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Contra e Atravessando

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Eu não poderia deixar de assistir Atravessando a Ponte, do diretor alemão descendente de turcos Fatih Akin, já que seu filme Contra a Parede é um dos meus favoritos. E eu estou numa certa onda turca, creio que há mais tempo do que imagino, só o nome do blogue já indicia.
Documentários são apenas aparentemente filmes fáceis. Entre a realidade e a ficção, (não sei muito mesurar este corte e aí talvez more a questão) eles podem explorar o próximo, não digo nem só a imagem do próximo, sem dó nem piedade, tudo em nome do cinema. Sempre fico melindrada com isso, com a ética no documentário, porque em ficção a discussão é outra, quando há, apesar de eu considerar muitos longas absolutamente cínicos, sem ética qualquer que seja, é muito difícil sustentar tal visada. Parece que em ficção tudo se justifica.
O interessante é que uma ficção pode se “explicar” ou se iluminar com um documentário feito após ela ou a partir dela como canta a maioria. É o que acontece com o filme Contra a Parede após assistir o Atravessando a Ponte, ou vice-versa: o documentário agiganta-se ao assisstir a ficção que lhe antecede, porque ambos partem de uma mesma força motriz.
Mergulhei de cabeça no Atravessando a Ponte e descobri o quão um bom filme pode pedir outro e mais outro e mais outro,porque quando a questão é vital, quando o filme tem o que dizer, ele não se esgota. Vi o Atravessando, num primeiro momento, como um continuum necessário do Contra a Parede, independentemente de gêneros. Aliás, não só eu o vi assim como muitos outros, pois pelo que pude ler nas minhas rasantes diagonais pelos jornais, ao fazer o longa, na gravação da trilha sonora, o diretor foi engolido pela riqueza musical da Turquia e, para surpresa geral, no ano seguinte ao bem sucedido longa, o diretor não se lançou à outra ficção, mas a um documentário. Até aí concordamos todos, o fato dá a letra, mas as matérias não saíram dessa constatação.
O ponto é que em matéria de criação, fatos e marcos são sempre balela, historinha pra boi dormir. Atravessando a Ponte me pareceu uma viagem do diretor ao olho do furacão que o mobilizou a fazer Contra a Parede, aos zilhões de paradoxos que a Turquia encerra, especificamente, Istambul; eu não quero usar o jargão psi, mais cai como uma luva: o Atravessando é um tremendo e delicioso “retorno do recalcado”. É mais que continuum, é o mesmo filme, a mesma irrefreável volta ao redor, através, pela, contra, a ponte/parede.
Após assistir o documentário, revi o Contra em DVD e percebi que a música nele já era quase uma das suas personagens, ela já era uma voz, já o notava narrativamente. Fatih Akin já fazia o documentário no longa anterior, não à toa a personagem principal do Contra e o alter ego do cineasta no documentário se hospedam num mesmo hotel na Turquia.
Os filmes se sobrepõem e assistir os dois só refina a visão de ambos. Gosto da descoberta ou da hipótese, que seja!,de que esse diretor se enquadra numa “linhagem” de cineastas que estão sempre filmando o mesmo filme, girando em torno do mesmo tema, aprofundando uma mesma questão, de modo não a estancá-la, mas a ampliá-la. Eu gosto disso, da repetição que inova, da investigação obsessiva.
Ver o Atravessando a Ponte ilumina a claustrofobia, em vários níveis do Contra a Parede, mas não a resolve, a asfixia permanece. Ao final do documentário, não por acaso, o alter ego do diretor diz que sai da Turquia sem entendê-la, mesmo depois de ter escutado a música romena, a curda, o rap e o rock turco. E é por aí a graça. Eu acho. Penso que as bandeirinhas de Volpi são por aí, os carretéis de Iberê Camargo também, cada um em sua gradação, em sua praia. A repetição transforma e trás a forma, por insistência, pelo volume máximo que pode pedir.
Fui ver um outro filme do Fatih Akin, mas revi uns outros dois. O meu bilhete trazia um bônus: uma faixa outra que me trazia de volta ao primeiro filme, o melhor, aliás.

Bonus track do post:

Aynur, cantando em curdo, sua língua materna que, na babélica Istambul, foi proibida até 1991.

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