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Não por acaso

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Leonardo Medeiros e Rita Batata em Não por acaso

Pensei que escreveria à toda um texto sobre o filme Não por acaso, do diretor estreante em longas Philippe Barcinski. Entrei no cinema para gostar e muito. Saí do cinema ainda querendo gostar e muito também, mas não deu. É um filme que vale a ser pena ser visto, pois mostra o quão capaz é esse diretor e o quão sensível ele pode ser e, acima de tudo, o quanto podemos esperar do seu segundo filme, em que certamente ele será mais fiel ao que já mostrava em seus curtas, sempre desafiantes formalmente.
Já que o primeiro tem todos os elementos para ser gostado, boa fotografia, bom som, bons efeitos, mesmo que não cole, não fisgue o coração, só posso por fé na mão autoral desse rapaz numa próxima. Pergunto-me onde ele teria errado? Se tudo parece tão redondo.
O roteiro é uma das respostas, e é chave, simplesmente ele possui duas histórias paralelas que não têm necessidade de caminharem juntas, o que as une é a mania obsessiva, a clausura, o aprisionamento que ambos protagonistas sofrem e o fato de eles passarem por uma perda brutal para que dêem novos rumos às suas manias, mas a grande questão é que esse luto não imprime na tela, e deveria ser melhor trabalhado. Faz falta, é pouco crível que tamanha violência, a morte de dois personagens num acidente, não invada o filme e pouco mexa no desenho dos outros personagens, ainda que “maníacos obsessivos”. E mais grave: sequer mobilize o público, a morte não tem o peso devido. Errou-se a mão aí. Seriamente.
O fato é que uma das histórias não convence, nem a trama, nem a atuação dos atores Rodrigo Santoro e Letícia Sabatela, no caso dela acho que a personagem carecia de elementos, sua atuação parece se sustentar no vazio, não é nem uma empresária de comodities, nem frustada com seu trabalho ou encantada com seu par a ponto de imantar a platéia ( e é linda!); já Rodrigo parece ter um prato cheio, mas ficou caricato, ele está com um bigodinho risível, plantado na cara, e um figurino que parece saído de uma novela das oito, e ele não precisava de nada disso, nada. É até cruel justapô-lo a atuação brilhante de Leonardo Medeiros, um dos melhores e maiores atores de sua geração. A personagem que criou e a cumplicidade silenciosa em suas cenas com Rita Batata, sua filha na trama, justificam a ida ao cinema, assistir o filme no telão. Esse é um ator que é só aparecer em cena que eu ligo as antenas, mesmo que não precise, porque ele o faz por mim. Não sei se sua trama era boa o suficiente, mas se ele a fez assim, porque a sua atuação é de um pulso tal que parece prescindir de um bom roteiro; seu tom monocórdico e fracassado todo filme, a tristeza que lhe molda o corpo indicam um domínio do ser ator que vai além de um filme. Leornardo é mais um daqueles atores que são atores estejam onde estiver, sob qualquer direção.
Mas não quero ser injusta com o jovem diretor, claro que devem haver elementos no roteiro para atuações tão delicadas e um trabalho tão brilhante de Medeiros. Ele também deve ser um bom diretor de atores, porque boas atuações indicam sensibilidade na direção. Entretanto o que eu vi, se eu tivesse que escolher uma imagem para tal, foi um “filme-novela”.
Não por acaso é um filme com dois núcleos, como uma novela que tem vários. Um dos núcleos é cinema, e o protagonista é Leonardo Medeiros; o outro é novela, e o protagonista é Santoro. Creio que Barcisnki está dividido entre duas estéticas, não sei se de tanto fazer publicidade ou se por tanta vontade de filmar tenha feito concessões. Pois além de exagerar nos figurinos e na caracterização gestual de algumas atuações, no núcleo Santoro há até exagero nos efeitos, a cena de sexo cheia de fusões me constrangeu, não havia necessidade de tantos recursos para velá-la, digamos assim.
Agora, algo que pesou deveras, e neste texto vai como a azeitona da empada, foi a trilha sonora. Um filme tão sóbrio, tão contido em seu texto, não deveria procurar se explicar ou coisa que o valha por meio de letras de canções. Não por acaso pedia um super trilha instrumental e ponto. Barcinski promete mais e desconfio que ele deverá fazer uma escolha séria na próxima para que suas reais intenções imprimimam e tenhamos um “filme-filme”.

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