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VEMVAI – O CAMINHO DOS MORTOS

 

 

 

 

 

 

 

Assisti a peça VEMVAI – O CAMINHO DOS MORTOS, da Cia Livre, sob o comando de Cibele Forjaz. Valeu pelo trabalho do conceito de morte como fronteira, o chão do espetáculo (público e atores numa mesma altura), expandia-se em cortinas que se abriam e desvelavam novas etapas (ou passagens) do caminho dos mortos, um achado cênico lindo, singelo e claro. Sobre o qual se sustentou todo o espetáculo, não sei como ele se daria sem esse recurso dos “portais”, pelos quais, nós expectadores éramos levados, vivenciando os cinco movimentos da travessia pelo além, que bem sabem os índios, é aqui também.

Parece que para a tribo Marubo, a qual a Cia Livre mais estudou e leu, com a orientação do antropólogo Pedro Cesarino, assim como para muitas outras cosmogonias ameríndias também estudadas pela trupe, a morte é uma fronteira. Não sei o quanto entendi isso ao assistir o espetáculo ou ao conversar depois dele rapidamente com o ator Edgar Castro, aliás um grande ator, para se ficar de olho. O conheci neste mesmo dia, apresentada pou amigo em comum, e confessei de cara que não tinha entendido muita coisa, que a partir de uma certa altura da peça eu me perdi total. Ele foi muito condescendente com minha espécie de confissão e de curiosidade, explicou-me generosamente muita coisa.

Logo que saí da peça, antes da conversa com ele, senti-me muito decepcionada, porque apesar dos achados estéticos, da verve Zé Celsiana mais depurada (porque com atores mais atores, mais técnicos, mesmo que aparentemente possuídos, mais donos de seus corpos e arte), a despeito então da enorme competência de cada um que atuava e da força dos diálogos e das inúmeras falas para se levar na memória, advindas da cepa de Newton Moreno (é possível reconhecer aqui e ali o que é mais dele), eu simplesmente não conseguia casar canibalismo com o caminho do Vaká, ou seja, eu não dava conta do que a peça se propunha narrar. Eu que precisava entender como outras cosmogonias viam a morte. Eu que fui até a peça para isso, em boa medida, não dava conta daquilo que via em cena, talvez se eu pensasse o Vaká como o Outro freudiano ou como uma projeção ou como uma alma penada ou como um espírito ou ou ou. Mas por que comer o duplo para aceitar a morte? Saí sem entender o canibalismo funenário, céus! Isso não de diz em praça pública, mas o faço.

Explico esse papo de cachorro louco de Vaká, ou tento explicar, ao entrar na peça recebemos dois bonequinhos de papel carimbados com o nome Vaká, pude perceber não só pelos bonecos, mas pela atuação, que cada um de nós tem um duplo (bem Freud mesmo), que seria o tal Vaká, que talvez o duplo ou alter ego, ou seja lá o que fosse, fizesse a travessia dos mortos, mas não! Ao conversar com Edgar, ele me explicou que um único ser tem vários Vakás, um do pé, outro da mão, que às vezes um Vaká sai do corpo de um índio e apronta em outra aldeia e quem vai buscar este Vaká é o pajé. Isto é, o pajé é o único que conscientemente passeia com seus Vakás e resgata os Vakás alheios. Um tânsito de Vakás que deve ser mais claro aos ocidentais esquizofrênicos, passei longe, apesar de louca que sou.

O fato é que saí com meu Vaká na mão, tendo visto uma peça que não se pode irresponsavelmente detonar, nem tampouco, no meu caso, gostar de todo, no entanto, eu resolvi gostar da dita, pelo que potencialmente seu grupo empunha como empreitada cênica: investigar e trazer à tona uma cabeça que não é a nossa, porque o budismo vira fichinha perto dessas cosmogonias que ficaram tão distantes. Definitivamente não sabemos nada da nossa própria cultura sem “índio-Dalai Lama” para didatizar, aliás, esta é a única certeza que a peça me deu. A peça é honesta, explicita sua fragilidade em fazer-se enteder, por isso o ator foi tão aberto, agradeço a ambos, pelo que me deram a pensar, sem medo da exposição.

Passei a gostar também de VEMVAI por essa espécie de franqueza, que não sei descrever aqui, por um certo peito aberto, pelos atores até em cena entregarem, metalingüística e explicitamente, o quão difícil é entender o outro! (Se bem que a metalinguagem já deu também, em boa medida, mas nessa peça não via outra saída.) Só pela pesquisa que essa trupe fez, pela ousadia de entrar por uma seara tão difícil, eu decidi procurar gostar do espetáculo, mas que fique claro: só depois de pensar muito sobre, de regurgitá-lo muitas vezes, de relembrar o que eu ouvi depois. Creio sobretudo que é um espetáculo a ser respeitado por não estereotipar o índio e não infantilizar as cosmogonias alheias, coisa rara em teatro, mais comum no cinema nacional.

De Vaká na mão fico esperando uma próxima, chateada por saber tão pouco, pela peça não ser tudo aquilo que andam dizendo, pelo fato de os índios estarem partindo e eu sem saber o que fazer das minhas perguntas. Chocada por não saber nem a metade sobre o tão decantado canibalismo brasilis, uma bandeira tão rota que já virou panfleto, é mais uma palavra sem valor que rola para desbunde e álibi de um certo oportunismo “artístico” reinante, que não é o caso de VEMVAI. Fico cheia de perguntas, provavelmente as tentarei responder em outro lugar, não nessa peça, muito menos em Zé Celso, que já deu por um tempo (sem lhe desmerecer a grandeza), mas certamente na arte, que cada vez mais é a única coisa em que eu acredito, se é que acredito em alguma.

 

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