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Gato brinca de ser Jorge Mautner

Há certos encontros que demoram a acontecer, sobretudo aqueles marcados com livros que sabemos que no tocarão. Anos e anos ouvi meu pai falar deste livro que leu aos 16 anos na Bahia e que, de algum modo, revelou-lhe São Paulo, cidade que anos depois veio a se instalar.

O fato é que herdei essa edição raríssima de 1962, com uma das capas mais lindas que já vi. O autógrafo de Mautner foi como se ele timbrasse uma herança outra, de pai pra filha, do legado tresloucado da geração de ambos para minha e para mim. Utopias várias que tanto abriram possibilidades quanto as frearam. Pois como Mautner a certa altura do livro afirma: “A loucura de uma época não perdoa a loucura de outra”.

Não sei se é de todo assim, perdôo, leio e recebo. E mais: agradeço. De forma que resolvi brincar coma voz do Mautner, a qual só consegui assimilar depois de ouvi-lo falar ininterruptamente por três horas, durantes as quais a figura do pai e da mãe eram sempre reiteradas, assim como no seu primeiro livro. Ao abri-lo desta vez pude encontrá-lo, lê-lo, porque o autor já tinha me iniciado na sua linguagem antes, dado a chave e a chuva na sua palestra que de modo hipertropicaslista dizia “Era uma vez…”.

Chover como Ele

para Jorge Mautner (texto com trechos extraídos e adaptados do seu livro).

 

A chuva caiu sobre mim e eu vou começar um livro estranho. São palavras de um poeta que nasceu sob o signo do holocausto e que as soprou sobre mim. Em fuga, ele preferiu o amálgama e a celebração, a alquimia que não se entende e se explica na eletricidade dos trovões, no que se pressente e se confirma como o Kaos.

Ele tem a alegria dos menestréis e nos seus olhos a amargura do mundo. Adolescente, quase acabou de nascer. Começou a fumar aos 60 anos, parou 7 anos depois. Dizem que ele já cuspiu na cara de muita gente, sobretudo dos pais e padrasto. Nessa época, aos 15 anos, descobriu que a palavra e a música poderiam ser sua família e o Kaos com K seu partido.

Abandonou-se pelo mundo e reescreveu-se, personagem de si é dos homens-meninos mais verdadeiros que já pisaram sobre a terra vermelha e verde escuro feito musgo. Vampiro de óculos escuros para suas lágrimas esconder, revela-se todo para que nada seja descoberto. Sua fala causa um frio imenso como se o céu se fechasse em negrume de pedra e cinza e fosse desabar, ainda que sob o som do rock da baratinha. Algo me diz que ele é um zumbi de uma era que ainda está para vir, dorme e vive dentro de um caixão em que repousam as mais belas flores e chove torrencialmente.

Ao seu redor há toca-discos e guarda-chuvas de várias cores e bocas de várias línguas. Um pajé dança e canta um rock em latim, uma menina de seios duros e um jovem magro e frágil de sexo furioso fazem o mesmo, o nome do jovem é Jorge. Aquele que se esfregava nas árvores da floresta até cair e encontrou o moço da motocicleta que lhe disse como James Jean: “Se eu tiver que morrer, voltarei”.

A dança da chuva e da morte lança lama sobre os corpos de todos, adãos e evas e mães-de-santo e físicos e leitores e políticos e escritores e sobre mim, estática como uma máquina fotográfica em 1941.

Mautner está morto anunciando as notícias do fim, porque nasceu profeta. Feito Maomé, Moisés, a Chuva e Jesus Cristo, como qualquer um que se acredita sem falsa modéstia ou covardia. Sobre estes sete palmos eu nasci e aquela é minha mãe. Ele é meu pai. Aqui não há flores nem musgos, mas há muitos prédios, luz elétrica, chips e psicotrópicos. Agora eu escrevo e eu ouço seu último disco e minha mãe está triste e nunca sorri. Quando ela sorri o seu riso é quase histérico e amargurado e isto me choca. Meu pai e ela já não têm muita significação pra mim e isto é triste. Aqui eu finalizo a introdução.

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