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Livro

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Aos seis anos subi uma ladeira do jardim botânico, no Rio de Janeiro, e me disse que escreveria um livro. Hoje vejo o quão infeliz eu já saberia que seria e o quanto de pretensão eu encerrava. Imaginem só: seis anos. Mas eu acredito nos que sabem sem saber como aquela menina da infância, que eu já era sem que soubesse ser. A pequena Luciana que arrasto até hoje, como sombra gorda e bússola do meu melhor. Um paradoxo, mais um.

Foi tão certo o que pensei que nunca duvidei, apesar de não saber por onde começar um enredo tão pardo, apesar das luzes que jamais deixaram de se infiltrar. Um dia eu conheci Clarice, noutro Strindberg, depois Freud, mais à frente alguns poetas que fizeram me crer que eu não estava só e que todas, absolutamente todas as histórias podem ser contadas. Não que devam ser, muito menos que elas sejam indispensáveis como narrativa.

O bonito é que elas não precisam ser fabulosas-fabulantes, e advirem de estátuas de praças, mas de gente que sente o mundo para além do que possa suportá-lo e conheça, mesmo sem que saiba, a intimidade das palavras. Eu não tenho dúvidas de que seja uma dessas pessoas, mas isso não me faz nada além do que já se conheça por aí: uma voz engasgada no próprio sumo. Não posso me considerar escritora. O que me diferencia talvez seja que eu apenas não acredite na substância fugaz da felicidade ou da realização nem tampouco em palavras que apaziguem a alma. Não comungo com os que crêem que escrever seja uma catarse ou libertação. Nem mesmo sublimação, desculpe ó Pai. O desejo de escrever é uma variação de escravidão como qualquer outra que me tomou de assalto sem que eu saiba o que fazer com ela.

 

Tenho a boca suja, o time do humor, mas isso não passa à escrita, não se revela. O porquê não sei. Quando passa, eu não me reconheço no que fiz. Eu desconfio do riso e da hipervalotização do humor, entopem estantes e almas de estupidez. Eu não quero ser leve e palatável e rá rá rá, menos por escolha do que por incapacidade, acreditem. A apologia da alegria e da festa é de um estar no mundo que tem muito pouco a ver comigo, coisa de uma espécie de preguiça com artimanhas de bote. Sou boa em festa e mesa de bar, mas viro abóbora em poucos minutos, é a verdade, a minha. Prefiro minha casa e comer em silêncio, ainda que tenha engolido um papagaio.

 

Quem sou? Hoje sei que isso não importa à mínima, que o papo é o devir sempre, em outras palavras, para que eu permaneça uma estranha a mim mesma e ao outro e possa achar graça na vida e até gargalhar. Ainda que sem leveza. Como se eu reencarnasse por várias vezes, e pudesse cair na armadilha de um poema reiteradamente, e me perder em meio uma música como uma tola, como também chorar da pieguice como uma escara. Quero poder enlouquecer e se eu precisar esquecer-me, que seja. Eu não quero mais me encontrar. Jamais acreditei em atalhos e não será por eles que escreverei. A crença na identidade é uma farsa, conto de carochinha, sou uma ilha que se comunica, na mais solitária diferença, num mundo que caga para mim, ainda que eu insista em me reencantar por ele como uma virgem.

 

Aí ó, mais um post. Fui.


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