mande sim o e-mail, também gosto do que já vi seu.
    Bjs, Lu

    27 de janeiro de 2008

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