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Peixe
Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia o que fazer agora da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1º – peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; – 2º – peixe, cor preta, pintor em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.
Herberto Helder
P.S.: Encontrei este trecho ontem solto numa folha de fax em um caderno de 1998. Não lembro quem me passou o texto, qual é o título, se é que tem um, ficou o peixe. Não imaginei que fosse Herberto Helder, gosto do texto, mas acho que sobram palavras. Ele podia se explicar menos. Como eu agora.
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Cru
Quando o Otto pesa, pesa de um jeito que eu não gosto, e gosto ainda mais. Ele parece um cavalo, não aquele que carrega, que incorpora, mas o cavalo mesmo. E é lindo, com exagero, com desajeito, cru, com sua cavalar delicadeza: “há sempre um lado que pesa e outro que flutua.”
* faixa “Crua” do seu novo álbum “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”.
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Para minha Ofélia
Que ela fique emparedada por uma chuva que de tão chuva seja azul, daquele encarnado quase violeta que não se liga com flor com céu com ventre com nada, apenas com piscina e piscina, das bem tediosas, muito cloradas, olímpicas, quilométricas, horizontais, daquelas que afogam. Que ela caia de barrigada contra uma água que de tão água seja pedra, e de tão cinza seja azul, daquele mesmo que não se liga com nada, apenas com azulejos feios e piscina e piscina, das muito abafadas, nem redondas nem quadradas, lotadas, daquelas que de tão quentes, queimam, e de tanta gente, apertam. Que ela fique lá, obliterada, gota, poça, clube, parque aquático, longe, onde quer que seja, muito piscina e piscina, presa, fora de mim.
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Paixão, search
Paixão Segundo São Mateus, “Erbame Dich, mein Gott”, de Bach, na voz de Kathleen Ferrier, com a sinfônica de Viena regida por Herbert Von Karajan, enfim a encontrei para oferecê-la a você.
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Dois
Sem aviso, eu voltei lá. Aquela sopa de legumes insossa e quente em pleno verão carioca eu tomei. E a minha voracidade em tomar a sopa eu senti. E a fragilidade deles notei. E a carranca e as rugas de cada um. E os dias contados também. Os ruídos dos goles e das cumbucas eu ouvi. E aquilo que eu não gostava e até me parecia abjeto finalmente eu gostei. E aqueles dois, que não estão mais, estão lá e aqui.
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Posto 12, ver o Rio
Tenho acompanhado o blog da arquiteta Ana Luiza Nobre, Posto 12. Espio o seu olhar, o que ele revela de bonito e terrível na cidade do Rio de Janeiro. Confesso que o Rio se esvaziou pra mim e é difícil retomar a sua paisagem, mas eu quero tê-la de volta, é preciso. Elegi o Posto 12 como uma boa via de acesso. Pelo olhar da Ana eu vou olhando de novo e pela primeira vez o Rio, por que não? Cada post dela é como um postal de uma amiga que recebo de lá. De uma amiga em vigília, que cuida das praças, dos prédios, dos murais, das gentes, das coisas pequenas e grandes da cidade, até do meu avô, que não é só meu graças a pessoas como ela. Obrigada pela lembrança Ana. Para vê-la clique aqui.
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Coisa antiga
Era tipo uma baiana na Sapucaí, porque só sabia mexer bem os braços, e dava aqueles giros e parecia querer dizer alguma coisa como “eu sou um mar” ou “eu estou me afogando!”, tinha um ar de anjo, mas usava pano demais, poderia ser a Elis Regina aqui ou ali, ou uma dançarina clássica sem um nadinha de cisne, ou até uma daquelas ginastas olímpicas que dançam feito um corpo que cai com fitas na mão, mas era diferente, era parangolé pra mais de metro, e inocente como os parangolés não são, uma coisa antiga, que não quer ser esquecida, que a gente para pra ver, tipo o começo do mundo.
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