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Carreiras

Eu gostei muito de ter assistido a peça Carreiras, de Domingos de Oliveira, inspirada na peça Corpo a Corpo, de Vianinha; vi creio que no ano passado. Fiquei impressionada com a força do monólogo e, sobretudo, com a energia da atriz Priscilla Rozenbaum. Ela fazia o papel de uma âncora que lá pelos 40 se vê substituída numa das programações da rede em que trabalha por uma novata. Alucianada ela passa uma noite absolutamente nas trevas, cheirando todas e embriagada liga para os seus superiores, chefes, para os altos escalões, para aqueles que fazem parte de um sistema de que ela também faz parte, mas não é mais que joguete.

Louca, ela vomita verborragicamente pelo telefone o que de pior ela viu e viveu nos bastidores da emissora, mas há um fio tênue entre a repulsa e o tesão que ela sente por esse meio, a cocaína dá o tom. A coragem de mandar todos a puta que pariu e a arrogância para se sentir muito melhor do que todos e, sub-repticiamente, à altura deles, quiçá além de todos que ousaram passá-la a uma posição inferior no concorrido panteão de estrelas da casa.
A ambigüidade da personagem se esclarece ainda mais no desfecho, mas não fosse tão violenta e eficaz a atuação da atriz, ela não seguraria o final, uma virada que seria óbvia, mas que me surpreendeu, completamente. Acreditei que à ida ao fundo do poço levaria à âncora a outras escolhas na vida, e que ela de fato estava farta do que quase a enfartou, mas era tudo mais perverso do que eu podia imaginar. Fiquei encantada com o tour de force da atriz e aprendi a gostar ainda mais de Domingos de Oliveira, que descobri faz pouco, se comparado ao tamanho de sua carreira, seu filme Todas as Mulheres do Mundo é tão pra lá de clássico que desconfio que apenas acho que vi, mas não vi não.
O fato é que aprendi a amá-lo com Separações e Amores, ele fala daquilo que é praticamente indizível nas relações, de maneira prosaica, sem grandes elucubrações, ele não é um francês falando de amor cheio de circunvoluções e cabecices, nem um novaiorquino analisado chato, ele é um carioca pô! Um brasileiro! E eu entendo esse tema universal como nunca quando assisto seus filmes, sinto aqui, fundo como boa balzaca.
Mas voltando a Carreiras. Esta não é propriamente uma peça do que aparentemente Domingos mais sabe falar, mas é, porque pelas carreiras (de pó e profissional) a personagem manda às favas tudo o que possa significar vida pessoal, o noivo é um nada, não à toa os offs dele na peça são péssimos, não que isso justifique o deslize, mas quem quer saber disso quando se tem um trator demolindo tudo como Priscilla?
A peça virou filme e fui assistir, fico feliz que a atuação de uma atriz como ela seja eternizada, esta é uma das graças do cinema, ganhou o Kikito de melhor atriz, aliás. Devo dizer que vibro em saber que Domingos está filmando e em digital, com um fotógrafo das antigas como Dib Luft, que em 8 noites e com baixíssimo orçamento, ele fez um puta filme que pode animar muitos a fazerem o mesmo: reunirem-se em cooperativa para dar cabo a suas idéias, para multiplicar talento. O filme é um libelo pelo cinema autoral, pela liberdade de filmar, independente do que os estetas de plantão possam desejar. É um filme de quem precisa filmar para viver e não tem tempo a perder, por isso amei o filme e a proposta de vida que ele encerra. Entretanto, confesso, apesar de muitas das soluções dadas a peça na linguagem de cinema terem sido muito bem urdidas, e o filme tenha ganhado com o personagem do ex-marido feito pelo próprio Domingos, acho que o teatro ganhou dessa vez. Preferi a peça. O texto era mais contundente no palco e atriz imensa.
Mas isso é que menos importa agora, temos um belo texto em duas linguagens, sorte de quem viu os dois e de quem está acompanhando esta espécie de guerrilha de Domingos de Oliveira. Todas as loas pra ele.

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2 Comentários Comente
  1. Interaubis #

    você foi assistir ontem?
    também escrevi um post sobre o filme, fui ontem de tarde.

    não vi a peça, mas como cinema o filme é ótimo, achei.

    ps, você escolheu um frame do filme que tem um gatinho de madeira!

    bjos

    26 de junho de 2007
  2. Gato #

    Assisti ao filme sábado. Menino, como você presta atenção! Não tinha visto o gatinho.
    Bjs, Lu

    26 de junho de 2007

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